quinta-feira, abril 06, 2006

Histórias Lembradas - IX

Por razões de ordem profissional, o meu marido continuou a ir regularmente a Angola, depois da independência deste país. Não vou contar das dificuldades aí sentidas, pois são do conhecimento geral.
Mas desta história tão simples, que tanto tocou o meu coração, nunca me esqueci.
Era a primeira viagem que aí fazia, depois de Angola independente.
Chegado ao aeroporto de Luanda, apanhou um táxi.
O motorista: - Boa tarde, patrão, para onde?
O meu marido: - ...Não me chame patrão!
O motorista: - Então chamo como?
O meu marido, depois de alguma hesitação: - Olhe, chame-me camarada!
O motorista: - Camarada... camarada!? Está bem, camarada-patrão!
E assim arrancaram para o hotel.
A empregada de quarto, impecável, amável, diligente, que lavou roupa, que engomou roupa, merecia, pois, uma boa gorjeta.
Ao deixar o hotel, o meu marido chamou-a, abriu a carteira, tirou algumas notas e o entregar-lhas, originou este diálogo:
- O senhor vai voltar, não vai?
- Claro, daqui a um ou dois meses estarei de volta.
- Então, peço-lhe um favor. Não me dê dinheiro, que de pouco me serve. Não há quase nada à venda. Quando voltar traga-me uma coisa de Portugal. Pode ser?
- Pode, mas o quê?
- Um termo, por favor. Tenho uma bebé e gostava de um termo para manter o seu leite quente. Aqui não há à venda.

Não teve que esperar pelo seu regresso.
Uns dias depois, o termo já lá estava, graças à boa vontade de um amigo, piloto.

29 Comentários:

Blogger jorgesteves disse...

Vi a porta entreaberta e entrei...
Num ápice passei da Mutamba ao Mussulo; fiquei com silêncios e com saudades!
Parabéns por este canto.

quinta-feira, abril 06, 2006 5:27:00 da tarde  
Blogger Torquato da Luz disse...

História bonita e, como sempre, muito bem contada. Um beijo.

quinta-feira, abril 06, 2006 6:32:00 da tarde  
Blogger MCM disse...

Que pena de descolinização. Havia tantas formas de ter feito as coisas de maneira diferente. De poupar tanto sofrimento. A eles e a nós.
Não conheço Angola mas adorava conhecer.
Um beijo e continua a contar histórias.

quinta-feira, abril 06, 2006 9:31:00 da tarde  
Blogger MCM disse...

Descolonização, rectifico.

quinta-feira, abril 06, 2006 9:32:00 da tarde  
Blogger Carlota disse...

Uma boa acção é sempre bem-vinda.
Não há, hoje em dia, muitas pessoas dispostas a desviar-se do seu caminho para ajudar alguém.
Beijola.

quinta-feira, abril 06, 2006 9:51:00 da tarde  
Blogger dakidali disse...

Ainda dizem que quem viveu em África andava lá a explorar os nativos.
Beijinhos

quinta-feira, abril 06, 2006 10:15:00 da tarde  
Blogger Pitucha disse...

Juro que um dia vou a Luanda!
Beijos

quinta-feira, abril 06, 2006 10:16:00 da tarde  
Blogger BEG disse...

Obrigada por partilhares esta história bonita.

sexta-feira, abril 07, 2006 10:22:00 da manhã  
Blogger Laura Lara disse...

Jorge
Agradeço a visita e volta sempre.
Bom fim-de-semana

sexta-feira, abril 07, 2006 11:23:00 da manhã  
Blogger Laura Lara disse...

Torquato
Gentil como sempre. Muita obrigada.
Bom fim-de-semana e beijinhos

sexta-feira, abril 07, 2006 11:24:00 da manhã  
Blogger Laura Lara disse...

MCM
Agradeço a visita. Angola é um país lindo.
Beijinhos e bom fim-de-semana

sexta-feira, abril 07, 2006 11:25:00 da manhã  
Blogger Laura Lara disse...

Carlota
Obrigada.
Bom fim-de-semana e beijinhos.

sexta-feira, abril 07, 2006 11:27:00 da manhã  
Blogger Laura Lara disse...

Teté
Em todo o lado sempre houve e ainda há quem explore, não é? Talvez menos em África. Beijinhos e bom fim-de-semana

sexta-feira, abril 07, 2006 11:29:00 da manhã  
Blogger Laura Lara disse...

Pituxa
Claro. Disso não tenho a a mais pequena dúvida.
Beijinhos

sexta-feira, abril 07, 2006 11:30:00 da manhã  
Blogger Laura Lara disse...

Beg
Obrigada.
Bom fim-de-semana e beijinhos

sexta-feira, abril 07, 2006 11:30:00 da manhã  
Blogger Folha de Chá disse...

Conheço estas dificuldades de que falas por outros relatos e notícias. Não deve ser nada fácil, não ter aquilo que se precisa. A sorte dos países ocidentais, que bem podiam partilhar tanto mais e ajudar a equilibrar as coisas. E diminuir estas diferenças Europa/África.

sexta-feira, abril 07, 2006 12:12:00 da tarde  
Blogger t-shelf disse...

Só para dizer o óbvio:que história bonita! Mas isso por aqui já é habitual. beijinhos saudosos laura

sexta-feira, abril 07, 2006 12:44:00 da tarde  
Blogger lilla mig disse...

:)

sexta-feira, abril 07, 2006 3:00:00 da tarde  
Blogger perola&granito disse...

Bom fim de semana :o)

sexta-feira, abril 07, 2006 10:53:00 da tarde  
Blogger Madalena disse...

Estou arrepiada! Um beijinho muito grande para ti. O teu marido tinha um bom coração. Tu tens um bom coração. É bom estarmos perto de pessoas boas. Já disse isto em qualquer lado, tal é a repulsa que sinto perante a maldade.
Bom sábado!Sábado para ti também é dia de serviço, não é Laurinha? Os HC não te dispensam...lol

sexta-feira, abril 07, 2006 11:45:00 da tarde  
Blogger Laura Lara disse...

Folhita
Bom fim-de-semana e beijinhos

sábado, abril 08, 2006 11:27:00 da manhã  
Blogger Laura Lara disse...

Ti
Já tinha saudades tuas. Espero que tudo esteja a correr bem.
Bom fim-de-semana e beijinhos, beirenses claro!

sábado, abril 08, 2006 11:28:00 da manhã  
Blogger Laura Lara disse...

Lilla
Bom fim-de-semana, com sol.
Beijinhos

sábado, abril 08, 2006 11:29:00 da manhã  
Blogger Laura Lara disse...

Madalena
Sabes sempre dizer palavras bonitas. Obrigada.
As "agacês" andam por aqui.
Não param: ontem a Rafaela esmurrou o nariz num degrau da escada.
Bom fim-de-semana e beijinhos

sábado, abril 08, 2006 11:33:00 da manhã  
Blogger Arrebenta disse...

A Rainha da Sucata


Andam por aí umas vozes em sobressalto com o que se escreve na Net, e, à cabeça, com a crescente influência das temáticas, abordadas nos “blogues”, sobre a Opinião Pública Nacional. Cumpre-me aqui dizer que sou novo nos “blogues”, e suficientemente antigo, na Opinião Pública. E como me estou, à cabeça, aparentemente – depois, verão que não... – zenitalmente borrifando para os “blogues”, vou, pois, começar pela Opinião Pública.

Ora, em qualquer país pretendido civilizado, a Opinião Pública não é mais do que um misto de emoção e raciocínio difuso, que leva a que as sociedades exerçam, em conjunto, as suas auto-análises, os seus direitos espontâneos de aprovação e desagrado, e uma necessária catarse colectiva, fruto dos sabores e dissabores do Rumo da História.
Os períodos de Opressão e de Distensão medem-se, pois, pelo vigor e maturidade que essa Opinião Pública manifestar.
Na sua coluna de despedida do “Diário Digital”, Clara Ferreira Alves, criatura que nunca frequentei, nem sequer sabia que escrevia, mas que, naquele panorama do Ridículo Nacional, apenas me fazia, de quando em vez, sorrir, entre as suas apalhaçadas oscilações entre o negro azeviche e o louro caniche, dizia eu, centra-se, num dado momento da sua despedida, sobre a perniciosa influência dos blogues na tradicional “Imprensa Impressa”: de acordo com ela, “A Blogosfera é um saco de gatos, que mistura o óptimo com o rasca, e (as vírgulas atrás são todas minhas) acabou por se tornar num magistério da opinião (d)os jornais”, os quais nunca foram sacos de gatos, sempre souberam recolher o óptimo, e nunca constituíram um prolongamento do magistério dos Interesses Ocultos Predominantes.

É óbvio que em todos os jornais, como em todos os "blogues", como em todos os programas de televisão de carácter rasca, -- terríveis eixos do mal --, “existe e vegeta um colunista ambicioso, ou desempregado, (as vírgulas continuam a ser minhas), ou um mero espírito ocioso e rancoroso”, que pode ser vário, como os nomes de Satã.
“Dantes, a pior desta gente praticava o onanismo literário e escrevia maus versos para a gaveta, [publicando] agora as ejaculações”, as quais deveriam continuar a ser privadas, porque o exercício da cobrição, que tantas vezes levou a que um mau texto aparecesse nas parangonas da Crítica, fruto de uma noite mais ou menos bem passada, ou de uma jantarada em lugar eminente, poderia, e deveria, pelos mais elementares deveres do Pudor, nunca ultrapassar a atmosférica fronteira do Secreto e do Invisível. Para mais, parece que, nos blogues, escancarada janela rasgada sobre o Tudo, já não existe aquela claustrofóbica sensação das escassas três ou quatro janelinhas, onde a iluminação da Crítica Impressa revelava ao profano o pouco que se fazia, e, logo, podia aspirar a existir. Parece que nos blogues, dizia eu, se fala agora abertamente de tudo e de todos, e não apenas dos amigos, dos que nos assalariaram o texto, ou dos que nos pagaram para sermos gerentes da sua irremediável Insignificância.

Compreende-se a angústia da Clarinha: com a ascensão dos “blogues” e o declínio dos jornais, anuncia-se também o fim do monopólio das palas postas nos olhos dos burros, e daqueles que tinham o exclusivo poder de as pôr.
Clara Ferreira Alves manifesta-se inquieta pelo seu Presente, e teme pelo seu Futuro. Mais acrescento eu que o que está em jogo é, sobretudo, o seu PASSADO e o de todos os que se lhe assemelham, porque a Cabala, que, durante décadas, tão habilmente geriram, se está agora a desmantelar por todos os lados.

Nos “blogues”, nada mais existe do que quem diariamente fale de tudo e todos, sem defender quaisquer sistemas que não os da prevalência do Excelente sobre o Medíocre, do Livre sobre o Encomendado, e, sobretudo, quem o faça GRATUITAMENTE, ou seja, por mero Dever Cívico, por vontade de intervir, por caturrice, ou tão-só pela amistosa gratidão de poder Partilhar.

É verdade que com os “blogues”, poderá estar em jogo o fim da Palavra Comprada, e já estar a vislumbrar-se o início da Era da Palavra Livre e Particular, o Reino da Palavra Gratuita. Talvez seja isso a Comunicação Global. Em breve, também aí se fará a separação do Trigo do Joio, e passará a vencer quem melhor escrever e mais for lido, dispensando-se as tradicionais encomendas das almas.

Penso, publico, sou lido, e logo existo. Tudo o resto é vão.

Ah, e isto não é um texto para resposta, sobretudo qualquer tipo de resposta, como dizia o Vasco Pulido Valente, que metesse “na conversa a sua célebre descrição do pôr-do-sol no Cairo.

Muito obrigado.”

sábado, abril 08, 2006 1:34:00 da tarde  
Blogger JPF disse...

Linda história ! São estas lindas histórias que nos fazem acreditar que o futuro não pode ser mau.
Beijos
P.S. Ando a tentar imaginar o que serão HC's ...

sábado, abril 08, 2006 11:31:00 da tarde  
Blogger Laura Lara disse...

JPF
Obrigada. Também quero acreditar.
Já adivinhou? É fácil. Forma ternurenta que a Pituxa arranjou para chamar os sobrinhos - horrendas criaturas.
Um abraço

domingo, abril 09, 2006 1:19:00 da manhã  
Blogger espumante disse...

1. O texto é lindo, mas a isso já nos habituaste.
2. Espero que ninguém roube as vírgulas ao "Arrebenta", que ele passou o comentário a dizer que as vírgulas eram dele (entre outras coisas disse também e cito "que nunca frequentou a Clara Ferrera Alves", donde só posso inferir que o Arrebenta acha que a Clara Ferreira Alves é frequentável, o que, no mínimo, é de muito mau aspecto) não vás tu distrair-te e ainda lhe ficas com alguma e um arrebenta sem vírgulas fica ortograficamente arrebentado...
:)
beijinho e bom resto de fim de semana para ti.

domingo, abril 09, 2006 12:36:00 da tarde  
Blogger Laura Lara disse...

Espumante
Bom resto de fim-de-semana para ti também.
Beijinhos

domingo, abril 09, 2006 1:02:00 da tarde  

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