quarta-feira, dezembro 26, 2007

Natal

O Natal é um repositório de presentes embrulhados em bonitos papéis enfeitados de fitas e laçarotes.
Embrulham anos e anos de natais.
Um fogão a lenha, com torneira, tampa do forno, panelinhas e frigideiras de alumínio.
Uma boneca, que anda e vira a cabeça de um lado para o outro.
Um enorme urso de peluche amarelo.
Uma edição especial do “Só” de António Nobre, encadernado a couro.
Um relógio de pulso, da marca Cortébert.
Um anel com um brilhante e uma pérola.

Caixas, caixas, caixas, sem conteúdo lembrado. Apenas recordações difusas, apagadas pela luz do tempo.
Procuro um significado. Procuro uma mensagem. Procuro uma dádiva.
Para mim? Não, para todos.
Desembrulho. Só encontro papel. Com desenhos: de flores que não cheiram; de velas que não iluminam; de meninos que não riem; de pinheiros sem resina; de anjos sem asas; de vitrais que não irradiam luz; de bolas sem magia.

quinta-feira, dezembro 20, 2007

Boas Festas

Feliz Natal
Boas Festas

quinta-feira, dezembro 13, 2007

Truz-truz...: - Between (Adenda)

A minha amiga Beirense, muito gentilmente, fez-me chegar a história, tal e qual foi contada pelo Pad Zé.

Está na pág. 280 de "O Livro do Doutor Assis" e tem o n.º VIII.
O doutor Assis foi em certa occasião convidado a passar alguns dias em Reguengos, pelo seu particular amigo o conde de Monsaraz, que na carta de convite o preveniu de que mandaria ao caminho de ferro um cavallo, que o transportasse ao solar. Certo, porém, da affabilidade do conde, o Doutor não teve duvida em instar que o acompanhassem dois dos seus amigos intimos; e para que os meios de conducção lhe não faltassem, avisou Monsaraz pelo telegrapho: "Conde de Monsaraz" Reguengos dos Mesmos - Eu e dois amigos, três cavalgaduras. -(a) Doutor Assis".

quarta-feira, dezembro 12, 2007

Truz-truz...: - Between!

Aos Domingos de manhã, muito gostava o meu Pai de ficar na cama até mais tarde. Mal ouvia a minha Mãe levantar-se, lá ia eu bater à porta do quarto. “Between” era a resposta que sempre ouvia. E, deitada, ao lado do meu Pai, deliciava-me a ouvi-lo ler. Sempre livros de humor. Recordo “O Livro do Doutor Assis”, do Pad Zé. Do livro, perdi-lhe o rasto. Das histórias, lembro-me de muitas, como desta, por exemplo. O Doutor Assis foi convidado, por um amigo, a passar uns dias de férias, na sua casa do Alentejo. Iria de combóio até à estação mais próxima, sendo o resto do percurso feito a cavalo. Tendo decidido levar dois amigos, envia um telegrama a avisar, com o seguinte texto: Eu e dois amigos, três cavalgaduras! A graça com que o meu Pai as contava faz-me, até hoje, sorrir.

Truz-truz...: - Between! Jamais deixarei de usar.

segunda-feira, dezembro 10, 2007

Azul Lisboa

De onde almocei hoje, captei esta imagem

terça-feira, dezembro 04, 2007

Ler e Chover

Sozinha em casa, acomodei-me na chaise-longue, peguei no livro e comecei a longa leitura, já que o pesado livro tem mais de quinhentas páginas.
Chovia.
Olhei para a janela e fiquei a observar os longos cordões de água que, em caminhos desencontrados, escorriam ao longo do vidro. Uns mais depressa, outros mais devagar.
Voltei à leitura. As letras moveram-se e formaram palavras diversas. Nomes de pessoas. De amigos. De pessoas que encheram a minha vida. De pessoas que passaram pela minha vida. As letras tomavam tonalidades e tamanhos diversos. Em fila, começaram a percorrer uma estreita estrada que parecia feita de marfim, da cor do papel das páginas do livro. Era comprida, ao fundo tinha uma curva. Embora se afastassem, o seu tamanho era sempre o mesmo. Venciam a perspectiva. Ao dobrarem a curva, desapareciam subitamente. Sem um adeus.
Voltei a olhar para a janela. Dentro dos cordões de chuva, que escorriam ao longo do vidro, estavam todos os nomes que tinham desaparecido na curva da estrada marfinosa. Acompanhei o movimento descendente e, de repente, todos os cordões se uniram num só.

segunda-feira, dezembro 03, 2007

Histórias Inventadas? [15]

Lá no quartel, em Luanda, durante a guerra colonial, o pessoal, quando ia ao médico e trazia o receituário com os medicamentos prescritos, tinha que passar pelo responsável para que lhe fossem apostas as respectivas assinatura e carimbagem.
Assim aconteceu com mais um soldado.
Assinada a receita, foi-lhe dito: - Vai agora àquela mesa, carimba-a e logo podes ir à farmácia. Baixou os olhos para a secretária, retomando o trabalho que tinha em mãos.
Qual não foi o seu espanto, quando, apercebendo-se do mesmo soldado à sua frente, olhou-o e viu duas mãos espetadas, bem abertas, com todas as pontas dos dedos pintadas do negro da almofada do carimbo, já que tinha marcado o receituário com todas as suas dez impressões digitais.
- E agora onde posso lavar as mãos?