quarta-feira, setembro 27, 2006

Princípio e Meio da História

Achei que a história que me foi contada, há muitos anos, pela Maria, personagem da mesma, não tinha graça, razão pela qual só contei o extraordinário final. Mas tendo em conta os comentários, principalmente os da Madalena, aqui vai.

Um dia, a Maria casou com o Manuel. Nasceu-lhes um filho, o António. Decorridos dois anos, decidiram divorciar-se. Continuaram amigos e começaram a namorar. Pouco tempo depois, casaram novamente. Nasceu-lhes uma filha, a Ana. Decorridos dois anos, decidiram divorciar-se. Continuaram amigos e começaram a namorar. Pouco tempo depois, casaram novamente, então com cerimónia religiosa, para não poder ser dissolvido pelo divórcio. Nasceu-lhes um filho, o João.

Tanto quanto sei, continuam casados e o final da história reproduz as palavras da Maria.

segunda-feira, setembro 25, 2006

Final da História

Três casamentos.
Três filhos.
Um de cada casamento.
Todos do mesmo pai.

quarta-feira, setembro 20, 2006

Ainda Lord Hillingdon




Ontem quis colocar mais estas fotografias da casa do fantasma de Lord Hillingdon.
O computador, antipático, não deixou.
Hoje, de melhor humor, acedeu de imediato à minha vontade.
Esclareço que estas foram tiradas no ano de mil novecentos e noventa e seis, quarenta anos depois da cena do champagne.
As diferenças são poucas.

terça-feira, setembro 19, 2006

O Fantasma de Lord Hillingdon


O colégio situava-se em Hillingdon Court, perto de Londres. Ocupava uma bela casa senhorial que tinha pertencido a Lord Hillingdon. Da história da casa e do belo e extenso jardim que a rodeava nada sei. Só sei que o dito lord resolveu suicidar-se numa noite de um para dois de Novembro de um ano qualquer. E, à boa maneira inglesa, todos os anos nessa noite factos estranhos aconteciam naquela casa.

Um grupo de alunas, composto por duas portuguesas, uma francesa, duas colombianas, uma venezuelana e uma jugoslava, considerou que essa era a noite ideal para fazer uma festa nocturna. A francesa forneceu duas garrafas de champagne, uma portuguesa várias latas de conservas, já que o pai tinha uma fábrica em Olhão, e outra portuguesa uvas, conservadas em serradura, vindas lá da sua quinta. Pão, “marmelade” e chocolates ingleses completavam o cardápio.

Talvez por razões de segurança, às dez horas da noite a electricidade era desligada e as lanternas entravam em acção.

O edifício tinha uma cave e dois andares. Os nossos quartos eram no segundo andar e o local escolhido para a festança foi a cave. Às dez horas e cinco minutos começámos a descer a escadaria. Bonita escadaria que envolvia, em forma quadrada, uma larga e altíssima caixa ao longo dos três andares.
A garrafa de champagne, a deslizar pelo corrimão, saltou da mão e estatelou-se na pedra do chão lá no fundo. O estrondo foi colossal. Transidas de medo, quedámos à espera... Mas nada. Só se ouvia o mais profundo silêncio. Nem colegas, nem freiras, nada! Limpámos os vestígios do estrondo, demos a festa por terminada e fomos dormir.
No dia seguinte, todas nós, todas nós mesmo, comentávamos como o fantasma do Lord Hillingdon tinha sido especialmente barulhento nessa noite.
Houve até quem tivesse ouvido os seus gritos.
Houve até quem tivesse ouvido os seus passos.
Houve até quem tivesse ouvido portas a abrirem e a fecharem.
Houve até quem o tivesse visto a passear pelos largos corredores.
Houve até quem o tivesse ouvido a partir vidros.
Houve até quem garantisse que o desassossego havia preenchido toda a noite.

segunda-feira, setembro 18, 2006

Fantasmas

Acabei ontem de ler o conto “Ghosts”, de Paul Auster, e toda noite sonhei com cores.
Não só com o azul, o preto e o branco, mas com todas.
E hoje lembrei-me da experiência que, no laboratório de física do colégio, fazíamos com o disco de Newton. Rodávamos a grande velocidade a manivela colocada no centro traseiro do disco e as cores do arco-íris (vaavaav – vermelho, alaranjado, amarelo, verde, azul, anil e violeta), pintadas por esta ordem, desapareciam, que nem fantasmas, e ficava só o branco. Branco, cor dos fantasmas.
Preto não é cor, é ausência de cor. Assim aprendi.
Mas como é que cada um vê as cores? E os daltónicos?
As cores existem realmente?
Ou são fantasmas?
O azul que eu vejo hoje não é, tenho a certeza, o azul que verei amanhã. Depende da luz, depende do estado de espírito, depende da hora do dia. As cores são todas metaméricas?
Lembrei-me de uma criança que nasceu cega e conhecia as cores pelo tacto. Apalpava o objecto e, conforme a textura, dizia a cor que estava a sentir. E sentia a mesma cor que eu via.
A cor não só se vê como se sente.
Por que razão me apeteceu hoje vestir de azul?
Neste mundo de fantasmas, vou procurar o fantasma azul...

quinta-feira, setembro 14, 2006

Histórias Inventadas? [8]

Um conhecido Director-Geral dos tempos idos de Salazar foi obrigado a ir à Suíça, em representação do nosso Governo, para assistir a uma reunião da EFTA.
Como dominasse muito mal o idioma francês, levou consigo um tradutor.
Iniciado o encontro com vários Directores-Gerais homólogos de outros países, todos sentados à volta da mesa, a nossa ilustre personagem pousou os papéis no colo e ia transmitindo ao tradutor as informações a serem divulgadas. Estava, portanto, numa posição mais recuada relativamente aos seus colegas, sempre de cabeça baixa, como querendo manter algum segredo bem guardado. Talvez pelo insólito da posição, alguém disse:

- Monsieur, veuillez bien mettre les chiffres sur la table!

De sentado, espumando de raiva, passou rapidamente a levantado, exigindo explicações e retractações, perante o assombro geral.
Não fora a intervenção rápida do tradutor a explicar que chiffres eram apenas números, não sei que outro final poderia dar a esta história!

Quarenta e Cinco Lágrimas

Tenho andado tristonha. Porquê? Várias razões, todas difusas, nem sei bem.
Hoje, 14 de Setembro, é um dia especialmente triste para mim.
Vou chorar quarenta e cinco lágrimas.

quinta-feira, setembro 07, 2006

Histórias Inventadas? [7]

Um importante industrial nortenho quis construir, na cidade do Porto, uma torre, em decalque do risco da Torre Eiffel, mas utilizando paralelepípedos de granito.
Poderia ter sido mais um monumento a apreciar naquela cidade?
Talvez, se, há umas décadas atrás, o projecto não tivesse sido superiormente reprovado!

quarta-feira, setembro 06, 2006

No Exit - Não Hesite

No meu colégio em Hillingdon Court, perto de Londres, podíamos sair duas tardes por semana – às Quartas e aos Sábados. Nunca sozinhas, pelo menos duas. Tendo uma colega portuguesa acabado de chegar, pediu-me que a acompanhasse numa visita à cidade. Lá lhe fui explicando o caminho a seguir para apanhar o metropolitano em Uxbridge, a forma de comprar o bilhete, a maneira de ler o mapa para chegar à estação desejada, consoante o local que quisesse visitar, tendo tido o cuidado de avisar que as carruagens tinham portas exclusivamente de entrada e outras de saída, devidamente identificadas.
Chegadas a Piccadily Circus, estação de saída, ela dá uma corrida e esgueira-se rapidamente por uma porta apenas destinada à entrada de passageiros.
No cais, perante a minha observação de não acatamento da minha indicação, ela olha-me muito espantada e responde:
- Mas eu fiz exactamente o que estava lá assinalado: No Exit. Não hesitei. Saí o mais depressa que pude!!!

Matilde

À minha amiga anónima beirense nasceu-lhe a neta Matilde.
Tão fofa!
Que seja muito feliz e que possa um dia visitar a senda beirense!

segunda-feira, setembro 04, 2006

Respigos de África - XLIII

A noite estava escura. Lá em casa já todos dormíamos, quando a Fly começou a ladrar furiosamente. Ouviu-se barulho por baixo da casa, onde algo fez ressoar um bidão de petróleo. Petróleo armazenado para a geleira. Na Beira, em Moçambique, as geleiras não funcionavam a electricidade como os frigoríficos na Metrópole.
O meu Pai muniu-se do cavalo-marinho, única “arma” que possuía, e foi ver o que estava a acontecer. Conseguiu agarrar um braço. Completamente coberto de gordura, deslizou-lhe entre os dedos. Era assim que faziam. Todos nus, cobertos de não sei que gordura, tornava-se impossível agarrá-los.
Lembro-me de ter acendido a luz e de ter ido espreitar através da janela com vidros forrados a rede. Em tudo, tudo escuro, vi apenas um branco de olhos muito brancos a atravessar o portão da casa a grande velocidade.

sábado, setembro 02, 2006

O Papagaio de Papel na Figueira da Foz


sexta-feira, setembro 01, 2006

O Cheiro da Felicidade

Não sei se é do calor, mas lembrei-me da minha terra natal, ou antes da “minha água natal”, como Mia Couto, com mais propriedade, um dia a designou.
Sendo a Beira, em Moçambique, uma cidade extremamente quente, não é contudo o calor que enche a recordação dos meus tempos de infância lá nascidos e vividos.
O cheiro.
O cheiro é o que persiste até hoje.
O cheiro das flores do meu jardim.
O cheiro das árvores nas avenidas que me pareciam imensas.
O cheiro da terra vermelha molhada quando a chuva se entornava repentina e abundantemente.
O cheiro dos bolos que os meus vizinhos gregos sempre faziam a pretexto de festejarem o que me parecia uma quantidade enorme de dias, não obstante os meus Pais me dizerem que não eram tantos assim.
O cheiro da comida dos também meus vizinhos indianos, com todos aqueles deliciosos ingredientes e saborosas especiarias.
O cheiro dos “scones” acabados de sair do forno e dos “plain scones” acabados de descolar da chapa que, bem barrados com manteiga salgada, acondicionada em latas redondas provenientes dos Açores, tornavam os meus lanches manjares inesquecíveis.
O cheiro do peixe – corvina e garoupa (porque será que só me lembro destes?) – a ser amanhado, na cozinha, pelo Sande.
O cheiro do sabonete “Lifebuoy” que impregnava tudo na casa de banho.
O cheiro da cânfora que emanava das arcas, das gavetas e dos guarda-fatos.
O cheiro do tabaco aromático que enchia o cachimbo do meu Tio.
O cheiro do “Brylcream” que lustrava o cabelo de outro meu Tio.
O cheiro da água-de-colónia 4711 que perfumava a minha Mãe.
O cheiro da carne que os criados punham a secar ao longo dos muros da casa, o que provocava a ira nunca resolvida da minha Mãe.
O cheiro do manguço que eu, sempre sem êxito, tentei esconder no meu quarto.
O cheiro do leão abatido por um caçador, que, estendido no chão de pedra da sua garagem, mereceu a visita de uma longa fila de espectadores, quiçá de todos os beirenses, que queriam apreciar a beleza do animal, indiferentes à pestilência que me provocou vómitos.
O cheiro...

O cheiro, enfim, da felicidade que tive a sorte de viver e que me acompanha até hoje.