terça-feira, maio 29, 2007

Dois Portões

O portão branco tinha inscritos o seu nome, Júlia, a data e o local de nascimento.
Entrou.
Árvores frondosas ofereciam sombras protectoras. Protegiam-na.
Flores belas exalavam perfumes inebriantes.
O caminho cor-de-rosa e macio incitava-a a pular de alegria, a seguir em frente.
O caminho foi mudando de cor e de textura. O macio cor-de-rosa foi endurecendo e equilibrando o seu encanto.
Numa curva, encontrou um lindo palácio. Nele vivia um príncipe que quis conhecê-la. Durante vinte e oito anos conheceram-se e viveram um sonho quase isento daqueles pesadelos que deslustram tantos sonos.
Um dia, o príncipe partiu.
O palácio deixou de irradiar a luz de outrora. Pesava-lhe, cansava-a. O silêncio obrigava-a a tapar os ouvidos.
O príncipe nunca regressou, mas Júlia aprendeu a encontrar a sua sombra, a viver sempre com ela.
O palácio tornou-se mais mais alegre, mais luminoso.
Ecoaram risos de crianças felizes.
O caminho cor-de-rosa desbotou, mas continuou cor-de-rosa. Ladeou-se de cactos e de lianas que deixaram de a guardar, mas que lhe ofereciam flores de beleza deslumbrante.
Avançava bem pelo meio para não se picar. Não podia deixar-se enlear.
Era assim que queria prosseguir até encontrar o portão negro de saída.
Que iria inscrever o mesmo nome, mas outra data e outro local.

sexta-feira, maio 25, 2007

Velhos Postais da Gorongosa - Moçambique

quarta-feira, maio 23, 2007

Sandokan

Ontem quis comprar um livro do Sandokan para dar à minha neta.
Escrito por Emilio Salgari.
Não existe! Esgotado, esgotadíssimo! Talvez num alfarrabista!
Fiquei triste.
Lá tenho que ir procurá-lo no meio do pó da minha garagem...

quarta-feira, maio 16, 2007

Será?

Eu não quero ser injusta com a minha vida.
Não tive tudo o queria. Mas quem tem?
Não tenho tudo o que quero. Mas quem tem?
Mas tive e tenho tantas coisas.
Nasci numa terra que me ofereceu lembranças tão doces.
Vim para uma terra que me ofereceu amigos que perduram até hoje.
Estive num colégio, ao qual estou ligada até hoje.
Criei um mundo pequenino, onde as pessoas são boas e onde o bem vence o mal.
Criei uma família linda com um marido que só existe nos contos de fada.
Será que estou a mentir-me?
Será que não quero ver o feio?
Será que recuso aceitar a verdade?
Será que o mundo está a esmagar-me?
Será?

quarta-feira, maio 09, 2007

Blogando / Festejando

Num Ofício Diário, onde me delicio com a linda poesia, as belas fotografias e as encantadoras pinturas do Torquato, dedico um bocadinho do meu tempo a visitar-vos.
Paro “No Cinzento de Bruxelas”, para saborear os magníficos textos da Pitucha, ora cinzentões ora irradiando luz.
Sigo para o “Chora Que Logo Bebes”, lugar obrigatório para ler o que a Madalena escreve, tão bem e com tanta doçura, e para aprender sempre qualquer coisa.
Espreito o “Mindshelves” para ver se a Ti descobriu qualquer nova traição literária.
Passo pela “Formiga Rabiga”, curiosa em saber se já encontrou a bengala.
Dirijo-me ao “Lote 5 – 1.º Dto”, com a certeza de que a Carlota me deixou lá algo bem surpreendente.
O “125_Azul” contagia-me com toda a ternura que a Azulita sabe imprimir aos seus textos.
Será que a Lilla Mig está na “Esplanada Mental”? Vou lá ver.
No “África de todos os Sonhos”, a Brígida Rocha Brito espera-me sempre com notícias da nossa África.
À Rédea Solta”, chega a Isabel Magalhães, que me oferece beleza.
In the Country of Last Things”, a MJM, a LM, o JPF e o FM, tornam aquele “país” num espaço de paragem obrigatória.
No “Cha-no-yu”, a Folhita acompanha-me numa chávena de chá, envolta num ambiente calmo e misterioso.
No “Blogueios”, a Luh impõe-me um “façam o favor de ser felizes”, que eu tento seguir, nem que seja “Voando em Moçambique”.
Procuro a MCM, que se perdeu na “Terra de Sol”.
Dou uma espreitadela ao que a Dakidali deixa no seu “Tretas e Afins”.
À “Kalinka”, tão querida, tão cheia de alegrias, tão cheia de tristezas, tão cheia de amigos, vou lá deixar um xi-coração.
A Sinapse, “here, there, anywhere, always Portuguese”, visito-a nos EUA, através dos seus “Postais de BXL”.
Mergulho no “Azul Indigo” para me encontrar com a Bia.
Com o “Periférico” começo a semana com óptima disposição.
Alguns outros visito também, mas a lista já vai longa e tenho que ir trabalhar...
Tudo isto para dizer que este blogue fez dois anos no dia 24 de Abril e ninguém, ninguém se lembrou, nem eu própria.
Para festejar, escolho ir ao “Espumadamente” e beber um magnífico Espumante, como só ele sabe oferecer-me todos os dias.

sexta-feira, maio 04, 2007

Histórias Inventadas? [12]

Nos meses que se seguiram à revolução dos cravos.

Da lista constavam, por ordem alfabética, nomes. Nomes de pessoas que estavam proibidas de sair do país, sem prévia autorização escrita, emanada lá dos lados do Terreiro do Paço.
Nomes, muitos nomes, todos de pessoas importantes. Nomes por que eram conhecidas. Nem sempre iguais aos inscritos em documentos oficiais.
Assim, o senhor Pulquério Fino Gordo, que usava apenas Pulquério Fino, nome que aparecia na lista, mas não no passaporte, saiu sempre que quis.
A senhora Hilda Flor saiu sempre que quis. A lista registava Ilda.
O senhor Real Honrado estava na lista. Precisava de ir a Inglaterra a uma consulta médica. Qual a razão por que estava na lista? De oitenta anos de idade, aposentado, nunca tinha ocupado nenhum cargo que lhe merecesse tal inscrição. Ficou em terra lusa. Foi indagar junto das entidades fazedoras de tal documento. Explicaram-lhe: desconhecendo o nome próprio do Real Honrado visado, escreveram apenas os dois apelidos. Abrangeram toda uma família.
E a senhora Triques Fidalga? Que desatenção! Que falta de respeito! Tão importante e não fazer parte da lista. A quem deveria reclamar?