terça-feira, março 21, 2006

Respigos de África - XXXIV

Na época, mais propriamente nos anos trinta, havia, na cidade da Beira, em Moçambique, duas casas de espectáculo, Rex e Olímpia.
Segundo o meu Pai me contava, qualquer espectáculo apresentado enchia qualquer delas. E houve a moda dos prestidigitadores, ilusionistas, hipnotizadores, mágicos - se é que, efectivamente, existem diferenças entre estas palavras – na maioria oriundos do Oriente. Alguns francamente habilidosos, como comprova a história que vou narrar.
Tratava-se de indivíduo mundialmente afamado. Tenho pena, mas não consigo recordar-me do nome. Talvez qualquer coisa semelhante a Chi Kung, Kung Chi, Kung Li, Li Kung, mas não sei. O espectáculo iniciar-se-ia às vinte e uma horas. A sala estava esgotada. Um quarto de hora antes, o meu Pai sentou-se, na primeira fila, em lugar adquirido com a devida antecedência, para não perder o mais ínfimo pormenor e quiçá para tentar perceber algum truque da arte da magia. Chegou a hora marcada. O tempo foi passando. Cinco, dez, quinze, trinta minutos e o artista não chegava. A impaciência cobria a sala. O silêncio ia diminuindo na medida em que aumentavam o barulho, a pateada, os assobios. Nove horas e quarenta e cinco minutos. Já havia quem pretendesse deixar a sala e exigir a devolução do dinheiro despendido. Nunca tantos relógios de pulso foram olhados tantas vezes. A impaciência recrudescia.
Dez horas. Abre-se o pano do palco e uma imponente figura, envolta em capa cintilante, abre os braços. Faz-se um silêncio pesado. E ouve-se, em português macarrónico, perguntar qual a razão de tal alarido. À resposta explicativa dada pela assistência, retorquiu o prestidigitador, ilusionista, hipnotizador, mágico, ou lá que fosse.
- Mas são exactamente vinte e uma horas!

O meu Pai olhou para o relógio e garantiu-me que ele e toda a assistência daquela sala repleta puderam confirmar que eram exactamente vinte e uma horas.

5 Comentários:

Blogger dakidali disse...

É a magia. Sempre com estórias ricas e interessantes.
Beijinho
Tété

terça-feira, março 21, 2006 11:31:00 da tarde  
Blogger Isabel Magalhães disse...

Acredito pois! :)

E conto rapidamente outra:

Num qq programa de tv num canal nacional, o 'Mágico' de serviço pediu que os espectadores em casa fossem buscar um relógio de pulso que estivesse avariado.

Já não me lembro das instruções que ele ía dando mas sei que o meu relógio avariado há muito começou a trabalhar. :)

Um beijinho, Laura.

quarta-feira, março 22, 2006 2:41:00 da manhã  
Blogger Pitucha disse...

A magia espanta-me sempre. E perturba-me! (Gosto de perceber as coisas).
Beijos

quarta-feira, março 22, 2006 10:15:00 da manhã  
Blogger JPF disse...

Para prestidigitador, ilusionista, hipnotizador, mágico não está nada mal...

quarta-feira, março 22, 2006 1:15:00 da tarde  
Blogger Carlota disse...

Extraordinário!
Mas eu nestas coisas também sou como a Pitucha...

quarta-feira, março 22, 2006 10:31:00 da tarde  

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