quarta-feira, julho 30, 2008

Planeamento de Engenheiro

Era engenheiro.
Como quase todos os que conheço ou conheci, acreditava que a vida podia ser planeada.
Planeou os estudos, planeou o emprego, planeou o casamento, planeou até o número de filhos que queria ter. Quatro.
E planeou, obviamente, quatro métodos infalíveis de educar crianças.
Passados alguns anos, desabafava assim com um amigo:
- Filhos, tenho quatro, mas métodos para os educar... nenhum!

segunda-feira, julho 21, 2008

Histórias Inventadas? [22]

Era o sineiro lá da igreja da terra.
Cumpria a sua tarefa com grande rigor. Conferia-lhe importância e prazer anunciar, com o tocar dos sinos, todos os acontecimentos da aldeia, tristes e alegres ou nem uma coisa nem outra.
Era analfabeto.
Um dia, ordens superiores determinaram que ninguém, sem o primeiro grau do ensino primário, poderia trabalhar na paróquia.
E o sineiro, com grande desgosto, deixou de o ser.
Sem meios de subsistência, tinha de arranjar um modo de vida.
Reparou que, aos Domingos, estando o comércio fechado – na verdade era uma única loja que vendia de tudo e ainda era barbearia e local de reunião da população – não havia onde adquirir nem um jornal, nem uns cigarritos.
No caminho para a igreja, onde todos os paroquianos passavam, montou um quiosque. Ao princípio pouca coisa; com o passar do tempo chegaram as lâminas de barbear, os lápis, os cadernos, as sebentas, uns livritos, linhas de coser, agulhas, alfinetes e tudo o mais que as pessoas pedissem. O negócio florescia e o dinheiro ia sendo guardado no colchão.
Quando a quantia já somava um valor razoável, embrulhou-a num jornal e rumou à vila mais próxima para a depositar num Banco. O empregado que o atendeu, perante a importância em questão, chamou o gerente. Gente com tanto dinheiro era sempre atendida pelo gerente. Todo mesureiro, prestou-lhe todos os esclarecimentos e preencheu toda a papelada. No final, pediu-lhe que a assinasse.
- Sou analfabeto, não sei ler nem escrever...
- Analfabeto!? Imagine o que seria, se soubesse ler e escrever!
- Sineiro, senhor...

quarta-feira, julho 02, 2008

Histórias Lembradas - XIX

Lembro-me de que, aí com os meus cinco anos de idade, passei férias no Vumba, Rodésia.
Lembro-me de que a língua nunca foi uma barreira para conviver com todos os meninos que falavam inglês. Não sei como, mas entendíamo-nos perfeitamente.
Lembro-me de que, nas nossas brincadeiras, fazíamos rodas e que lá a cantilena “ah, ah, ah, minha machadinha” transformava-se em: “ring a ring a roses, a pocket full of posies, ashes, ashes, we all fall down”.
Lembro-me de que as crianças tomavam as refeições antes dos adultos.
Lembro-me de que, como não sabia ler a ementa, a minha mãe vinha escolher por mim.
Lembro-me de que, com um amiguinho, andei a treinar a dizer: pudding, puding, pudding, para que, quando o criado apresentasse a ementa para a sobremesa, eu pudesse escolhê-la sozinha, tendo previamente declinado a ajuda materna.
Lembro-me de que a refeição correu ansiosamente à espera da sobremesa. A lista chegou. Inundada de satisfação, peguei-lhe, fingi estar a escolher e quando, ufanamente, me preparava para, com a minha melhor pronúncia, resultado de intenso treino, dizer: PUDDING, um criado, que falava português, diz-me: - não sabes inglês, pois não? E foi ele que pediu o pudding...
Lembro-me de nunca, com tanta raiva, ter odiado tanto ninguém. Que desmancha-prazeres!