sexta-feira, junho 27, 2008

Histórias Inventadas? [21]

De uma alcandorada vila da Beira Alta, partiu, um dia, para os Estados Unidos da América, uma personagem que, umas décadas mais tarde, no seu regresso, rica e poderosa, todos apelidariam de “o americano”, por lhe terem esquecido o nome ou por nunca o terem sabido e por o seu linguajar estar fortemente marcado por expressões e tonalidades diferentes das portuguesas.
Na sua vila, adquiriu, por bom preço, uma bela mansão, abandonada, há muito tempo, por estar assombrada. Fantasmas, ou outros espectros, gritavam, arrastavam grilhões, iluminavam janelas com cores fosfóricas, espalhando o medo por toda a população, que não ousava aproximar-se durante a noite.
Havia que mobilar a casa.
Lá para os lados de Oeiras, um belo palacete, de ilustre, mas falida família, foi posto em almoeda, com todo o seu belo e valioso recheio.
A oportunidade foi aproveitada.
O jornal, de maior circulação na época, barafustou em artigo que ocupava uma boa parte da última página. Que parecia impossível o Estado deixar sair para o estrangeiro obras de tanto valor e permitir que “um americano” adquirisse quase a totalidade do mobiliário.
Foram muitas as peças arrematadas. Tantas quantos os exemplares comprados do dito jornal.
Cada uma tem colada, em lugar escondido, o artigo do jornal, para que conste que o estrangeiro, neste caso, revelou-se ser apenas uma alcandorada vila da Beira Alta, onde uma casa assombrada se desassombrou.

terça-feira, junho 24, 2008

A Mesa

A mesa é imensa. Como aquelas dos castelos, com duas pessoas sentadas, uma em cada cabeceira. Mas esta mesa quis-se imensa porque desejava-se que sentasse muitas pessoas. E assim foi acontecendo. Por várias vezes teve ainda de ser acrescentada. Com belas tábuas, em vinhático, cuidadosamente talhadas e encaixadas pelo artista marceneiro, os aumentos quase se escondiam.
Belos convívios aconteceram à volta daquela imensa mesa.
Imensa alegria, imensa amizade.
O tempo parecia imenso.
A vida acreditava-se imensa.
Cada cadeira tinha inscrito o monograma do seu ocupante.
Um dia, uma cadeira, a de uma das extremidades esvaziou-se. Ninguém mais a ocupou. O vazio tornou-se imenso.
Aos poucos, outras cadeiras foram-se enchendo de vazios. Vazios imensos.
A mesa permanece.
As cadeiras, frias, alinhadas, permanecem.
E permanece uma saudade imensa, que, muitas vezes, numa alegria relembrada, enche a mesa e ocupa as cadeiras todas.

segunda-feira, junho 23, 2008

Agora, é um ver se te...

Antigamente, os electrodomésticos duravam, duravam.
Agora, é um ver se te avias.
Ou será: Agora é um ver se te havias?
(Quem sabe dizer-me a forma correcta e o que significa ao certo?)
Lá tenho que ir comprar um aspirador novo!
E isto é certo. E isto eu sei.

quarta-feira, junho 18, 2008

Troféu

Primeiro troféu ganho pelo meu neto, Guga, no torneio de xadrez, no passado dia 10 de Junho.

10.º Open A.C.L.C.
2008
SUB 10
1.º LUGAR

segunda-feira, junho 16, 2008

O tempo não rende


Acabei de chegar a casa, vinda da aula de “Antropologia”. Hoje falou-se do período de terror, em França. Danton, Marras, Robespierre...
Passei pelo supermercado. Já estou a adiantar o jantar. Já pus a mesa.
Passei pela livraria. Comprei estes dois livros. O de Mia Couto é leitura obrigatória. O outro não sei.
Às cinco horas tenho uma pequena reunião de condomínio (este ano sou administradora) para corrigir uma cláusula do seguro obrigatório do edifício.
Quando acabar, vou pôr roupa a lavar, que os meus netos nem sabem, parece, que a água não é infinita. Sujam, sujam, sujam.
E o tapete de Arraiolos? Alguns pontos tenho que lhe dar.
Como queres, Torquato, que arranje tempo para inventar tempo para trabalhar a inspiração?
A minha Mãe diz que, quando vamos para a velhice, fazemos tudo muito devagar. Deve ser isso. O tempo não rende.