quinta-feira, março 29, 2007

Histórias Inventadas? [10]

Estava a fazer a tropa em Angola. Mais propriamente nos serviços administrativos em Luanda. Um dia, ao aproximar-se do gabinete, ouviu um som suspeito, já que ninguém deveria estar lá dentro. Silenciou o passo, rodou a maçaneta da porta muito de mansinho e espreitou.
Em cima da sua secretária, uma daquelas antigas máquinas de calcular que funcionavam carregando-se em teclas e dando à manivela, tudo isto com um telintar característico.
Em frente à máquina, um seu ajudante, recém-chegado, metia o dedo indicador negro na boca, molhava-o, carregava assustadamente nas teclas, prosseguia a operação, mantendo sempre uma posição distanciada de segurança e, mal o telim começava a soar, afastava-se incrédulo.
Após uns segundos de hesitação, avançava, tornava a meter o dedo indicador negro na boca, molhava-o e iniciava tudo de novo. Após meia dúzia de repetições interrogativas, os olhos espantados revelaram-lhe que não estava só e com um desculpe senhor doutor fugiu, assarapantado, do gabinete.

quinta-feira, março 22, 2007

Comprar na China

Não me lembro se foi em Macau se em Hong Kong.
Numa daquelas ruas antigas em que as lojas coladas umas às outras e que nem portas têm, já que estão permanentemente abertas, nos enchem os olhos. Apenas um cordão grosso esticado resguarda a entrada à hora das refeições e do descanso. Mesmo assim, se chamarmos, interrompem para nos atenderem. Numa montra vi qualquer objecto que me interessou e entrei. O preço estava marcado, mas perguntei. Só o percurso da montra até ao balcão fez com que o mesmo baixasse. Ainda assim, disse que achava caro. Que não era, que a qualidade era óptima, que não encontrava igual, embora pudesse achar mais barato. Conversámos, de Portugal, da China, do tempo, da História, da Religião, dos costumes, de tantas outras coisas mais. O tempo ia passando. Ao fim de uma hora, trouxe o objecto, embrulhado em papel de jornal e enfiado num saco de plástico, por menos de metade do preço marcado na montra. É assim que se compra no Oriente. Antes de sair, perguntei qual a razão por que marcavam preços tão altos para depois venderem por muito menos.
Estou aqui o dia todo. Vender é importante. Mas mais importante ainda é este espaço de conversa, que me gratifica e que não quero perder. Espaço que só consigo com o regatear do preço. Espaço que me ensina, espaço que me proporciona trocas de ideias, espaço que me ajuda a passar o tempo, espaço que me oferece felicidade.

quarta-feira, março 21, 2007

No Dia da Poesia

SOLEMNIA VERBA

Disse ao meu coração: Olha por quantos
Caminhos vãos andámos! Considera
Agora, desta altura, fria e austera,
Os ermos que regaram nossos prantos...

Pó e cinzas, onde houve flor e encantos!
E a noite, onde foi luz a Primavera!
Olha a teus pés o Mundo e desespera,
Semeador de sombras e quebrantos!

Porém o coração, feito valente
Na escola da tortura repetida,
E no uso do pensar tornado crente,

Respondeu: D’esta altura vejo o Amor!
Viver não foi em vão, se é isto a vida,
Nem foi de mais o desengano e a dor.

Antero de Quental

segunda-feira, março 19, 2007

No Dia do Pai

O meu Pai
(fotografia tirada, na Beira - Moçambique, no dia 7 de Abril de 1936)

quarta-feira, março 14, 2007

Carta de Amor

O meu neto escreveu uma carta de amor.
Com oito anos, eu nem sabia o que isso era. Acho!

segunda-feira, março 12, 2007

Bezerro em Ouro

Dizia-me o meu Pai que algures, na Serra da Gardunha, se encontrava enterrado um bezerro feito em ouro maciço.
Dizia-me o meu Pai que muitas pessoas de Vale de Prazeres tentaram encontrá-lo. Que o meu Pai soubesse e que eu saiba, sem êxito.
Nunca mais ouvi falar desta... lenda!

terça-feira, março 06, 2007

Histórias Inventadas? [9]

Viva o Senhor Presidente! Viva o Senhor Presidente!
Há muitos, muitos anos, assim se manifestava a população à passagem do automóvel do Presidente da República de Portugal pelas ruas de Luanda, em visita oficial àquela então província ultramarina. Tinha sido decretada tolerância de ponto, o comércio fechara as suas portas. Muita gente enchia os passeios para verem o Senhor Presidente passar. Distribuíram-se bandeiras de Portugal que drapejavam, tremelicavam e aumentavam o colorido quente daquele dia de festa. O Rolls-Royce preto deslizava vagarosamente. À frente, a conduzi-lo, o motorista envergava farda chibante. Atrás, no banco da direita, o Senhor Presidente; no banco da esquerda alguém importante da comitiva.
Viva o Senhor Presidente! Viva o Senhor Presidente! – gritava um grupo estrategicamente colocado na esquina duma rua.
- Mas, afinal, qual deles é o Senhor Presidente?
- O sentado à direita, atrás?
- O sentado à esquerda, atrás?
- Nada disso! O Senhor Presidente é o que vai à frente. O patrão é sempre quem conduz.
Viva o Senhor Presidente! Viva o Senhor Presidente!

quinta-feira, março 01, 2007

Merícia de Lemos

Por mero acaso, descobri, há meia dúzia de dias, que Merícia Eugénia Vital de Lemos nasceu na Beira, em Moçambique, em 1913.
Escreveu poesia. Tentei encontrar algo da obra dela, mas, aparentemente, está tudo esgotado.
Parece que vive em Paris, desde 1945. Se alguém puder contribuir para diminuir a minha ignorância, agradeço.
Como é possível nunca ter ouvido falar num vulto da minha terra? Sinto-me envergonhada.