quarta-feira, janeiro 31, 2007

Contar até Dez

Era assim que eu contava até dez na minha terra – Beira, Moçambique:
Pôssa, Pìri, Tato, Xina, Xano, Tandátu, Xinôme, Séri, Fumama, Gúmi.

segunda-feira, janeiro 29, 2007

A Segunda Pessoa do Plural

Na Beira Alta (lá pronuncia-se beirialta), utiliza-se muito a segunda pessoa do plural. Sendo uma forma pouco usual, dá origem a muitos erros, mas também a expressões muito engraçadas, como, por exemplo, esta.

Estava um meu sobrinho internado num colégio em Viseu, quando os colegas do quarto, na brincadeira, lhe estragaram a cama.

Ele, furioso, retrucou: - Olhai, estragastes-la, agora componde-a!

terça-feira, janeiro 23, 2007

Respigos de África - LI

As Papaieiras do meu Avô

Na Beira, em Moçambique, o meu Avô tinha, no quintal, uma papaieira.
Uma não, tinha duas.
Segundo ele me dizia, uma era fêmea, outra macho.
A papaieira macho só dava flores.
A papaieira fêmea era a que dava aquelas ricas papaias, de cor amarela, textura macia e um sabor adocicado, que nunca mais experimentei.
As papaieiras tinham que estar uma perto da outra.
Seria dessa contiguidade, dessa cumplicidade que nascia tanta doçura?

sexta-feira, janeiro 19, 2007

Parabéns Filhote

quarta-feira, janeiro 17, 2007

Acreditam?

Uma prima minha tinha uma criada que tinha uma prima que queria vir servir para Lisboa. Dezasseis anos vividos numa pequena aldeia trasmontana.
Eu, com três filhos pequenos, achei que far-lhes-ia boa companhia.
Chegou.
Magrita, pequena, borbulhagem nos braços e pernas, cabelo oleoso.
Primeiro passo: um bom banho. Que deslumbramento! Saboreou-o mais de meia hora e o seu aspecto mudou.
Segundo passo: escovar os dentes. Que deslumbramento! Era a primeira vez que o fazia.
Terceiro passo: começar a tomar vitaminas. Que deslumbramento! Ao fim de um mês, estava mais gordita e até os olhos pareciam ter adquirido um brilho mais azul.
Quarto passo: fazer o tratamento da borbulhagem que mais não era que sarna. Que deslumbramento! Vivera toda a vida com aquela comichão. A sua pele passou a ser lisa e bonita.
Quarto passo: aprender a fazer uma cama. Que deslumbramento! Dormira sempre com um cobertor por baixo e outro por cima. Nunca tinha visto lençóis.
Quinto passo: aprender a acender o fogão. Que deslumbramento! Acho que o ligou e desligou mais de cinquenta vezes seguidas.
Sexto passo: andar de elevador. Que deslumbramento! Rapidamente lhe perdeu o medo.
Sétimo passo: aprender a brincar com tantos brinquedos. Que deslumbramento! Principalmente o gravador que reproduzia as suas infindáveis cantigas.
Oitavo passo: conhecer a praia. Que deslumbramento!
Nono passo: inscrever-se no ensino nocturno, onde completou o segundo ano liceal. Que deslumbramento! Já poderia concorrer ao lugar de telefonista nos TLP.

Os filhos cresceram, a Dulce cresceu. Emigrou para a Suíça.

Todo este deslumbramento aconteceu no ano de 1967.

Publicidade na Beira - 2


Anúncio colocado na contracapa do jornal referido anteriormente (para a Luísa Hingá, evidentemente)

sábado, janeiro 13, 2007

Publicidade na Beira



Anúncios publicados no jornal "Notícias" - Número Especial do Natal de 1952
(dedicados à Luísa Hingá)

quarta-feira, janeiro 10, 2007

Respigos de África - L

Por isto sou do Belenenses!


O meu Tio Domingos inscreveu-me. Eu era a mascote. E um dia o Presidente do Belenenses, Acácio Rosa julgo eu, foi visitar a Beira. E, eu, bem pequena, três ou quatro anos, equipada a rigor, levei uma semana a ensaiar o gesto de lhe entregar um grande ramo de flores e dizer: Viva o Senhor Presidente!

segunda-feira, janeiro 08, 2007

Respigos de África - XLIX

Quando o meu Avô chegou à Beira, em Moçambique, no ano de 1910, decidiu que não havia de deixar de comer figos de uma sua figueira.
E, segundo me diziam, a figueira que plantou no seu quintal passou a ser a única árvore daquela espécie por aqueles sítios. Um belo exemplar com abundantes figos bem saborosos. Não houve amigo seu que não se deliciasse.
Quando lhe perguntavam como é que tinha conseguido que a árvore medrasse, respondia:
- À custa de muito estrume e de muito sangue dos bois abatidos no matadouro!

quarta-feira, janeiro 03, 2007

Respigos de África - XLVIII

Nunca o conheci. Lá, na Beira, em Moçambique, foi, durante muitos anos, cozinheiro do meu Avô. Excelente na sua arte de bem temperar os alimentos. Não havia igual. Chamava-se Junça, talvez Juça, já não sei. Nunca o meu Avô degustou tão saborosos manjares.
O seu dia de folga era o Domingo.
E, no seu calendário, não existiam Segundas-feiras.

- Então ontem não trabalhaste! Porquê? – perguntava o meu Avô.
- Patrão, ontem foi o meu dia de folga! – respondia ele.
- Ontem foi Segunda-feira, rapaz; a tua folga é ao Domingo.
- Não lembra, patrão...

Esse era o dia de recuperar da embriaguez dominical que lhe apagava por completo quatro ou cinco dias por mês.

terça-feira, janeiro 02, 2007

Quase, Quase

Quase na rotina normal!
Somente dois ou três dias mais!