quarta-feira, outubro 22, 2008

O Mistério das Fotografias

Tinha três anos. Talvez já cinco. Não me lembro. Acompanhava a minha Mãe, sempre que ela visitava amigas. Lembro-me de algumas, lembro-me de algumas das suas casas, mas para este texto não é importante. O que importa e do que me lembro claramente é que em todas as salas havia sempre muitas fotografias. Fotografias penduradas em paredes. Fotografias pousadas em camilhas. Fotografias a preto e branco, que a cores ainda não as havia. Gostava de as perscrutar. Gostava de as admirar. E dizia: - esta pessoa já morreu, esta está viva, esta outra pessoa já morreu, esta ainda não. Zangava-se a minha Mãe: - Não digas disparates! Mas o que é certo é que acertava sempre.
Hoje não sei distinguir, perdi o jeito de penetrar nas fotografias, mas sei que era nos olhos que estava o mistério. Os olhos das pessoas vivas eram diferentes daqueles das pessoas que já nos haviam deixado. Destas, eram olhos vazios, eram olhos sem alma. A alma deixa-se fotografar. O corpo permanece nas fotografias, mas a alma não.

11 Comentários:

Blogger Madalena disse...

Pois é Laura. O mistério é mesmo esse: o que nós conseguimos adivinhar olhando para uma fotografia! Mil beijinhos

quinta-feira, outubro 23, 2008 8:42:00 da manhã  
Blogger Carlota disse...

Oh, Laura! Este post está super-dentro-da-época. É halloweenesco!

quinta-feira, outubro 23, 2008 8:45:00 da manhã  
Anonymous Anónimo disse...

Acho fantatica essa tua sensibilidade!!!.Beijo
beirense

quinta-feira, outubro 23, 2008 9:25:00 da manhã  
Blogger espumante disse...

Agora que falas nisso...
:)
Mais a sério, eu já tive reflexões semelhantes quando vejo fotos de pessoas vivas ou falecidas. Todavia, sou levado por caminhos diferentes. Eu explico. Ainda hoje olho para fotos do meu pai e parece que o vejo bem vivo a meu lado a dizer-me, como costumava fazer: - Meu rapaz! (e seguia-se o conselho. Ou a opinião, já que o meu pai era um grande conversador!).
Beijinho para ti

quinta-feira, outubro 23, 2008 4:00:00 da tarde  
Blogger Torquato da Luz disse...

Penso que o mistério não estava nas fotografias nem nos olhos dos fotografados.
O mistério estava, sim, nos teus olhos, porque tinhas três a cinco anos e nessa idade nada é impossível, tudo é verdade.
Belo texto!
Um bj.

quinta-feira, outubro 23, 2008 6:17:00 da tarde  
Blogger Laura Lara disse...

Madalena
Pois é, mas cada vez mais adivinho menos.
Beijos

quinta-feira, outubro 23, 2008 7:35:00 da tarde  
Blogger Laura Lara disse...

Carlota
Juro que nem me tinha lembrado do dia das bruxas!!!
Beijos

quinta-feira, outubro 23, 2008 7:36:00 da tarde  
Blogger Laura Lara disse...

Beirense
Será mesmo sensibilidade?
Beijos beirenses

quinta-feira, outubro 23, 2008 7:37:00 da tarde  
Blogger Laura Lara disse...

Espumante
Essa é outra história que, por acaso, também me acontece com pessoas que foram muito importantes na minha vida.
Beijos

quinta-feira, outubro 23, 2008 7:40:00 da tarde  
Blogger Laura Lara disse...

Torquato
Acho que tens razão, embora continue a não entender a razão por que acertava sempre.
Beijos

quinta-feira, outubro 23, 2008 7:43:00 da tarde  
Blogger Luisa Hingá disse...

Sensibilidade era, de certeza.
Beijinhos

domingo, novembro 09, 2008 5:25:00 da tarde  

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