sexta-feira, dezembro 09, 2005

Bioética ou Ética da Vida?

A cor dos olhos era azul. Azul luminoso, transparente. Transparente como a sua índole. Índole calma, bondosa, exigente em grau muito alto. Alto, esguio, sempre impecavelmente arranjado, irradiava simpatia. Simpatia tal que, pertencente a uma família onde existem tantos mal entendidos, onde uns não falam com outros, ele conseguia ser amigo de todos e todos amigos dele e estabelecer o único elo de ligação.
Dotado de uma inteligência viva, mas em nada exuberante, distinguia-se nas artes e na escrita. Possuía uma cultura geral bem acima da média, apesar de ter apenas o sétimo ano liceal, uma vez que, devido à morte do seu pai, decidiu responder ao convite de dois irmãos, indo ter com eles a Moçambique, onde, nos Caminhos de Ferro da Beira, permaneceu até à aposentação.
O seu espírito rigoroso tornou-o grande coleccionador de moedas e talvez o maior de fichas, em Portugal.
O seus olhos azuis ocupavam-no tanto na escrita como na catalogação das suas peças de colecção. De lupa em punho, lá ia registando, em resmas de papel pautado, dados, dados e dados.
Um dia, o azul transparente dos seus olhos foi ficando, cada vez, menos transparente e passando por manchas, por vultos, acabou por atingir o escuro quase total.
Deixou de coleccionar, continuou a escrever.

Basta: Isto é demais.
Depois de tanto sofrer,
Digo que não posso mais
E que só me resta morrer
.

foi a última quadra, escrita em Dezembro de 2003.

A 26 de Dezembro, decidiu deixar de viver. Bebendo apenas um golo de água e um pequenino naco de pão, por dia, calculou que morreria naturalmente, a 14 de Fevereiro. Nascera nesta data em 1916. Errou por pouco.

Faleceu no dia 18 de Fevereiro de 2004. Curiosamente a data de nascimento do meu Pai e seu irmão mais velho.

6 Comentários:

Blogger luis manuel disse...

Ética de vida.
Sendo o olhar transparente, e azul, a calma bondosa, irradia simpatia.
A ligação á vida era forte.
Triste o desvanecimento do olhar, até á escuridão.
Bioética.
Valorizando a vida, acho que ninguém quer verdadeiramente morrer. Impedir o desespero de sofrer,acredito.

Um abraço

sábado, dezembro 10, 2005 12:11:00 da manhã  
Blogger Madalena disse...

Triste. Lindo. Não sei o que dizer. Quanto mais lindas são as vidas, quanto mais dotadas são as pessoas... Resta-nos a memória, Laura.
Beijinho grande!

sábado, dezembro 10, 2005 1:22:00 da manhã  
Blogger António disse...

Linda descrição de uma bonita pessoa mas que, ao mesmo tempo, nos deixa uma sensação de compaixão para com os velhos que todos (os sobreviventes) um dia seremos.
Eu já não estou muito longe!
Mas ainda tenho uma enorme vontade de viver!
Felizmente!

Beijinhos

sábado, dezembro 10, 2005 9:07:00 da manhã  
Blogger Mitsou disse...

Linda homenagem, amiga.
Apagou-se-lhe a luz desses lindos olhos azuis. Ficou a memória e o amor que soube transmitir.

Um beijo doce como tu (e saudações laurentinas :)

segunda-feira, dezembro 12, 2005 1:49:00 da tarde  
Blogger espumante disse...

Atão????
No posts since the 9th?
:)
Beijinhos

quinta-feira, dezembro 15, 2005 9:43:00 da tarde  
Blogger Laura Lara disse...

Espumante
Nice to see you. I'll be back, I hope.
xxxxx

sexta-feira, dezembro 16, 2005 9:03:00 da manhã  

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