sexta-feira, novembro 30, 2007

Ofício Diário / Torquato da Luz

sábado, novembro 24, 2007

Nuvens e Vida

Os rios andam em leitos.
Os mares espraiam-se por areias.
E as nuvens?
Muito cedo, me perguntava: como é que as nuvens andam lá em cima?
E ia à janela. Atirava bocadinhos de algodão que logo se precipitavam no chão.
Estariam as nuvens presas por fios invisíveis? E os fios atavam-se a quê?
Até que descobri! As nuvens caminhavam em finíssimas e transparentes placas de vidro. Placas de vidro com buracos por onde a chuva se precipitava.
As nuvens proporcionavam-me momentos de alegria, momentos de tristeza, momentos de terror. Nelas via caras de pessoas, animais fofinhos, monstros horrendos, objectos variados. Nelas imaginava histórias inteiras que faziam doer-me o pescoço de tanto tempo as olhar, sentada no segundo degrau da escada da minha casa.
Um dia, na Serra do Vumba, na Rodésia, descobri que estava acima das nuvens.
Como é que atravessei a finíssima e transparente placa de vidro?

As nuvens são como a vida, mas ao contrário. Com a idade aprendi a explicar as nuvens, mas cada vez menos sei explicar a vida.

segunda-feira, novembro 19, 2007

Poesia


...

“Silvestre quer saber
porque razão eu estrago o português
escrevendo palavras que nem há.”

...

É que eu amo tanto a Vida
que ela não tem
cabimento em nenhum idioma.”

...

“Fazer da palavra um embalo
é o mais puro e apurado
senso da poesia,”


Hoje tenho andado a embalar-me nas palavras de Mia Couto, em “Idades Cidades Divindades”.

Milagre

Pedi um milagre. Acreditei num milagre.

Milagre foi conhecê-lo.
Milagre é saber que estará sempre connosco.

quarta-feira, novembro 07, 2007

A um Amigo

Era em Dezembro que sempre nos encontrávamos.
Num almoço.

Primeiro foi colega.
Depois foi amigo.
Depois foi chefe.
Continuou amigo.
Depois saiu.
Continuou amigo.

Agora dorme um sono doloroso.
Continua amigo.

Já não vai haver almoço?
Continua amigo.

Há milagres?
Ainda acredito.

Amigo sempre.

domingo, novembro 04, 2007

Desafio

Aceitei o desafio subentendido da Pituxa.

O grande animal corneador, com um belo par de hastes, comandava a nave que percorria a longa distância entre o seu planeta e aquele onde vivia o senhor desta história.
O grande animal corneador tinha como missão aterrorizar o senhor desta história e fazê-lo escrever um texto que se plasmasse com esta senda das beiras.
Para tal, o grande animal corneador fazia-se acompanhar de apenas dois escaravelhos. Um, o escaravelho-da-batata, insecto membranoso, foi lançado de pára-quedas, sobre a Beira Baixa, nos finais do ano de 1943. O outro, uma grande ponta de marfim, foi lançado, sem pára-quedas, sobre a África Oriental, há dezenas de milhar de anos, tendo furado o olho de um nativo, que se encontrava, no mato, deitado de barriga para o ar, a descansar e a tentar limpar, com uma pua em pedra lascada, a camada preta e nojenta que lhe bordejava as unhas. O sangue esguichou violentamente, num terrífico redemoinho, e tornou vermelha a terra daqueles sítios.
O senhor desta história, que dormia numa cama larga, tapado por um cobertor fofinho, acordou. Doía-lhe um olho. Ao longo das costas, dos braços, das pernas, sentia o vaivém insuportável de inúmeros escaravelhos. Na cabeça uma dor cruciante, como se alguém aí lhe tivesse espetado um escaravelho. Levantou-se. Na cozinha, encontrou vazia a garrafa de whisky que lhe fizera companhia durante o serão.
Pegou na bicicleta. Foi pedalar na ciclovia, ao longo da praia da claridade. Olhou o mar. O sol pintava-o de vermelho. Fixou o horizonte e viu uma nave translúcida comandada por um grande animal corneador, com um belo par de hastes.

Este texto foi escrito com a pua de pedra lascada, molhada no sangue esguichado do olho.