domingo, setembro 28, 2008

Engoli em seco

O meu neto fica nas ATL (actividades de tempos livres), depois das aulas. Às seis e meia, vou buscá-lo. Chega-me sempre esbaforido, transpirado por todos os poros, irradiando alegria, resultado de uma hora de um jogo de futebol, no qual, segundo ele, ganha sempre.
Num dia da semana passada, ao sair da escola, pedi-lhe para ir comigo à pastelaria, mesmo em frente, já que me apetecia beber um café. Ipsis verbis, respondeu-me assim:
- Avó, se estivesses tão cansada como eu estou não me fazias tal pedido. Bebe em casa que para isso é que tens lá uma máquina...

E esta?

Engoli em seco, não fui à pastelaria e não fiz café quando cheguei a casa.

sexta-feira, setembro 19, 2008

Pouca terra, pouca terra, u-uuu

Encontrei estas notas. Como adoro guardar "lixo", deparo-me com estas surpresas.

Num dia 7 de Março, uma terça-feira de Carnaval, às catorze horas e quinze minutos, não sei de que ano, fiz esta viagem de combóio da Figueira da Foz para Lisboa.
Durante muitos anos, houve combóio directo a ligar o Rossio, em Lisboa, à Figueira da Foz. Há muito que já não há.
Escrevi assim:
Combóio da Figueira da Foz para Lisboa, na Linha do Oeste.
Carruagem de 1.ª classe. Sujíssima. As janelas tão baças que mais parecem de mica, embora ostentem a inscrição “Sekurit – Saint Gobain”. Os bancos, forrados a uso de muitos anos, esqueceram as protecções do encosto das cabeças.
No seu pachorrento pouca terra, pouca terra, u-uuu, alcança-se a primeira estação
Bifurcação de Lares – um espaço moderno, todo envidraçado, no meio de sítio nenhum. Segue-se-lhe a
Amieira - estação antiga, a fazer-me lembrar uma cena dos velhos filmes do far-west. Portas por pintar. Resquícios de um jardim, com um pilar em pedra no meio. Bonitos azulejos azuis e brancos. Por cima da porta principal, um enorme quadro, de cores desbotadas, reproduz uma paisagem indefinida, titulada “Suíça”. Oferta antanha de alguém importante da terra?
Chegamos a
Louriçal /Marinha das Ondas – estação com blocos de pedra por todo o lado. Vestígios de ruínas romanas? Lixo, muito lixo. Muitas quintas, muitos poços, mas tudo desoladamente seco, desarranjado, desinteressante. Pinhas, eucaliptais, mais pinhais, mais eucaliptais.
Paramos em
Monte Real – estação com janelas totalmente sem vidros ou apenas com bocados. Quadro, no estilo do da Suíça, a reproduzir um enorme edifício intitulado “Banco Português do Atlântico”.
Vejo agora a indicação de
Leiria – estação com belos azulejos alusivos a monumentos da terra. Bancos em inox. Quem teria tido tal ideia? Senhor Jesus dos Milagres é uma igreja reproduzida num dos painéis de azulejo. Afasto o olhar e vislumbro um enorme cemitério de automóveis. Três mulheres, num piquenique mesmo à beira da linha, erguem euforicamente os braços, ao arrancar do combóio, e dizem-me adeus, com radiosa alegria espalhada no rosto. E tudo continua tão seco. Pinhais e mais pinhais.
Eis
Marinha Grande – ladeada por um enorme edifício, Santos Barbosa Vidros, SA, e um estádio de futebol um pouco mais adiante. Mais pinhal, mais eucaliptal. A terra é cinzenta. Vejo uma estrada em construção. Será a prometida auto-estrada até à Figueira da Foz?
Paramos na estação de
Nazaré / Valado / Alcobaça – Painéis de azulejo, em estado deplorável. Que pena! Será que não se justifica a utilização de uma qualquer verba que reponha alguma dignidade a estes edifícios?
O combóio apita e estamos em
S. Martinho do Porto – literalmente esmagada por enormes blocos de edifícios, que me transportam repentinamente para um outro século que já tinha esquecido. Mais pinheiros, mais eucaliptos.
Estamos nas
Caldas da Rainha – edifício coberto de belos azulejos. Um curioso edifício com alpendre denomina-se, com letras entrelaçadas, “Restaurante CP”. Tudo fechado, tudo fantasmagoricamente fechado.
Segue-se
Óbidos – a merecer uma estação mais de acordo com a beleza do castelo e da muralha. Pena também que uma pequena capela se apresente em ruínas.
Agora vem
Bombarral – parada, numa via, uma composição em total estado de decomposição recorda-nos o quê? Terra vermelha, tal como o vinho da região. Muita vinha plantada.
Em
Torres Vedras – aprecio um lindo conjunto de casas antigas. Em Runa, onde o combóio não parou, vi mais casas destas. Quase todas abandonadas.
Em
Pero Negro – deixei de escrever. Está tudo em obras. No meio delas, uma vivenda ostenta o nome de “Caralinda Lourenço”.

Devo ter ficado a pensar...

domingo, setembro 14, 2008

14 de Setembro


quarta-feira, setembro 10, 2008

Histórias Lembradas - XX

O Padre Luís, naquele primeiro quartel do século XX, era exortado a cumprir o Jejum Eucarístico, que antecede a Sagrada Comunhão, o qual, na época, consistia na total abstinência de qualquer espécie de comida ou bebida, incluindo água, a partir da meia-noite.
Santa pessoa era o Padre Luís, venerado e adorado por todos os habitantes da sua pequena aldeia, encravada lá para as Beiras, ainda que ateus ou seguidores de outra religião que não a sua.
Gostava de conviver e à sua mesa, sempre farta, sentavam-se, não raras vezes, amigos que o ajudavam a degustar abundantes refeições acompanhadas de divinais néctares mais ou menos alcoólicos. Por mal dos seus pecados, este era o seu pecado, decerto venial, por complacência do seu Senhor. Refeições que, embora tendessem a prolongar-se, teriam impreterivelmente de terminar ao tocar das doze badaladas.
E quando todos os relógios da aldeia já há muito as tinham batido, o do Padre Luís permanecia teimosamente nas vinte e três horas, embora o seu brilhante pêndulo dourado tiquetaqueasse obedientemente no seu movimento contínuo, apenas molestado por um sistemático atrasar dos ponteiros também dourados.
Santa pessoa era o Padre Luís, que ainda hoje é lembrado na sua pequena aldeia, encravada lá para as Beiras.

segunda-feira, setembro 08, 2008

Voltei

Voltei de férias.
Voltei e encontrei um prémio.
Voltei e encontrei um desafio.
Do prémio, digo apenas que veio da Madalena, que é uma querida, que é uma amiga muito especial e que agradeço, embora não o mereça.
Do desafio, escolho o livro de Dorothy Rowe, “Time on our Side – Growing in wisdom, not growing old” e escrevo assim:
Quando era pequena, queria ser grande. Para mim, ser grande era ter dezoito anos, para fazer tudo o que me apetecesse, quando quisesse. Era controlar o tempo. Era ter o tempo todo para mim. Passei os dezoito, passei os dezanove, passei os vinte e, cada vez mais, o tempo não era meu. Eu não era eu só eu, mas um conjunto. Havia um tempo para almoçar, um tempo para estudar, um tempo para jantar, um tempo para dormir. Lembro-me de pedir ao meu Pai para ir ao cinema, à sessão das dezoito horas, e de ele me responder: - Claro, desde que estejas à mesa, para jantar, às vinte horas! Portanto, do conjunto que era eu, eram também os meus pais e a minha irmã. E o conjunto, que era eu, foi aumentando, pelo marido, pelos filhos, pelos amigos...
De repente, dei-me conta de que o tempo era apenas um inimigo meu. Inimigo que fazia parte do conjunto que era eu. O tempo, o inimigo, passa e eu envelheço. E o que é envelhecer? Na escola, eu na primeira classe, achava que as meninas do liceu eram velhas. As do último ano do liceu eram as mais velhas. Então a minha Avó, de quarenta e cinco anos, era velhíssima. Lembro-me de, há muito tempo, numa reunião de amigas, termos dito: - Somos quase quarentonas!
Não sei bem quando, conversei com o meu inimigo, o tempo, isto é, comigo mesma e concluí que tinha errado no juízo que fiz dele. O tempo tinha-me dado tanto. Toda a minha vida não teria existido sem ele. O tempo é o amigo que nunca me deixa. Tudo o que aprendi, foi ele que me ensinou. Tudo o que sou, foi ele que me fez. Ocorreu-me perguntar-lhe, perguntar-me: - Por que razão não nascemos velhos, com muito tempo, com muita sabedoria, e não crescemos no caminho da juventude? Estou à espera da resposta.