quarta-feira, março 29, 2006

Introduzi-me no Computador

Se eu fosse um computador, meia dúzia de olhos olhavam para mim, com olhos de ver, uma boa parte do dia. A meia dúzia de olhos são os dos meus netos.
O computador sabe tudo, no computador encontra-se tudo. Desde a progressão da telenovela, que não estão autorizados a ver (televisão só no fim-de-semana), até dados importantes para a disciplina Estudo do Meio (que nome curioso – será para afastar a questão dicotómica entre esquerda e direita?).
Sim, se às crianças é pedido que organizem, em trabalho de grupo, um painel sobre “As uvas estão maduras”, onde irão elas descobrir elementos para debater tão importante questão?
Sim, se às crianças é pedido que observem e conversem sobre fotografias de timorenses, chineses, ingleses, indianos, ciganos, brasileiros, guineenses e cabo-verdianos, onde irão elas arranjar matéria de fundo para debater tão complexo tema? (Retirei estes dois exemplos do livro “Bambi 3 – Estudo do Meio”).
Vejamos um dia dos meus netos. Oito horas, levantar. Nove horas e trinta minutos, começo das aulas. Dezoito horas, vou buscá-los à escola. Dezoito horas e dez minutos, chegada a casa. Dezanove horas, tomar banho. Vinte horas, jantar. Vinte e uma horas e trinta minutos, deitar. Nos intervalos, pouquíssimos, há que consultar o computador, brincar, ouvir alguma música e, com algum esforço, ler.
Tenho tempo para lhes contar histórias? Claro que não.
Estão eles, porventura, interessados em ouvir as minhas histórias? Claro que não.
E foi, por isso, que, um dia, esta situação contribuiu para a minha decisão de fazer um blogue.
Introduzi-me no computador.
Esperando que, daqui a um tempo, possam ler aquilo que agora não tenho tempo de lhes contar nem eles de ouvir.

segunda-feira, março 27, 2006

A Carlota mete-me em cada Alhada!

À Carlota não consigo dizer: Não respondo.
É amorosa e ainda por cima do gang de Bruxelas.
Gente vivaz, inteligente, fulgurante, que Portugal se deu ao luxo de desaproveitar.
Mas essa é outra história.

Vou responder ao que é possível.

Quatro empregos que tive na vida

Comecei na CUF. Os restantes empregos, e foram mais de quatro, não quero referir.
Digo apenas que foram na Administração Central e de todos tenho saudade. Tive a sorte de trabalhar sempre com gosto e de ter sempre encontrado amigos que perduram até hoje.

Quatro sítios onde vivi

Vivi na Beira, Moçambique, em Lisboa, em Uxbridge (perto de Londres) e em Toulouse.

Quatro filmes que posso ver vezes sem conta

Que posso, não, que tenho de! Que remédio! No mesmo dia, de seguida, vi três vezes “A Branca de Neve e os Sete Anões”, numa altura em que o meu neto estava doente. E as vezes que já vi os “Sozinho em Casa” (1, 2, 3 e 4)!!!??? A condição de avó a tal obriga...

Quatro pratos favoritos

Todos os genuinamente portugueses. Cozido à Portuguesa, Feijoada, Grão com Mão-de-Vaca, Ervilhas com Ovos...

Quatro séries que nunca perco

Perco-as todas. Mentira! Agora estou a ver uma brasileira, intitulada “Um Só Coração”, baseada em factos reais ocorridos no início do século XX, na cidade de S. Paulo.

Quatro "websites" que visito diariamente

Os do gang de Bruxelas.

Quatro sítios onde gostaria de estar agora

Gosto de estar onde estou.

sexta-feira, março 24, 2006

O Meu Colégio na Beira, Moçambique


Fotografia do Álbum de José dos Santos Rufino, 1929

Alunos da Beira, Moçambique


Nesta fotografia (do Álbum de José dos Santos Rufino, 1929), estão
a minha Mãe e o meu Tio.

quarta-feira, março 22, 2006

A Boneca Allets

Era uma vez uma boneca. Irmã gémea da Shirley Temple. Chamava-se Allets. Não era uma boneca igual a tantas outras. Era mesmo uma boneca diferente. Não tinha pouso certo. Andava sempre a saltitar de um lado para o outro como se estivesse à procura de alguém ou de alguma coisa. Ela é que escolhia com quem queria brincar. Um dia pensou que queria brincar com o Flautista de Hamelin. Aprendia a tocar flauta, ajudava a livrar a cidade de todos os ratos e brincava com todos os meninos que foram levados lá para os confins da Ásia. E quando pensava num desejo, este realizava-se imediatamente. E foi assim que, de repente, se viu ao lado do Flautista. Os meninos cresceram e, um dia, pensou que queria era ir brincar com a Menina do Mar. E, de repente, apareceu ao lado do rapazinho da casa branca e da menina do mar e brincou com o polvo, com o caranguejo, com o peixe, com o golfinho, dançou e cantou e visitou o palácio do fundo do mar. Quando o frio chegou, a boneca Allets pensou que queria ir conhecer o Feiticeiro de Oz e, de repente, viu-se ao lado da Doroteia, do leão, do homem de lata, do espantalho e caminhou com eles até à cidade Esmeralda, onde encontraram o feiticeiro. E então, cansada da caminhada, sentou-se em frente ao computador e leu a história que a Madalena dedicou à Stella. Aquela da tia Árvore. E, de repente, estava, de pé, ao lado daquela linda menina, em Moçambique. Olhou-a e disse-lhe: - Estou cansada de brincar as histórias dos outros. Estou cansada de não ter o meu cantinho. Posso ficar aqui contigo para sempre e construirmos as duas a nossa história? Deixas? Afinal de contas sou o teu anagrama.
A Stella olhou-a, levantou os braços na sua direcção e toda ela irradiou uma imensa felicidade. A boneca Allets sabia que a Stella estava a dizer-lhe: Sim!

Fiz esta boneca para a Stella

terça-feira, março 21, 2006

Respigos de África - XXXIV

Na época, mais propriamente nos anos trinta, havia, na cidade da Beira, em Moçambique, duas casas de espectáculo, Rex e Olímpia.
Segundo o meu Pai me contava, qualquer espectáculo apresentado enchia qualquer delas. E houve a moda dos prestidigitadores, ilusionistas, hipnotizadores, mágicos - se é que, efectivamente, existem diferenças entre estas palavras – na maioria oriundos do Oriente. Alguns francamente habilidosos, como comprova a história que vou narrar.
Tratava-se de indivíduo mundialmente afamado. Tenho pena, mas não consigo recordar-me do nome. Talvez qualquer coisa semelhante a Chi Kung, Kung Chi, Kung Li, Li Kung, mas não sei. O espectáculo iniciar-se-ia às vinte e uma horas. A sala estava esgotada. Um quarto de hora antes, o meu Pai sentou-se, na primeira fila, em lugar adquirido com a devida antecedência, para não perder o mais ínfimo pormenor e quiçá para tentar perceber algum truque da arte da magia. Chegou a hora marcada. O tempo foi passando. Cinco, dez, quinze, trinta minutos e o artista não chegava. A impaciência cobria a sala. O silêncio ia diminuindo na medida em que aumentavam o barulho, a pateada, os assobios. Nove horas e quarenta e cinco minutos. Já havia quem pretendesse deixar a sala e exigir a devolução do dinheiro despendido. Nunca tantos relógios de pulso foram olhados tantas vezes. A impaciência recrudescia.
Dez horas. Abre-se o pano do palco e uma imponente figura, envolta em capa cintilante, abre os braços. Faz-se um silêncio pesado. E ouve-se, em português macarrónico, perguntar qual a razão de tal alarido. À resposta explicativa dada pela assistência, retorquiu o prestidigitador, ilusionista, hipnotizador, mágico, ou lá que fosse.
- Mas são exactamente vinte e uma horas!

O meu Pai olhou para o relógio e garantiu-me que ele e toda a assistência daquela sala repleta puderam confirmar que eram exactamente vinte e uma horas.

Neste Dia da Poesia

quinta-feira, março 16, 2006

Meios de Comunicação

Um texto da Pituxa fez-me pensar!
No meu livro de Inglês, acho que do quinto ano do liceu (hoje nono), a primeira lição dizia, mais ou menos, isto: “Means of communication have increased so rapidly during the last few years that we cannot imagine life without....”.
O que diria hoje, passados pouco mais de cinquenta anos?
O que realmente me impressiona desde os sinais de fumo até aos computadores é a velocidade a que a tecnologia avança, nos tempos de hoje.
Quando nasci, já havia rádio na nossa casa.
Mas não havia telefone. Ainda me lembro da primeira pessoa a quem telefonei, já eu tinha onze anos. A propósito, vou telefonar- -lhe logo.
Televisão só meia dúzia de anos mais tarde. E a preto e branco.
Quando comecei a trabalhar achei o telex um espanto. Fax, só muitos anos depois.
O primeiro computador que vi faria rir de incredulidade os meus netos. E fiquei triste. Foi nesse dia que questionei todo o encanto das histórias das mil e uma noites. Afinal era possível dizer “abre- -te sésamo!” e abrir o que quer que fosse. E foi nesse dia que soube que a lâmpada de Aladino deixaria, um dia, de ser mágica. E foi nesse dia que me lembrei de, na catequese, alguém me ter dito que os mistérios só o eram até ao dia em que a ciência os desfizesse.
Bom? Mau?
Tal como nos velhos filmes de cow-boys, em que havia os bons e os maus, em tudo existe o bem e o mal. Só que nos filmes os bons ganhavam sempre e... na vida real?
Dos benefícios e malefícios da Internet já todos sabemos.
A nossa vida passará a ser um livro aberto no mundo na Internet.
Estamos dispostos a abdicar da nossa privacidade?
Ou vamos ansiar pelo anonimato do passado?

Mas o que virá a seguir à Internet?
Acho que não deve tardar.

terça-feira, março 14, 2006

Histórias Lembradas - VIII

Pessoa mais sensível, difícil será encontrar.
Pessoa mais delicada, difícil será encontrar.
Pessoa mais sã, difícil será encontrar.
Pessoa mais prestável, difícil será encontrar.
Pessoa mais educada, difícil será encontrar.
Pessoa mais amiga, difícil será encontrar.

Tranquilo, delicado, andava neste mundo, parecendo que a todos pedia desculpa, que todos receava incomodar.

Era assim o meu Tio Manuel.

Foi convidado para almoçar. Pela primeira vez. Pessoas amigas, mas com quem fazia cerimónia. Era a sua maneira de ser, fazia cerimónia com toda a gente.
O almoço - bacalhau, batatas, grelos e ovos cozidos - juntava uma dúzia de pessoas à volta da mesa. Galheteiro, com azeite e vinagre, era só um. Pousado longe do lugar ocupado pelo meu tio. Pedir para lho passarem? Nem pensar! Não poderia incomodar tanta gente. Qual a solução? Comer sem esse tempero! E se ele gostava de azeite! Do bom, como havia na sua terra, deitado com fartura e, muitas vezes, no final, gostosamente saboreado com pão.
Mas a anfitriã reparou e a pergunta foi feita:
- Manuel, está a comer sem azeite?
Incomodado por ter incomodado, respondeu:
- Não gosto de azeite. Prefiro comer tudo seco!

E foi assim que, durante largos anos, passou a ser regularmente convidado e a comer sempre sem azeite.

segunda-feira, março 13, 2006

Poeta Angolano


Ao acaso, tirei este livro da estante.

Começa assim:

“A VOZ DA TERRA

I

A poesia nasce como os rios
e as pessoas
as avenidas
e o mar

Porque a poesia vive em tudo
e em tudo se confunde
com o sonho.

Março, 1960

sexta-feira, março 10, 2006

Respigos de África - XXXIII


Na Beira, Moçambique, os bibes das "mameres", nós e a Fly.

Respigos de África - XXXII


Na Beira, Moçambique, o meu laçarote, a minha bicicleta e eu.

quarta-feira, março 08, 2006

Histórias Lembradas - VII

Ia o meu Tio a caminho do Café Gelo.
Vivia em Mem Martins e apeara-se na estação do Rossio para, como costumava fazer, se encontrar com o seu grupo de amigos, muitos de Moçambique, africanistas, como ele dizia, e passar a tarde em vivaz cavaqueira.
Mas constipação ou outra qualquer causa fizeram com que espirrasse.
E não foi um espirro à toa.
Foi um espirro com consequências de monta.
Projectou-lhe a dentadura. Quase à porta do café, para o meio do imenso amontado de gente que por ali arrastava o seu nada que fazer.
Baixou-se o meu Tio para procurar a dentadura, que algum sapato já havia decerto pontapeado, e baixaram-se muitos corpos para o ajudar, após estabelecida a devida corrente informativa sobre o objecto a encontrar. E assim ficou, sem grande delonga, recuperado o aparelho dentário. Mas a história não terminou aqui. Dois dentes tinham saltado como dois buracos bem o comprovavam. Havia que encontrá-los. E todo aquele largo passeio em frente ao café foi árdua e minuciosamente vasculhado por um monte de gente que, de repente, se viu com trabalho a executar.
Não foi tarefa fácil nem rápida.
A dentadura e os dois dentes dela arrancados regressaram, ao fim da tarde, a Mem Martins, no bolso do casaco do meu Tio, embrulhados num guardanapo de papel.

terça-feira, março 07, 2006

Adeus Dinah

Cheguei agora mesmo da última despedida.
Era uma amiga de há muitos anos.
Tenho o sabor amargo de tempo desperdiçado.
De tempo perdido.
De tempo em que a amizade não foi toda dita.
De tempo em que a amizade não foi toda sentida.
De tempo em que a amizade não foi toda partilhada.
De tempo em que a amizade não foi toda vivida.
Adeus Dinah. Até um dia!

sábado, março 04, 2006

Reinaldo Ferreira para a Madalena



No Número Especial deste jornal da Beira, Moçambique, referente ao Natal do ano de 1959, encontrei esta página 60, que coloco aqui (apenas um pedaço) por acreditar que a Madalena vai gostar.

Deus que me fez e fizera
o pecado antes de mim,
Junto de Si, não me espera,
sabe o destino a que vim.

Pode tudo; e não altera
o pecador que há em mim,
nem nunca tanto pudera:
pecarei até ao fim.

Pois se tudo em mim venera
o pecador que há em mim,
Deus já não pode nem espera:
fez o destino a que vim!

*****

Não ponho esperança em mais nada.
E se puser
há-de ser ambição tão desmedida
que não me caiba sequer
no que me resta de vida.
Ambição tão irreal,
tão paranóica, tamanha,
com Granada e o Escurial.
como Granada e o Escurial.
porque esta esperança que ponho
em ver-te sair um dia
da verdade para o sonho,
é como ser-se feitor
dalguma herdade cansada:
à terra, dá-se o melhor,
a terra não nos dá nada.

*****

Passos furtivos na escada
da minha imaginação.
Sabendo-os frutos de nada
são reais como os que o são.

Basta que os oiça e provocam
a minha insónia de assalto.
Se fujo, seguem-me, voam
se grito, gritam mais alto.

Por favor, bom senso - Não!
É resposta que eu não posso.
De que me serve a razão
se não existe o que eu ouço?

*****

Vivo na esperança de um gesto
que hás-de fazer.
Gesto, claro, é maneira de dizer,
pois o que importa é o resto
que esse gesto tem de ter.
Tem que ter sinceridade
sem parecer premeditado;
e tem de ser convincente,
mas de maneira diferente
do discurso preparado.
Sem me alargar, não resisto
à tentação de dizer,
que o gesto não é só isto...
Quando tu, em confusão,
sabendo que estou à espera,
me mostras que só hesitas
por não saber começar,
que tentações de falar!
Porque enfim, como adivinhas,
esse gesto eu sei qual é,
Mas se o disser, já não é...

*****

Quero que as esporas saibam carícias.
Voa, cavalo, galopa mais,
para aquele ponto fora do mundo
p’ra onde tendem as catedrais.

Quero isto tudo – mas, meus senhores:
como é possível fazer viagens
sem um cavalo de várias cores?

Quero um cavalo de várias cores,
quero-o depressa, que vou partir.
Esperam-me prados com tantas flores,
que só cavalos de muitas cores
podem servir.

Quero uma sela feita de rasto
dalguma nuvem que ande no céu.
Quero-a evasiva, nimbos e cerros,
sobre os valados, sobre os aterros,
que o mundo é meu.

quarta-feira, março 01, 2006

Histórias Lembradas - VI

O metropolitano de Lisboa tinha acabado de ser inaugurado.
Estávamos no ano de 1959.
Na estação da Rotunda (Marquês do Pombal), toda a gente que aí se encontrava ficou a saber que aquela senhora tinha vindo de longe com o único objectivo de conhecer o metro e de viajar nele.
Excitadíssima, falava bem alto, explicava que ia descer em todas as estações, que ia ver tudo muito bem visto para depois contar lá na terra. Que ela soubesse – e tinha o aspecto de saber tudo o que lá se passava - ninguém ainda o conhecia e ela seria a única primeira portadora da grande novidade: Já tinha andado no metro.
Um barulho longínquo denunciou a sua aproximação e lá ao fundo do túnel já se vislumbravam dois olhos luminosos que iam aumentando à medida que se aproximavam. Finalmente o propósito da visita chegou e parou na estação.
A reacção da senhora foi um misto de fúria, de decepção e de logro, tudo ruidosamente manifestado.

Mas isto, mas isto, é apenas um combóio!!!