quinta-feira, dezembro 21, 2006

Natal

Do primeiro Natal de que me lembro, lembro-me muito pouco.
Foi na Beira, em Moçambique.
Matou-se um cabrito. Ficou de olhos abertos.
- Mãe, o cabrito tem os olhos abertos. Porquê?
- Não vês que estou cheia de trabalho. Vai brincar para a varanda.
- Mas, Mãe, o cabrito tem os olhos abertos. Porquê?
Fiquei cheia de pena do cabrito, que parecia estar tão tristemente a olhar-me, e não obtive resposta. Era mais importante a confecção das filhós, dos sonhos, das azevias, dos coscorões, das fatias douradas, dos fios de ovos e sei lá de que mais.
Era no Natal que havia festas de máscaras. À moda inglesa, já que não se festejava o Carnaval. Mascararam-me de
varina estilizada.
O sapatinho era colocado ao fundo da cama e quem trazia os presentes era o Menino Jesus, não o Pai Natal.
Muita confusão! As coisas eram mais importantes que as pessoas!
Fui sozinha para a varanda. Peguei num livro. Não sei o título, não sei quem o escreveu. Na capa, um avião e um menino com uma lupa. Se queria agir como os crescidos metia-se debaixo da lupa para ficar grande. Se queria ficar mais pequeno, virava a lupa ao contrário e conseguia entrar no avião, viajar para todo o lado e ser feliz.

Hoje continuo a achar que há muita confusão! Que se dá mais importância às coisas do que às pessoas!
Vou procurar uma lupa. Virá-la ao contrário. Meter-me debaixo dela. Ficar muito pequenina. Entrar num qualquer minúsculo avião. Visitar todas as pessoas que se cruzaram comigo.

Aos que já deixaram este mundo, dizer:
ESTÃO E ESTARÃO SEMPRE COMIGO!

E aos que cá estão, dizer o que realmente importa:
PAZ, AMOR, SAÚDE e FELICIDADE!

domingo, dezembro 17, 2006

Os Aquecedores, o meu Neto e o meu Pai

Tinha três aquecedores, não contando com os fixos nas casas de banho. Um ardeu. Felizmente estava por perto. Outro, depois de o meu neto ter metido, nas ranhuras, papelinhos cortados, parecia uma máquina de fogo de artifício, cada vez que o ligava. Deitei-os para o lixo. Resta um. O mais antigo. Acabei de comprar um que pode ser regado, caso o meu neto o confunda com uma planta e pode cair ao chão, caso o mesmo neto, com um pontapé certeiro, queira enfiá-lo numa baliza imaginária. Nestas circunstâncias desliga automaticamente.
E fiquei a pensar que quem sai aos seus...
Vale de Prazeres é uma aldeia da Beira Baixa, muito fria no Inverno. A casa aquecia-se com a lareira e com braseiras. Nos quartos, de tão frios, os lençóis pareciam molhados. Lembro-me de a minha Avó mandar bruni-los com o ferro a carvão para ficarem mais confortáveis. Mas o meu Pai, talvez com a idade que o meu neto tem hoje, uma noite, lá teria achado que o ferro era insuficiente e enfiou na cama toda uma braseira que tapou cuidadosamente com os cobertores de papa. Valeu o colchão ser de folhelho e de a minha Avó ter sentido o cheiro a queimado antes de o fogo estar irremediavelmente instalado.

quarta-feira, dezembro 13, 2006

Respigos de África - XLVII

Lembro-me de o meu Pai se deliciar com uma boa cabeça de garoupa. Lembro-me de o peixe ser especialmente saboroso naquela terra do Oceano Índico. Lembro-me de o caranguejo, cozinhado com recheio, ser um manjar divinal. Lembro-me dos camarões grandes, grelhados ou fritos. Lembro-me do camarão mais pequeno acompanhar gratuitamente a cerveja, como aqui na Metrópole acontecia com o tremoço.
Mas não era só de cabeça de peixe que o meu Pai gostava. A cabeça de cabrito também lhe era um pitéu. E naquele dia esse era o almoço.
Cabeça dura, difícil de abrir.
Chama o moleque. Que trouxesse um cutelo.
Primeiro golpe: cabeça inteira, prato partido. Segundo golpe: cabeça inteira, prato partido. Terceiro golpe: cabeça inteira, prato partido. Quarto golpe...
– Rapaz, não há uma tábua?
– Sim patrão! E os olhos brilharam-lhe, como se algo maravilhoso tivesse sido descoberto.

E foi assim que não se partiram mais pratos, que a cabeça se desmanchou e que o meu Pai almoçou..

sexta-feira, dezembro 08, 2006

A Velhinha das Terças-Feiras

Este bonito poema do Torquato da Luz, lá no seu Ofício Diário, fez-me recordar a Velhinha das Terças-feiras.

Conheci-a sempre velha, mas sempre igual. Parecia ter cristalizado. Ao longo dos talvez vinte anos em que a vi, tinha os mesmos cabelos ralos, os mesmos olhos desbotados, as mesmas rugas secas, os mesmos panos pretos.
Todas as Terças-feiras, pelas onze horas da manhã, tocava à campainha da casa dos meus Pais. Recebia uma esmola em dinheiro e, sentada no degrau da escada, comia uma malga bem cheia de sopa quente e um grande naco de pão com conduto. Conversava com a criada sobre um filho, doutor dizia ela, que nem se lembrava de que ela existia. E não conseguia parar as lágrimas que lhe escorriam.
Um dia, fui eu abrir-lhe a porta. Ao dar-lhe a esmola, disse-me que não estava certa. Tinha faltado duas Terças-feiras, doente, com gripe, estando, assim, a dever-lhe duas semanas. Acertei-lhe as contas. Sorriu-me com os dentes que não tinha, desejou-me boa sorte para toda a vida.

E uma Terça-feira não veio. E não mais voltou.

Nunca lhe soube o nome. Era a Velhinha das Terças-feiras.

quinta-feira, dezembro 07, 2006

ReLer

Depois do que escrevi ontem, decidi que vou, hoje, começar a reler “As Minas de Salomão”.
Acho que fui injusta. Há traduções que merecem ser lidas.

quarta-feira, dezembro 06, 2006

Ler

“O Conde de Monte Cristo” e “A Mão do Finado” foram os livros que li naquele distante Verão, nas férias no Monte Estoril, numa casa no Largo Ostende Teria onze ou doze anos. O que me interessava então era a história. Pouco me interessava a forma da escrita. Fiquei realmente fascinada e achei que nunca mais leria livros de que gostasse tanto como desses. Com o passar do tempo, aconteceu-me que, mais que o enredo, o que realmente me cativa é a forma como o autor trabalha a escrita. Leio a mesma frase duas, três vezes para saborear toda a beleza que ela encerra.
“O abandono não me surpreendeu. Era o que eu esperava: velhos casarões atordoados sob um sol feroz. Um lento cerco de praias, um mar cor de esmeralda, as enormes árvores fatigadas, cobertas de poeira. Havia também jovens à sombra jogando ntchuva, ou simplesmente imóveis, silenciosos, de braços cruzados. Mais tarde, nas varandas, vi mulheres, em capulanas coloridas, alongadas sobre esteiras (algumas delas com o telemóvel pousado junto à cabeça). Naturalmente, já não encontrámos riquexós.” É assim que José Eduardo Agualusa, no seu livro “Passageiros em Trânsito”, escreve “A Ilha, que foi capital de Moçambique até 1898...”
E fico a pensar se haverá maneira de traduzir esta beleza noutro idioma, seja ele qual for.
Li “A Cidadela Branca”, de Ohran Pamuk, em português. Perguntei-me, muitas vezes, como seria lê-lo no idioma em que foi escrito. Tentei imaginar; não consegui. Beyaz Kale é o título original.
Acho que não torno a ler nenhuma tradução. Perco tudo o que não é possível traduzir – o livro todo, menos a história.

segunda-feira, dezembro 04, 2006

Ainda na Circunscrição de Búzi


Carta enviada ao meu Tio João.

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