sábado, março 04, 2006

Reinaldo Ferreira para a Madalena



No Número Especial deste jornal da Beira, Moçambique, referente ao Natal do ano de 1959, encontrei esta página 60, que coloco aqui (apenas um pedaço) por acreditar que a Madalena vai gostar.

Deus que me fez e fizera
o pecado antes de mim,
Junto de Si, não me espera,
sabe o destino a que vim.

Pode tudo; e não altera
o pecador que há em mim,
nem nunca tanto pudera:
pecarei até ao fim.

Pois se tudo em mim venera
o pecador que há em mim,
Deus já não pode nem espera:
fez o destino a que vim!

*****

Não ponho esperança em mais nada.
E se puser
há-de ser ambição tão desmedida
que não me caiba sequer
no que me resta de vida.
Ambição tão irreal,
tão paranóica, tamanha,
com Granada e o Escurial.
como Granada e o Escurial.
porque esta esperança que ponho
em ver-te sair um dia
da verdade para o sonho,
é como ser-se feitor
dalguma herdade cansada:
à terra, dá-se o melhor,
a terra não nos dá nada.

*****

Passos furtivos na escada
da minha imaginação.
Sabendo-os frutos de nada
são reais como os que o são.

Basta que os oiça e provocam
a minha insónia de assalto.
Se fujo, seguem-me, voam
se grito, gritam mais alto.

Por favor, bom senso - Não!
É resposta que eu não posso.
De que me serve a razão
se não existe o que eu ouço?

*****

Vivo na esperança de um gesto
que hás-de fazer.
Gesto, claro, é maneira de dizer,
pois o que importa é o resto
que esse gesto tem de ter.
Tem que ter sinceridade
sem parecer premeditado;
e tem de ser convincente,
mas de maneira diferente
do discurso preparado.
Sem me alargar, não resisto
à tentação de dizer,
que o gesto não é só isto...
Quando tu, em confusão,
sabendo que estou à espera,
me mostras que só hesitas
por não saber começar,
que tentações de falar!
Porque enfim, como adivinhas,
esse gesto eu sei qual é,
Mas se o disser, já não é...

*****

Quero que as esporas saibam carícias.
Voa, cavalo, galopa mais,
para aquele ponto fora do mundo
p’ra onde tendem as catedrais.

Quero isto tudo – mas, meus senhores:
como é possível fazer viagens
sem um cavalo de várias cores?

Quero um cavalo de várias cores,
quero-o depressa, que vou partir.
Esperam-me prados com tantas flores,
que só cavalos de muitas cores
podem servir.

Quero uma sela feita de rasto
dalguma nuvem que ande no céu.
Quero-a evasiva, nimbos e cerros,
sobre os valados, sobre os aterros,
que o mundo é meu.

5 Comentários:

Blogger Nekynho disse...

Lindo :o)
Bom fim de semana :o)

sábado, março 04, 2006 6:44:00 da manhã  
Blogger Madalena disse...

Obrigada, obrigada, obrigada, mil vezes obrigada, pela poesia e pelo mimo!!!!!!
E mil beijinhos, também!

sábado, março 04, 2006 9:38:00 da tarde  
Blogger Pitucha disse...

Estou de volta!
Beijos

sábado, março 04, 2006 9:49:00 da tarde  
Blogger dakidali disse...

Obrigado pela visita. Já agora também dedico a ti o meu post do Parafuso.
Beijinhos e vou ser visita assidua.
Teresa

segunda-feira, março 06, 2006 8:17:00 da manhã  
Blogger Isabel Magalhães disse...

Só há alguns anos - poucos - conheci a Poesia de Reinaldo Ferreira.

Ofereceram-me o livro 'POEMAS' com prefácio de José Régio e onde consta o poema aqui citado 'Quero um cavalo de várias cores / Quero-o depressa, que vou partir. (...)

Por coincidência é o 'meu' poema preferido.

Um abraço.

quinta-feira, março 09, 2006 12:04:00 da tarde  

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