sexta-feira, setembro 19, 2008

Pouca terra, pouca terra, u-uuu

Encontrei estas notas. Como adoro guardar "lixo", deparo-me com estas surpresas.

Num dia 7 de Março, uma terça-feira de Carnaval, às catorze horas e quinze minutos, não sei de que ano, fiz esta viagem de combóio da Figueira da Foz para Lisboa.
Durante muitos anos, houve combóio directo a ligar o Rossio, em Lisboa, à Figueira da Foz. Há muito que já não há.
Escrevi assim:
Combóio da Figueira da Foz para Lisboa, na Linha do Oeste.
Carruagem de 1.ª classe. Sujíssima. As janelas tão baças que mais parecem de mica, embora ostentem a inscrição “Sekurit – Saint Gobain”. Os bancos, forrados a uso de muitos anos, esqueceram as protecções do encosto das cabeças.
No seu pachorrento pouca terra, pouca terra, u-uuu, alcança-se a primeira estação
Bifurcação de Lares – um espaço moderno, todo envidraçado, no meio de sítio nenhum. Segue-se-lhe a
Amieira - estação antiga, a fazer-me lembrar uma cena dos velhos filmes do far-west. Portas por pintar. Resquícios de um jardim, com um pilar em pedra no meio. Bonitos azulejos azuis e brancos. Por cima da porta principal, um enorme quadro, de cores desbotadas, reproduz uma paisagem indefinida, titulada “Suíça”. Oferta antanha de alguém importante da terra?
Chegamos a
Louriçal /Marinha das Ondas – estação com blocos de pedra por todo o lado. Vestígios de ruínas romanas? Lixo, muito lixo. Muitas quintas, muitos poços, mas tudo desoladamente seco, desarranjado, desinteressante. Pinhas, eucaliptais, mais pinhais, mais eucaliptais.
Paramos em
Monte Real – estação com janelas totalmente sem vidros ou apenas com bocados. Quadro, no estilo do da Suíça, a reproduzir um enorme edifício intitulado “Banco Português do Atlântico”.
Vejo agora a indicação de
Leiria – estação com belos azulejos alusivos a monumentos da terra. Bancos em inox. Quem teria tido tal ideia? Senhor Jesus dos Milagres é uma igreja reproduzida num dos painéis de azulejo. Afasto o olhar e vislumbro um enorme cemitério de automóveis. Três mulheres, num piquenique mesmo à beira da linha, erguem euforicamente os braços, ao arrancar do combóio, e dizem-me adeus, com radiosa alegria espalhada no rosto. E tudo continua tão seco. Pinhais e mais pinhais.
Eis
Marinha Grande – ladeada por um enorme edifício, Santos Barbosa Vidros, SA, e um estádio de futebol um pouco mais adiante. Mais pinhal, mais eucaliptal. A terra é cinzenta. Vejo uma estrada em construção. Será a prometida auto-estrada até à Figueira da Foz?
Paramos na estação de
Nazaré / Valado / Alcobaça – Painéis de azulejo, em estado deplorável. Que pena! Será que não se justifica a utilização de uma qualquer verba que reponha alguma dignidade a estes edifícios?
O combóio apita e estamos em
S. Martinho do Porto – literalmente esmagada por enormes blocos de edifícios, que me transportam repentinamente para um outro século que já tinha esquecido. Mais pinheiros, mais eucaliptos.
Estamos nas
Caldas da Rainha – edifício coberto de belos azulejos. Um curioso edifício com alpendre denomina-se, com letras entrelaçadas, “Restaurante CP”. Tudo fechado, tudo fantasmagoricamente fechado.
Segue-se
Óbidos – a merecer uma estação mais de acordo com a beleza do castelo e da muralha. Pena também que uma pequena capela se apresente em ruínas.
Agora vem
Bombarral – parada, numa via, uma composição em total estado de decomposição recorda-nos o quê? Terra vermelha, tal como o vinho da região. Muita vinha plantada.
Em
Torres Vedras – aprecio um lindo conjunto de casas antigas. Em Runa, onde o combóio não parou, vi mais casas destas. Quase todas abandonadas.
Em
Pero Negro – deixei de escrever. Está tudo em obras. No meio delas, uma vivenda ostenta o nome de “Caralinda Lourenço”.

Devo ter ficado a pensar...

5 Comentários:

Blogger Torquato da Luz disse...

Viajei nesse comboio, em 1966, mas em sentido contrário, entre o Rossio e Leiria. Estava na tropa: tinha acabado o curso de oficial miliciano e fui colocado na cidade do Lis, onde estive um ano a dar recrutas. Creio que não repeti a viagem, porque era incómoda e demorava muito, tendo passado a usar a estrada (que, de resto, também era um tormento...).
Gostei, como sempre, de te ler. Mas apreciei sobretudo as boas lembranças que a tua descrição me reavivou.
Um beijo.

sexta-feira, setembro 19, 2008 6:13:00 da tarde  
Anonymous Anónimo disse...

Realmente só a tua memória.
Nunca fiz tal viagem. Devia ser uma seca, como se diz agora!!!
beijinho
beirense

sábado, setembro 20, 2008 11:11:00 da manhã  
Blogger Laura Lara disse...

Torquato
Recordar é sempre bom. Obrigada.
Beijos e um bom fim-de-semana

sexta-feira, setembro 26, 2008 11:12:00 da manhã  
Blogger Laura Lara disse...

Beirense
Tinha tudo escrito...
Beijos e um bom fim-de-semana

sexta-feira, setembro 26, 2008 11:13:00 da manhã  
Blogger Luisa Hingá disse...

Eu fiz pq fui a um funeral À Figueira da Foz. Para lá encontrei uma passageira simpatquissima. Fomos sempre no paleio e lembro-me que adorei as muralhas de Óbidos. Para Lis nada se aproveitou. Tudo sujissimo. Nunca desejei tanto um wc....Risos

sábado, setembro 27, 2008 11:11:00 da tarde  

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