segunda-feira, março 31, 2008

Histórias Inventadas? [18]

Na altura, ainda havia, em África, terra portuguesa.
Todos os serviços públicos receberam, enviadas pela Administração Central, fotografias dos Presidentes da República e do Conselho, acompanhadas de ofício, indicando que as mesmas deveriam ser colocadas, bem visíveis, nos locais mais frequentados pelos funcionários e público em geral.
Um Director foi suspenso e mandado regressar à Metrópole.
Porquê?
Por ter achado que os locais que correspondiam ao solicitado eram as casas de banho, onde, consequentemente, mandou pendurar os Senhores Presidentes.

sexta-feira, março 21, 2008

No Dia Mundial da Poesia


"Daffodils”

I wander'd lonely as a cloud
That floats on high o'er vales and hills,
When all at once I saw a crowd,
A host, of golden daffodils;
Beside the lake, beneath the trees,
Fluttering and dancing in the breeze.

Continuous as the stars that shine
And twinkle on the Milky Way,
They stretch'd in never-ending line
Along the margin of a bay:
Ten thousand saw I at a glance,
Tossing their heads in sprightly dance.

The waves beside them danced; but they
Out-did the sparkling waves in glee:
A poet could not but be gay,
In such a jocund company:
I gazed - and gazed - but little thought
What wealth the show to me had brought:

For oft, when on my couch I lie
In vacant or in pensive mood,
They flash upon that inward eye
Which is the bliss of solitude;
And then my heart with pleasure fills,
And dances with the daffodils.

William Wordsworth (1770-1850)

sexta-feira, março 14, 2008

Porquê, mas porquê?!!

A Carlota lançou mais um desafio: Porque é que tens um blog?

É óbvio que aceito o repto. Porque a Carlota escreve muito bem. Porque a Carlota tem ideias muito originais. Porque a Carlota tem um Migas que me delicia com aquela boca toda lambuzada de chocolate. Porque a Carlota pertence ao inefável clã de Bruxelas. Porque a Carlota já pertence à minha família “electrónica”.

Três dias depois do meu primeiro texto espalhado pela blogosfera, escrevia assim:

Que atracção é esta?
Dei comigo a pensar: qual a razão por que não aproveitamos o tempo que gastamos em frente do monitor a telefonar aos amigos para combinar um encontro ou apenas para conversar um bocado? Garanto que tenho amigos que não vejo há meses e com quem raramente falo. Bem sei que se precisar deles, eles estão sempre presentes, mas o hábito do convívio perdeu-se. Já provei o doce sabor da amizade e a disponibilidade e entrega totais de amigos meus em alturas difíceis da minha vida. Mas no ramerrão da vida, a desculpa de que não temos tempo, de que a engrenagem louca nos absorve, de que nem tempo temos para descansar, justifica todas as ausências e afastamentos. E não falo só dos amigos. Com a família passa-se o mesmo. Exceptuando o círculo mais próximo, receio um dia cruzar-me com um qualquer primo e já não o reconhecer, por o cabelo ter embranquecido e as rugas terem alterado o rosto... Há muitos, muitos anos, na agradável varanda da nossa casa em belo estilo colonial, lá pelas Áfricas, era raro o dia em que não apareciam amigos dos meus pais para beber chá ou apenas conversar. Mas deixando-me de saudosismos, que atracção faz com que eu escreva para sabe Deus quem? E que atracção faz com que leia o que não sei quem escreveu? Sinto como se tivesse um grupo de amigos sem rosto. E, curiosamente, gosto, mas não percebo porque é que gosto Faz-me lembrar uma história que se passou comigo. Uma das minhas filhas, num passeio à Suíça, encontrou, num antiquário, um daqueles fascinantes álbuns antigos de fotografias. Como sabia que eu gostaria de ter um, resolveu comprá-lo para me oferecer. Claro que adorei, mas fez-me impressão verificar que vinha cheio de fotografias de pessoas que não conhecia. Resolvi então criar uma história, depois de cuidada análise das personagens misteriosas, com avós, pais, filhos, netos e passei a designá-los como a minha família da Suíça. Talvez agora o mesmo se vá passar com a minha nova família electrónica. Mas que misteriosa atracção é esta?”

Quase três anos depois, continuo a escrever para quem?
Para os meus netos. Espero que, um dia, eles venham a gostar de tantas histórias que encheram e enchem a minha vida.
Para os velhos amigos. Que nunca se esquecem de vir dar uma espreitadela.
Para velhos amigos, que tinha perdido e que reencontrei aqui.
Para os novos amigos. Aqueles que eu não conheço pessoalmente (exceptuando meia dúzia que já encontrei), mas que fazem o favor de me visitar, de me ler e de me comentar.

E as pessoas que escolho para responderem, se assim lhes aprouver, são:

- a Madalena, que tem um blogue fabuloso;
- a Ti, que tem que retomar os seus textos deliciosos;
- a Luísa Hingá, que é minha conterrânea e faz bonitos voos sobre Moçambique;
- o Periférico, que responderá, ainda que seja numa segunda-feira;
- a Kalinka, que vai gostar deste exercício:
- a MCM, que talvez arranje um tempinho livre;
- o Torquato, que eu sei que não responde, mas que não quero deixar de referir, já que é meu ofício diário ler o seu “Ofício Diário”.

quinta-feira, março 13, 2008

Mas as Crianças, Senhor...

Quando a professora disse para os meninos fazerem um cartão para o “Dia do Pai”, um deles, com as lágrimas tristes a nascerem-lhe dos olhos tristes, disse que não fazia. Se o pai fazia-o sentir como se não existisse, ele não queria existir para o pai.
A professora hesitou. Pensou. E disse-lhe: Então faz um cartão para a Primavera, que está a chegar.
O menino ajeitou a folha de papel, abriu a caixa de lápis de todas as cores e fez um lindo cartão para um tempo que vai chegar para todos e não para um pai que, como uma fotografia antiga, cada vez mais, se esbate numa sombra cinzenta.

quarta-feira, março 12, 2008

Histórias Lembradas - XVII

O meu Pai nunca entendeu a razão por que se gastava dinheiro em determinadas coisas, nomeadamente em cortinas. A minha Mãe, não obstante tentar com veemência, nunca conseguiu convencê-lo de que as janelas ficariam mais bonitas.
Lembro-me do dia em que declarou que a sala necessitava de cortinas novas.

- Porquê? - perguntou o meu Pai.
- Porque estão rotas - respondeu a minha Mãe.
- E estão rotas porquê?
- Porque o sol as queima.
- Então, outros panos que aí sejam colocados vão também ficar queimados!?
- !!! Claro!!!
- Bem me parecia que é só queimar dinheiro...

Eu, pessoalmente, embora tenha cortinas – nunca cortinados espessos – também acho que tapam o sol e a luz que gosto que inundem a casa.

Lembrei-me desta história depois de ter lido este texto da Carlota.