sábado, fevereiro 24, 2007

A História que eu não sei contar


Nasceu no dia 29 de Janeiro de 1889. Morreu no dia 3 de Novembro de 1918. Viveu na Estrada de Benfica, em Lisboa, num palacete de donos abastados. Chamava-lhes padrinhos. Mas não foi aí que conheceu o mundo. Foi em Almargem do Bispo, perto de Sintra, de família que trabalhava e negociava em pedras – mármores e afins. Que eu saiba, e sei muito pouco, viveu sempre em Benfica. Lá namorou, de lá casou. Para partir para Moçambique. Na Beira ficar a morar. Não foram os padrinhos, mas os pais que discordaram do casamento e de o casal ter decidido ir viver para o desterro de África. Se alguma vez existiram laços familiares, eles quebraram-se nessa decisão. Em 1913, nasceu-lhe um filho, em 1917, uma filha. Grávida de sete meses, a pandemia da pneumónica, gripe espanhola também lhe chamaram, levou-lhe a vida.

De Almargem do Bispo, nunca ninguém procurou ninguém.
De Almargem do Bispo chegou à Beira uma campa toda feita de mármore cor-de-rosa, ostentando o nome da minha avó, que também é o meu. Dizem que a campa era bonita. Nunca quis vê-la. Ficara assim cumprida a única e última obrigação.

quinta-feira, fevereiro 15, 2007

Respigos de África - LII

Qual a razão por que lhe chamavam burro, não sei. Já investiguei. Sem êxito! Era uma cama, que se armava numa saleta, à entrada da casa, para o meu Tio Manuel dormir, sempre que ia à Beira. Vinha de Gondola, viajava durante a noite e chegava sempre cheio de sono.
Naquela noite, ainda ninguém dormia. Mal nos tínhamos deitado. Um enorme estrondo assustou-nos a todos. O meu Pai levantou-se, pegou no cavalo-marinho e iniciou a ronda à casa, com receio, talvez, de que ladrões tivessem logrado entrar. Nada anormal! Bateu-se à porta da saleta. Nenhuma resposta. O meu tio já estaria, sem dúvida, a dormir, depois de uma noite em branco. Restabeleceu-se o silêncio, restabeleceu-se a calma e a noite retomou o seu ritmo habitual. Amanheceu. O meu tio levantou-se, nitidamente bem disposto, obviamente bem dormido Ao mata-bicho, perguntou: - Ontem à noite não ouviram barulho nenhum?
Os pés do fundo da cama haviam recolhido estrondosamente e o meu tio, o único a não ouvir barulho nenhum, havia passado toda a noite num burro, sim, mas em plano inclinado!

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

Estive comigo Própria

Este fim-de-semana estive sozinha. Sozinha não, estive comigo própria. Uma virose, ou qualquer coisa parecida, trouxe-me tosse, inflamou-me os olhos, impediu-me de ler, de ver televisão, de blogar. Tive assim muito tempo para conversar comigo. Saí, apenas, cerca de vinte minutos, para emitir a minha opinião sobre o "referendum". Eu saberia o que fazer com sessenta e cinco euros. Ainda há pouco gastei trinta e três na compra de dois livros. Na minha já longa vida é o único acto que permanece igual: comprar livros. Discos? Sim, mas para uma grafonola “His Master’s Voice”, a que se tinha que dar corda. Filmes? Sim, mas para uma máquina de projectar que estava sempre a partir as fitas, que se colavam com acetona (acho eu). Lembro-me de um filme do Charlot, em que ele chegava à janela e despejava para a rua um alguidar cheio de água. À custa de tanta colagem, a água, em vez de descer, subia, o que, para mim, era muito mais engraçado. Cassetes, CD, vídeos e toda uma panóplia de artigos, que daqui a muitos séculos estarão catalogados nos museus como objectos de culto, ainda não existiam. Mas existiam os relógios de dar corda, os brinquedos de dar corda e as bonecas que andavam e movimentavam a cabeça de um lado para o outro, quando lhes segurávamos a mão.
Tudo se inventa! Só não se inventa a maneira de tornar este mundo mais feliz. Será que a solução não é fácil? Será que o mal não está em nós, que não ensinámos os nossos filhos, os nossos netos, a conversarem consigo próprios? Deslumbrados com tantas novidades, não fomos capazes de as relativizar perante o que realmente é importante na vida.

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

Eu?

Há muitos anos Manoel Joze, nascido em Sam Domil, casou com Maria Josefa, nascida em Nogueirinha.
Há muitos anos Manoel da Fonseca, nascido em Lagos da Beira, casou com Anna de Sousa, nascida na Villa de Alpedrinha.
Do casamento do primeiro casal, nasceu, em Sam Domil, Francisco Fernandes, que casou com a filha do segundo casal, nascida na Villa de Alpedrinha, a quem chamaram Francisca dos Santos, embora nalguns documentos apareça também com o nome de Francisca do Rosário e de Francisca da Fonseca Mimoso.
Desta união nasceu, no dia 13 de Janeiro de 1856, tendo falecido no dia 8 de Julho de 1945, o meu bisavô, Francisco Fernandes Fonseca. Foi baptizado, em 30 de Janeiro de 1856, pelo Vigário Joaquim António Marques Patrício, tendo sido padrinhos seus tios Francisco e Joaquina Fonseca e testemunhas Francisco da Silva e Marcelino Xavier.

Há muitos anos Manoel Gonçalves Caria casou com Anna Eugénia, tendo desta união nascido José Gonçalves Caria.
Há muitos anos Joze Rodrigues casou com Maria Chasqueira, tendo desta união nascido Anna Rodrigues.
Do casamento de José Gonçalves Caria com Anna Rodrigues, nasceu, em Valle de Prazeres, no dia 14 de Março de 1860, Maria Rodrigues Caria, minha bisavó, que faleceu em 14 de Março de 1927. Foi baptizada na Igreja Parochial de San Bartholomeu de Valle de Prazeres, em 26 de Março de 1860, pelo Presbítero Manoel António Rocha, tendo sido padrinhos Luís Gomes e Maria Geraldes.
Do casamento dos meus bisavós nasceram dez filhos, sete rapazes e três raparigas, sendo a Francisca, a minha avó. Nasceu no dia 2 de Maio de 1885, em Vale de Prazeres, tendo falecido, em Lisboa, em 12 de Março de 1960. Foi baptizada na Igreja Parochial de San Bartholomeu de Valle de Prazeres, em 24 de Maio de 1885, pelo Pároco Francisco Barata Nogueira Martins, tendo sido padrinhos os seus avós. Casou, na Igreja Paroquial de Vale Prazeres, em 29 de Outubro de 1903, com Manoel do Amaral, nascido na Villa de Mangualde, no dia 2 de Setembro de 1877 e falecido em Vale de Prazeres a 14 de Setembro de 1938. Desta união, nasceram uma filha e três filhos, sendo o Rui o meu Pai.

Tinha eu os meus treze anos, a minha Avó Francisca, comunicou-me, solenemente, que éramos descendentes de Nuno Gonçalves, suposto autor dos Painéis de São Vicente de Fora. Pediu-me, encarecidamente, que não deixasse de transmitir o facto aos meus descendentes, tal como ela estava a fazê-lo. Não creio que os meus filhos o façam, por isso, pelo menos os meus netos, ficam a sabê-lo por mim.

Tenho pena que o meu Tio Manuel tivesse terminado as pesquisas genealógicas no final do século XVIII, mas pode ser que algum dos meus as retome. Quem sabe?

domingo, fevereiro 04, 2007

Aos Interpretadores de Sonhos

O meu neto acordou, pelas cinco horas da manhã, enervado e a chorar. Percorreu a casa, acendeu todas as luzes por onde foi passando. Fui ver o que estava a acontecer.
- Vó, não tenho cama!
- Vamos lá ver. Olha, a cama está aqui!
- Não vó, o que desapareceu não foi a cama, mas o sítio da cama!

sexta-feira, fevereiro 02, 2007

Mais Palavras da minha Terra

Arcuape? – onde está?
Cacecai maningue – muito depressa;
Cúmua – água;

Espanga – faca;
Garufo – garfo;
Inhamasse – hoje;
Inhoca – cobra ou diarreia;
Manacage – mulher;
Manâmbua – cão;
Manarungo – homem;
Manguana – amanhã;
Maningue mabassa – muito trabalho;
Massarongo – indolente;
Mataco – rabo;
Maze – água;
Mecir – cozinheiro;
Muana – menina mais velha (no caso, eu);
Passope – ter cuidado;
Uafa – morrer;
Ximuana – menina mais nova (no caso, a minha irmã);
Xonexone – devagar.


Que dialecto é este? Sempre pensei que fosse machangano, mas acho que estou errada. No caso de "cúmua" e "maze" (água), diziam-me que uma forma era machangano e outra chisseno.
Acho que a Luh vai conseguir esclarecer esta minha trapalhada.