sábado, janeiro 28, 2006

Nesta Casa. Nesta Capela




Nesta casa passei férias.
Nesta casa assisti às vindimas. Recordo o chiar dos carros puxados a bois. Recordo o pisar das uvas.
Nesta casa diverti-me nos festejos dos santos populares. Recordo-me dos colares de pinhões que a minha Mãe não me deixava comer.
Nesta casa tomei bons banhos no tanque. Grande como uma piscina, com água corrente vinda da mina da Serra da Gardunha.
Nesta casa montava o burro que me levava à quinta, sem precisar de saber conduzir.
Nesta casa ouvi as histórias das tropas francesas. Do animal em ouro maciço que enterraram na serra, para escapar aos saques e de que perderam o rastro. Acho que ainda hoje o procuram.
Nesta casa passei horas a andar de balouço, feito com duas cordas e uma tábua, preso, pelo meu Tio Manuel, a um grosso tronco de oliveira, mesmo perto da porta da cozinha que dava para o quintal.
Nesta casa buli com toda a traquitana velha existente no sótão, que me aguçava a imaginação e curiosidade. Desmanchei muitas teias de aranhas.
Nesta casa comi os melhores queijos (quanto melhor sabiam, pior cheiravam a chulé). Os melhores figos. As melhores uvas.
Nesta casa bebi leite de cabra.
Nesta casa fugia dos gansos. Corria atrás das galinhas. Fui mordida por um galo. Mimava os pintainhos.
Nesta casa vi pela primeira vez barro preto.
Nesta casa ouvi os lobos a uivarem em noites frias da época de Natal.
Nesta casa aprendi a sala de visitas, sempre coberta com lençóis e só destapada em ocasiões festivas ou na visita do Padre, pela Páscoa.
Nesta casa conheci os pífaros feitos com cana e de que nunca consegui extrair nenhum som melódico.
Nesta casa ouvia os sinos da Igreja tocarem. E a minha Avó a ensinar-me o significado dos vários toques. De alegria e de tristeza.
Nesta casa comia numa sala em que dois camaleões passeavam nas paredes para engolirem as moscas que eram mais que muitas. E picavam.
Nesta casa havia um cágado que limpava o cotão. Diziam-me. E, às vezes, hibernava. E o chão continuava limpo, esfregado com sabão amarelo e encerado com um aroma divinal.
Nesta casa toda a roupa cheirava a alfazema.
Nesta casa sentávamo-nos, à noite, na varanda, conversávamos e olhávamos aquele céu diferente que tinha miríades de estrelas, as constelações e a via láctea.
Nesta casa dormia muito depressa para levantar-me cedo e ir subir a serra, sempre de cajado na mão para ajudar a escalada.
Nesta casa acordava com o cantar dos galos e o ladrar dos cães da Serra da Estrela, que nos guardavam.
Nesta casa ouvia os grilos, as cigarras e os ralos, no fim das tardes quentes.
Nesta casa conheci os tabuleiros de bichos-da-seda e os casulos que faziam a linha com que se bordavam as colchas de Castelo Branco.
Nesta casa a luz das lâmpadas tremeluzia, os fios entrançados, cobertos a tecido, corriam pelas paredes e os interruptores eram em louça cor de pérola. Em louça eram também os manípulos das portas. As portas rangiam. O chão rangia.
Nesta casa vivia a minha avó e, antes dela, um meu tio, seu irmão, que não conheci, e que mandou construi-la, igual a outra que possuía em Belas.
Nesta capela existia, acho que ainda existe, uma única imagem, a de S. Sebastião, varado de setas, que me consternava porque não a entendia, porque não sabia ainda da ferocidade dos homens.
Nesta capela, capela de S. Sebastião, casaram os meus Pais.
Em mim está muito desta casa e desta capela, de que a minha avó era a guardadora da chave.

As fotografias foram tiradas pelo meu Pai.
A casa e a capela ficam em Vale de Prazeres, no Largo de São Sebastião.

quarta-feira, janeiro 25, 2006

Respigos de África - XXIV

Lembro-me de muitas coisas a partir dos três anos de idade.
As lembranças estão certas, mas a dimensão está errada.
Quando, já adulta, tive a oportunidade de rever o Jardim do Bacalhau, na Beira, Moçambique, fiquei triste com o seu tamanho.
Como é que o enorme jardim, onde tanto brinquei, onde tanto andei de bicicleta, encolheu tanto ao longo dos anos?
O jardim era atravessado por uma rua. Eu só brincava do lado de cá, relativamente à localização da nossa casa. Era do lado de cá que estava o coreto. O outro lado era tão longe, que merecia a sempre recomendação da minha mãe: não passem para lá!
E eu imaginava todos os perigos da desobediência – cobras, aranhas venenosas, até leões.

segunda-feira, janeiro 23, 2006

Não sei!

Hoje estou triste.
Estou vazia.
Que posso dizer a uma amiga que acabou de perder um filho, com 44 anos de idade?
Não sei!

sábado, janeiro 21, 2006

Estou a reflectir

Para todos um inspirado fim-de-semana!

quinta-feira, janeiro 19, 2006

Parabéns

Hoje é o dia do teu aniversário!
Como sei que o teu sonho é um Porsche, envio-te o sonho possível.
Continua a sonhar. Quando se tem a capacidade de sonhar, tem-se tudo na vida.
Um grande beijo da
Mãe

quarta-feira, janeiro 18, 2006

O Carro do Desastre

segunda-feira, janeiro 16, 2006

O segredo da felicidade?

Hoje, na Antena 1, no apontamento do Júlio Machado Vaz, ouvi uma frase que me acompanhou todo o dia.
Era, mais ou menos, assim: O segredo não está em corrermos atrás das borboletas, mas em cuidarmos do jardim para elas virem ter connosco.

domingo, janeiro 15, 2006

Histórias Lembradas - III

Segundo a minha avó me contou, um eclipse total do Sol escureceu o céu da Beira Baixa, no dia 28 de Maio do ano de 1900. Na altura, muito poucas, muito poucas mesmo, eram as pessoas daquela pequena aldeia, aconchegada à beira da Serra da Gardunha, com conhecimentos suficientes para apreciarem esse raro e espectacular fenómeno da natureza.
Assim, o privilégio de poderem observar algo novo e irrepetível nas suas vidas, foi completamente esmagado por um terror indizível.
O céu começou a escurecer. Foi escurecendo até ficar praticamente noite.
A temperatura começou a baixar. Foi baixando até ficar deveras baixa.
As pessoas, aos gritos de é o fim do mundo, é o fim do mundo, corriam alvoroçadas, para a Igreja.
As galinhas recolheram placidamente às suas capoeiras.

sábado, janeiro 14, 2006

Bom Fim-de-Semana!

Como resolvi ajudar a minha vizinha, administradora do condomínio, com toda a tralhoada necessária à respectiva Assembleia Geral, só me resta tempo para desejar a todos um bom fim-de-semana. Até que termine relatórios, mapas e quejandos!

quarta-feira, janeiro 11, 2006

Morri Metade

Faz hoje dezasseis anos que morri metade.
______

Nunca supus que isto que chamam morte
Tivesse qualquer espécie de sentido...
Cada um de nós, aqui aparecido,
Onde manda a lei certa e a falsa sorte,

Tem só uma demora de passagem
Entre um comboio e outro, entroncamento
Chamado o mundo, ou a vida, ou o momento;
Mas, seja como for, segue a viagem.

Passei, embora num comboio expresso
Seguisses, e adiante do em que vou;
No términus de tudo, ao fim lá estou
Nessa ida que afinal é um regresso.

Porque na enorme gare onde Deus manda
Grandes acolhimentos se darão
Por cada prolixo coração
Que com seu próprio ser vive em demanda.

Hoje, falho de ti, sou dois a sós.
Há almas pares, as que conheceram
Onde os seres são almas.

Como éramos só um, falando! Nós
Éramos como um diálogo numa alma.
Não sei se dormes [...] calma,
Sei que, falho de ti, estou um a sós.
[...]

(Fernando Pessoa)

Óleo sobre Tela





Adivinhem quem o pintou há quase cinquenta anos?

terça-feira, janeiro 10, 2006

Marimba de Moçambique





A minha marimba

sexta-feira, janeiro 06, 2006

Ofertas dos Reis Magos


Este sapatinho está cheio de ouro, incenso e mirra para cada um dos meus amigos

quarta-feira, janeiro 04, 2006

Histórias Lembradas - II

Durante uma das Grandes Guerras, não sei qual, o volfrâmio deu dinheiro a muita gente da Beira Baixa.
Na aldeia onde o meu Pai nasceu, mesmo na falda da Serra da Gardunha, existia um pobre habitante que, de um dia para o outro, se viu sem saber o que fazer a tanta riqueza.
Pensou, pensou e decidiu que, em primeiro lugar, iria construir uma bela casa, tal como a dos senhores ricos da terra. Afinal de contas ele também era rico! Em segundo lugar, passaria a comer, todos os dias, um ovo estrelado. Na altura, os ovos eram manjar de gente rica. E ele estava rico! Em terceiro lugar, viajaria até Lisboa, onde só as pessoas de dinheiro iam. E ele tinha dinheiro!
Julgo que gastou à tripa forra e que o dinheiro curta felicidade lhe trouxe, mas de Lisboa levou dois lindos bidés em louça pintada, um com flores azuis, outro cor-de-rosa, que, talvez por desconhecimento da sua utilidade, colocou à entrada da casa, a ladearem a porta, cumprindo a função de alegretes, com belas plantas ornamentais!

domingo, janeiro 01, 2006

"Receita de Ano Novo"

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens? passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Carlos Drummond de Andrade