domingo, dezembro 18, 2005

Histórias Lembradas

Vista do alto da Serra da Gardunha, a aldeia parece um papagaio, esquecido por quaisquer crianças gigantes, com o cordel serpenteando, serpenteando até desaparecer em chão espanhol. Aqui, Francisco, regedor, na segunda metade do século XIX, era pessoa inteligente, honesta, valente, respeitada por toda a população, com aquele temor reverencial típico da época. Até o Padre da freguesia não dava início à missa, sem a sua presença, ainda que, com a sua família, chegasse atrasado. Em dois genuflexórios, destacados à frente dos bancos corridos, ficavam, ele e a sua mulher Ana. Bom pai de doze filhos legítimos, considerando os padrões de então, dizia-se que, ilegítimos, tinha mais de doze, facto que nunca confirmou nem negou, sendo, no entanto, padrinho de todos eles. Alto, magro, de porte atlético, as suas pernas eram marcadamente arqueadas por forma a encaixarem bem no cavalo, que montava, desde o nascer ao pôr do sol, percorrendo as suas vastas propriedades. Fazia questão de não delegar em ninguém a gestão do seu património. Nesta função, o caseiro só o substituía, duas vezes por ano. Uma, no Verão, quando, com a família, ia de férias até às termas – Pedras Salgadas, Caldelas ou, ali mais perto, Monfortinho. Outra, no Inverno, quando, acompanhado por um criado, ambos a cavalo, vinha até Lisboa, ver uma peça de teatro, visitar as espanholas e, eventualmente, estabelecer qualquer formal e inútil contacto político. Inútil, porque da terra sabia ele mais do que ninguém. Sempre chamado para solucionar todas as contendas, e eram muitas as que surgiam, era notório o seu bom senso.
Mas eis que algo de sobrenatural acontece...
Um medo aparece na aldeia, aterrorizando toda a população. Durante semanas, mal a noite se instalava, o medo percorria as ruelas, coberto por um enorme lençol branco, empunhando uma luz amarela tremulezente e soltando horríveis berros. Havia quem afirmasse que as suas unhas eram enormes, retorcida e negras garras e que dos olhos, dos ouvidos, da boca e do nariz emanavam chamas sulfúreas. Dirigia-se à serra, onde permanecia sossegadamente até às onze horas da noite, repetindo então a mesma cena de apocalíptico horror.
O Padre, com os seus esconjuros, exorcismos e rezas, não conseguiu resolver a questão.
Chame-se o Senhor Regedor, chame-se o Senhor Regedor!
E Francisco, numa noite de lua cheia, pega na caçadeira e, depois de uma breve visita ao oratório da sua casa, dirige-se à serra.
No dia seguinte, proclama que o assunto tinha sido solucionado e que o medo não mais pisaria aquele povoado e não mais incomodaria as suas gentes.

Assim aconteceu!

Só a sua família mais próxima ficou a saber o que realmente se passou. Chegado à serra, vislumbra dois vultos. A uma certa distância, ordena que, de imediato, digam quem são ou que dispara a arma. Uma voz masculina, sumida e em pânico, pede que não o desgrace, que é o Aurélio, que está ali com a Maria, que tinha arquitectado aquele estratagema para poder namorar, já que as respectivas famílias não queriam aquela união.
Sob compromisso de honra, juraram que nada divulgariam.

O resto da história, esqueci-me ou nunca soube.

Só sei que o meu bisavô resolveu apadrinhar a causa e que os meus bisavós foram os padrinhos de casamento do Aurélio e da Maria.

7 Comentários:

Blogger Pitucha disse...

Ora aqui está um happy ending que poderia ter acabado mal...
Beijos

segunda-feira, dezembro 19, 2005 12:19:00 da tarde  
Blogger Carlota disse...

Muito bem escrita esta história!
Foi um prazer lê-la. Obrigada.

segunda-feira, dezembro 19, 2005 9:58:00 da tarde  
Blogger Laura Lara disse...

Pituxa e Carlota
Muitos beijinhos

segunda-feira, dezembro 19, 2005 10:24:00 da tarde  
Blogger Pitucha disse...

Mas que coisa! É PituCHa...
Já disse!
;-)

terça-feira, dezembro 20, 2005 7:54:00 da manhã  
Blogger Laura Lara disse...

Pitu+cha! Até parece que a tua bebida preferida é o chá!
Um xi

terça-feira, dezembro 20, 2005 10:02:00 da manhã  
Blogger perola&granito disse...

Feliz Natal!

terça-feira, dezembro 20, 2005 10:37:00 da tarde  
Blogger Mitsou disse...

Gostei muito da história.
Gosto sempre de ler-te, o tempo é que por vezes não colabora, amiga.

Beijinhos doces e um Feliz Natal!

quarta-feira, dezembro 21, 2005 8:26:00 da tarde  

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