quarta-feira, novembro 29, 2006

Na Circunscrição de Búzi




Carta enviada ao meu Tio João. Infelizmente, sem data.

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terça-feira, novembro 28, 2006

Respigos de África - XLVI

Acham que pôr uma mesa é fácil?

Na república onde o meu Pai viveu um tempo quando chegou à Beira, em Moçambique, o encarregado de pôr a mesa colocava a garrafa de vinho bem à beirinha. Um dia, achou o meu Pai que deveria dizer-lhe que aquele não era o local mais seguro:
- Já viste que a garrafa está tão descentrada? Ainda cai! Não será preferível colocá-la no chão?

E no dia seguinte lá estava ela – a garrafa - obedientemente situada no chão, ao lado da mesa!

sexta-feira, novembro 24, 2006

Força, Amiga!

Vivendo há quarenta anos na mesma casa, seria natural que conhecesse os meus vizinhos. Mas não! Bom-dia, boa-tarde, boa-noite, como está e pouco mais.
Enquanto trabalhei, a casa era apenas o refúgio do fim do dia e dos fins-de-semana. Só passei a viver a minha casa, quando me aposentei. A viver a minha casa e a conhecer os meus vizinhos. A viver a minha casa e a viver o meu bairro. Que é bonito. Talvez dos mais bonitos de Lisboa. Deixei de pertencer às Avenidas Novas para passar a pertencer aos Olivais. E tive a oportunidade de conhecer uma agora amiga, que vive no prédio ao lado. Ela e o marido são um casal muito especial. Inteligentes, cultos, educados, com altas referências morais. Que bom ter tido o privilégio de os encontrar.
A minha amiga está a passar uma fase difícil da sua vida.
Sei que visita a minha senda. Esta razão deste meu texto.
Quero que saiba que não está sozinha. Quero que saiba que a vida vale sempre a pena ser vivida, mas bem vivida. Quero que saiba que eu sei que se procurar a senda da felicidade, encontrá-la-á. Força, amiga!

quarta-feira, novembro 22, 2006

Coelho ou Gato?

Na altura, o meu Avô materno teria dezoito anos. Gostava, como sempre gostou ao longo da sua vida, de boas patuscadas. Principalmente carne e bem confeccionada.

Para além das carnes que normalmente se consomem por aqui, já degustei rena, veado, gazela, crocodilo, cavalo, javali, rã, borrachos, passarinhos e sei lá que outras quando servidas, de forma tão disfarçada, no Oriente. Mas seria capaz de ingerir burro, cão, ou qualquer outro animal, mesmo sabendo-o. Herdei decerto esta rara predisposição deste meu ascendente.

Pois um belo dia o meu Avô convidou um grupo de amigos para um repasto de coelho bravo. O abundante petisco estava apetitoso, a alegria trasbordava, o vinho escorria macio e a refeição arrastou-se. Mas chegou ao fim. Quando todos se preparavam para abandonar a mesa, o meu Avô perguntou:
- Sabem o que comeram?
- !?!?
- Viram as cabeças?
- ?!?!
- Pois é! As cabeças não foram servidas porque não comemos coelho, mas sim gato.

E riu-se, num semblante misterioso!

segunda-feira, novembro 20, 2006

Do meu Avô Paterno



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Do meu Avô Materno





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segunda-feira, novembro 13, 2006

Gramáticas



















A Gramática da minha Mãe era assim. Como será a futura?
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sexta-feira, novembro 10, 2006

Histórias Lembradas - XV

Roubaram o fato ao Martinho

Esta história deveria chamar-se mal lembrada. Ninguém se lembra dela. Só sei que havia em Vale de Prazeres, aldeia onde o meu Pai nasceu, muito perto de Alpedrinha, um senhor chamado Martinho. Um dia ter-lhe-iam roubado o fato. Não sei em que circunstâncias, que um fato não é coisa que se roube facilmente, acho eu. O meu Pai ficou tão impressionado que, mal chegou a casa, começou a gritar:
- Roubaram o fato ao Martinho... Roubaram o fato ao Martinho.... Roubaram o fato ao Martinho!
A altura não era propícia para aquelas exibições de espanto. Também não sei por que razão.
- Cale-se, menino, cale-se, menino, cale-se, menino! Foi tudo o que o meu Pai ouviu, antes de, cabisbaixo, se resguardar no quarto.

Até hoje, a família ainda diz “roubaram o fato ao Martinho”, sempre que a ocasião não é oportuna para qualquer manifestação, seja ela qual for.
E eu nunca me lembrei de pedir ao meu Pai que me contasse a história toda e ele nunca a contou, supondo certamente que toda a gente a sabia de cor e salteado.

quarta-feira, novembro 08, 2006

Mocho, o "Surripiador"

Por mero acaso, descobri que fui surripiada.

Vejam aqui:

http://aspirinab.weblog.com.pt/2006/04/e_o_que_fizemos_nos_da_educaca.html

Valeu-me um anjo, que não conheço, de nome Alfredo, que veio em minha defesa:
“O Mocho devia ter vergonha. O texto foi surripiado do blog "Na Senda das Beiras", de Laura Lara. Há gente capaz de tudo, está visto.”

Obrigada, Alfredo!

Histórias Lembradas - XIV

No tempo em que se podia bater nas crianças, sem receio de que ficassem traumatizadas.

Em Vale de Prazeres, bonita aldeia localizada na falda da Serra da Gardunha, nasceu e cresceu o meu Pai, no ano de 1911. Não havia água canalizada. As mulheres iam à fonte com os cântaros à cabeça. Deitados quando vazios, em pé quando cheios, bem assentes nas rodilhas. Lá iam em carreira, muitas vezes cantando, quase sempre intrigando, que havia sempre motivo, ainda que inventado.
O meu Pai, escondido numa qualquer esquina, com a sua fisga em riste, aguardava. Lá vinha a mulher com o cântaro cheio e lá disparava a pedra em trajecto bem certeiro. Mil cacos, um banho forçado, uma boa corrida até casa.
Esta história foi-me contada pela minha Avó.
Nem fazia ideia do número de cântaros que tinha pago.
Quando o meu Pai lhe aparecia com o chinelo dela na mão, que para poupar passos tinha logo ido buscar ao quarto, ela já sabia que era mais um cântaro e mais uma tareia.

- Eu não gostava de quebrar cântaros – dizia-me o meu Pai, com aquele brilho ladino no olhar verde, que nunca perdeu ao longo de oitenta e oito anos – eu gostava era de ver as mulheres todas molhadas, tanto que nunca fisguei a um cântaro vazio...

sábado, novembro 04, 2006

Respigos de África - XLV

A república onde o meu Pai viveu, quando chegou à Beira, em Moçambique, acomodava meia dúzia de rapazes. Cada um deles tinha o seu criado, que tratava das respectivas roupas e do quarto. As refeições eram tomadas em conjunto, sob gestão mensal rotativa de um dos elementos, e o custo dividido por todos.

Uma vez, decidiram ir dar um passeio, que os levaria a estar fora de casa durante todo o dia. Avisaram o pessoal, fizeram os preparativos e saíram bem cedo pela manhã. No entanto, circunstâncias imprevisíveis obrigaram-nos a regressar mais cedo. Chegaram pela hora do almoço e depararam com a seguinte cena.
Na sala de jantar. Sentados à mesa todos os criados. Cada um ocupava o lugar do seu patrão, cada um vestia roupas do seu patrão, cada um representava o papel do seu patrão e, num caso, até óculos usava como o seu patrão. Reproduziam os gestos, imitavam as vozes, os risos, enfim, as idiossincrasias de cada um. Com tal rigor e graça que mais pareciam um grupo de teatro magistralmente ensaiado.
A situação foi de tal forma hilariante que o meu Pai, sempre que narrava o acontecido, continuava o gozo que, pelo tamanho, não tinha ficado confinado àquele dia!

quinta-feira, novembro 02, 2006

Lembro-me...

Lembro-me de, em pequena:

tentar enganar a minha própria sombra,
tentar, vezes sem conta, manter deitado um sempre-em-pé de celulóide,
tentar engomar com um ferro a fingir,
tentar cozinhar num fogão de lata,
tentar saborear um ovo estrelado colado num pratinho branco em massa de cartão,
tentar fazer vestidos lindos para bonecas de papel,
tentar fazer parte de um pelotão de soldadinhos de chumbo,
tentar ficar com cara de boneca, pintando a cara com duas rodelinhas encarnadas, desviadas da caixa de “rouge” da minha mãe,
tentar ser mais crescida, calçando os sapatos de salto alto da minha mãe,
tentar falar depressa, como os grandes, proferindo frases inexistentes,
tentar imaginar o que havia do outro lado do mar,
tentar perceber por que razão os cabritos morriam de olhos abertos,
tentar entender o motivo por que não podia brincar com água, no lavatório,
tentar não adormecer enquanto não repetisse, em voz alta, todas as palavras que, nesse dia, tinha aprendido,
tentar imaginar tudo o que faria quando fosse grande.

E, agora, que já não sou pequena, continuo a tentar...