terça-feira, fevereiro 28, 2006

"No Cinzento de Bruxelas"

Hoje comprei uma vela para festejar o primeiro aniversário do "No Cinzento de Bruxelas".
Vamos todos cantar o Parabéns a Você por este cinzento tão especial?

sexta-feira, fevereiro 24, 2006

Respigos de África - XXXI

Só me mascarei uma vez. De varina estilizada. Assim se chamava o fato.
Foi na Beira, Moçambique e como, nessa altura, não se festejava o Carnaval por aquelas paragens, as crianças mascaravam-se pelo Natal, segundo a tradição inglesa. Lembro-me que o fato era lindo. Saia de fazenda, pelo meio da perna com pouca roda, num xadrez bem garrido sobre fundo negro. Blusa branca, em linho grosso, com muitos folhos e colete bem justinho, também em fazenda, apertado com atilhos. Meias grossas em lã e chinelos em verniz preto. Um fio grosso com um grande medalhão em metal amarelo a imitar ouro, brincos compridos no mesmo material. Um lenço de bonito desenho a cair debaixo dum chapéu de feltro preto sem abas, com uma borla de lado.
O fato era quentíssimo, como quentíssimo é o tempo, em Dezembro, em África.
Mas estive contente todo o dia e mais estaria se não fossem as chinelas que teimavam em sair-me dos pés.
Talvez nunca tenha transpirado tanto em toda a minha vida, mas afirmo que me senti a menina mais bonita e mais importante naquele dia e naquele lugar.

segunda-feira, fevereiro 20, 2006

Respigos de África - XXX

Há aquelas toucas de banho, normalmente em plástico, com um elástico a toda a volta e um folho.

Imaginem a touca, em tamanho reduzido, feita de tule, com uma rendinha à volta do folho.
Das mais variadas cores, a condizer com a casa de banho ou com os copos de dentes.
Era assim na Beira, em África.
Uma touca a cobrir cada copo de dentes e respectiva escova. Se assim não fosse, rapidamente as escovas ficavam sem as cerdas, petisco muito apreciado pelas baratas.

sexta-feira, fevereiro 17, 2006

Respigos de África - XXIX

Até há bem pouco tempo... na verdade, acho que, às vezes, inconscientemente, ainda o faço, bato com o tacão dos sapatos no chão, antes de os calçar, para ter a certeza de que nenhum objecto estranho lá se alojou, durante a noite.
Porquê?
Porque, em África, na Beira, os lacraus gostavam de dormir naquele sítio!

quarta-feira, fevereiro 15, 2006

Respigos de África - XXVIII

O meu Pai adorava leite. Leite gordo, cheio de nata. Nata amarelada que, no fim do copo, comia à colher.
Todas as noites, antes de se deitar, bebia um copo cheio.
Um dia, lá estava o copo de leite na mesinha de cabeceira, devidamente tapado com um paninho, à espera que o meu Pai se deitasse. Deitou-se tarde e para não acordar a minha Mãe, manteve-se na escuridão. Tirou o paninho e começou a beber. Algo o interrompeu, pousou o copo, fez o que tinha a fazer e retomou, entretanto, a sua saborosa bebida.
A nata era gorda e ia soprando para a desviar.
Mas não, a nata não podia ser tanta, nem tão gorda.
Os seus lábios pressentiam a diferença de textura.
Acendeu a luz, olhou e o que viu?
Uma enorme barata, daquelas com asas e pêlos, sarapintada, que eu só vi em África, que tinha resolvido, após um voo picado, dar um mergulho.

terça-feira, fevereiro 14, 2006

Dia dos Namorados

Como não sei o que dizer, mas não quero que digam que não disse nada, embora tenha consciência de que não tenho nada para dizer, porque isto de dias de é uma coisa que não me convence, lembrei-me das criancinhas e desta rima infantil:

A criada lá de cima
É feita de papelão,
Quando vai fazer a cama
Diz assim para o patrão:
- sete e sete são catorze,
com mais sete são vinte e um,
tenho sete namorados
e não gosto de nenhum.

segunda-feira, fevereiro 13, 2006

The Old Vic Theatre





Tive a sorte de poder assistir a muitas peças de Shakespeare neste teatro de Londres.
O teatro foi inaugurado em 1818 e, de acordo com o que me foi dito, os ingleses faziam questão de manter o teatro exactamente como tinha sido construído.
Nem o guarda-roupa limpavam.
Assim, quando o pano subia, o cheiro a suor era indescritível.
Mas era a tradição e o certo é que rapidamente nos habituávamos ao cheiro e nada nos distraía do deslumbramento que era podermos viver todos aqueles momentos inesquecíveis.
Na peça “Otelo”, Richard Burton e John Neville eram soberbos.
Parece que, sendo ambos tão extraordinários, quer no papel de Iago, quer no de Otelo, foi decidido alternarem os papéis. E foi assim que comprei bilhetes para duas sessões. Na primeira, vi o Richard Burton como Otelo. Lamentei ter gasto dinheiro para ir vê-lo como Iago, pois não concebia que fosse possível alguém representar melhor do que ele o papel de Otelo e alguém representar o Iago melhor do que o John Neville.
Puro engano! Que assombro foi o papel de ambos nos outros papéis.

Ainda hoje, após tantos anos, tenho presente a representação de ambos e ainda hoje, após tantos anos, me questiono: Como é possível representar tão bem, em dias alternados, personagens tão diferentes?

As imagens foram digitalizadas a partir da minha brochura, já muito velhinha.
A qualidade é má, mas se clicar sobre as mesmas, verá melhor.

sexta-feira, fevereiro 10, 2006

Respigos de África - XXVII

Aos Domingos, logo que a minha Mãe se levantava, lá ia ter com o meu Pai. Enfiava-me na sua cama e passava bons momentos a conversar e a ouvir os livros que ele me lia, que, na altura, de tão pequena, ainda não conseguia ler os livros dos crescidos, como eu dizia.
Eu achava que havia dois mundos diferentes. O mundo dos pequenos e o mundo dos grandes.
No meu mundo, o dos pequenos, havia os livros de histórias infantis que eu lia e entendia.
No meu mundo, o dos pequenos, eu falava e entendia o que me diziam.
No outro mundo, o dos grandes, havia os outros livros, com histórias muito compridas, letras muito apertadinhas, que eu não entendia.
No outro mundo, o dos grandes, falava-se de coisas que eu não entendia. Achava mesmo que falavam uma outra língua, que não a minha.
Mas quando era o meu Pai a ler-me e a falar-me, eu entendia tudo e ria.
Recordo-me de dois livros, que ainda hoje gosto de reler, apesar de estarem completamente esquecidos. Injustamente esquecidos, eu acho.
“A Maluquinha de Arroios” e “A vizinha do lado”, de André Brun.
O humor de André Brun, a alegria, a graça e a leveza que marcaram a filosofia de vida do meu Pai, fizeram com que, hoje, eu recordasse velhos tempos de África e escrevesse isto.

quarta-feira, fevereiro 08, 2006

Respigos de África - XXVI

Era amigo do meu Pai.
Era natural de Goa.
Gostava de alardear a sua cultura e o seu rigor linguístico, de pendor algo gongórico.
Com aquele sotaque doce, peculiar de muitos portugueses oriundos da Índia, nos anos trinta, em Moçambique, dizia assim, quando atendia o telefone:
- Quem fala da outra extremidade da linha?

domingo, fevereiro 05, 2006

Respigos de África - XXV

Mesa posta para o jantar.
Pratos, talheres, guardanapos, tudo posto tanto à beirinha que metade ficava fora dos limites da mesa.
Reparo feito pela minha Mãe ao moleque: Já agora, mais vale pores tudo no chão!
No dia seguinte. Não é que estava tudo direitinho, mas no chão?

sexta-feira, fevereiro 03, 2006

Cinco Idiossincrasias, Cinco Vítimas!

Só mesmo a Madalena, para me fazer responder a este apelo!

Diga cinco erros, defeitos, qualidades ou virtudes.
Escolha cinco vítimas para não quebrar a corrente.

Cinco idiossincrasias:
1 – Ter a mania da arrumação (exemplo: no meu estendal, com seis cordas, cada uma tem, obrigatoriamente, de ter a mesma cor de molas – uma amarela, uma verde, uma encarnada, uma azul escura, uma azul clara, uma cor-de-laranja);
2 – Sentir-me infeliz por não conseguir ter tudo arrumado ao meu gosto, já que fui claramente vencida pelos meus netos, que são o exemplo vivo da desarrumação, não obstante os meus repetidos apelos para alterarem tal comportamento;
3 – Não deixar que fumem no meu carro; o cinzeiro é apenas depósito de moedas para os parquímetros;
4 – Ter os cabides pendurados todos na mesma direcção e os fatos “arquivados” por cores;
5 – Nunca mudar os objectos de sítio. Cada coisa no seu lugar, sempre.

Como hoje é Sexta-feira, dia de limpezas, saiu este texto desenxabido, tal como eu.

Passo a incumbência:
- Ao Espumante, das poucas pessoas, para não dizer única, que conheço, que conseguirá escrever um texto de antologia, a partir disto;
- Ao Torquato da Luz, para ter o prazer de ler uma resposta em verso;
- À LM, que, desde o dia 20, que não nos escreve nada;
- À Laura, porque é minha homónima;
- À Maryluh, que, há dias, publicou coisas bonitas da minha terra.

Mal, bem sei, mas missão cumprida.

quinta-feira, fevereiro 02, 2006

Histórias Lembradas - V

O paquete que me trouxe da Beira para Lisboa chamava-se “Colonial” e a viagem durou quarenta e três dias. Estava tão velho que foi a sua última viagem. Houve muitos problemas, apanhou-se mau mar, muita gente com intoxicação alimentar, uma colher de azeite logo em jejum, mas eu, na santa inocência da infância, achei tudo muito divertido. Até tentar andar a direito nos corredores, com o chão a faltar, era motivo de brincadeira.
Havia música todos do dias, depois do jantar, e ainda me lembro que uma das canções mais tocadas começava com umas palavras que me soavam assim: tombazana nafa...
Mas o que mais me impressionou foi, no dia em que entrámos no navio, o meu Pai ter pegado nalgumas notas (não sei de que valor), tê-las cortado ao meio, ter chamado o pessoal que iria servir-nos, ao longo da longa viagem, e ter dito:
Pessoal, agora ficam com metade. Se for bem servido, recebem a outra metade, no dia em que chegarmos a Lisboa!

quarta-feira, fevereiro 01, 2006

Histórias Lembradas - IV

Estava o meu Pai a brincar, em pequenino, lá na sua aldeia, quando descobriu, na parede da casa, lá em cima, mesmo por baixo do beirado, um buraco. Logo pensou tratar-se de um ninho. Escadote preparado, trepou-o, munido de um pau. Escarafunchou , escarafunchou, e do meio de palhas, cotão e lixo, o que é que emerge?
Três dobrões em ouro!

Neve Ainda

Em Fevereiro de 1955, a neve era assim no meu Colégio, em Hillingdon Court, Uxbridge.