sexta-feira, dezembro 30, 2005

Feliz Ano Novo














E se, por magia, tudo fosse bom em 2006?

É o que desejo a todos!

quinta-feira, dezembro 29, 2005

Keukenhof

Esqueci-me de dizer: As fotografias são da autoria da Pitucha. O seu a seu dono.

Também em Keukenhof

Ainda em Keukenhof

Um Dia em Keukenhof

quarta-feira, dezembro 28, 2005

Respigos de África - XXIII

Quando o meu Pai chegou à Beira, Moçambique, ficou, durante algum tempo, a viver numa república, juntamente com meia dúzia de rapazes. Cada um tinha o seu quarto. Cada um tinha o seu criado. O resto era compartilhado por todos – refeições, casa de banho, sala de estar, quintal...
O quarto do meu Pai era contíguo à cozinha, de onde, diariamente, provinha um estranho ruído não identificável... grrr... grrr... grrr..., que o acordava, intrigado.
Até que, uma vez, a curiosidade fê-lo levantar-se de mansinho, e, pé ante pé, foi espreitar.
Encontrou o seguinte quadro: O criado dum dos seus companheiros, sentado num banco de cozinha, com um pé apoiado sobre o joelho, encaixava, entre os dois dedos maiores, uma placa dentária e, vigorosamente, esfregava, com a devida escova abundantemente barrada de creme dentífrico, os dentes postiços do patrão.

terça-feira, dezembro 27, 2005

Respigos de África - XXII

O nosso cão adoeceu com esgana.
Presumo que na altura em que isto aconteceu – anos trinta - não houvesse vacina.
O que sei é que apanhou a doença e tratamento conhecido não havia.
Perante o seu sofrimento, o meu Pai, desolado, pediu ao seu criado Juza que o abatesse, uma vez que lhe faltava coragem para, ele próprio, o matar.
O Juza pediu então: - Patrão, deixe nosso levar cão na terra, no cuxe-cuxe, que cão volta bom.
Se bem que um tanto incrédulo, resolveu permitir.
Duas semanas depois, o cão regressou totalmente são.
Viveu ainda um par de anos e morreu de velhice.
Como foi tratado? O que o curou?
Cuxe-cuxe nunca revelava os seus segredos.

quinta-feira, dezembro 22, 2005

É Natal!

Poema de Natal

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

Vinicius de Moraes

Para todos os amigos que me visitarem:
Bom Natal! Boas Festas, Óptimo Ano Novo!

domingo, dezembro 18, 2005

Histórias Lembradas

Vista do alto da Serra da Gardunha, a aldeia parece um papagaio, esquecido por quaisquer crianças gigantes, com o cordel serpenteando, serpenteando até desaparecer em chão espanhol. Aqui, Francisco, regedor, na segunda metade do século XIX, era pessoa inteligente, honesta, valente, respeitada por toda a população, com aquele temor reverencial típico da época. Até o Padre da freguesia não dava início à missa, sem a sua presença, ainda que, com a sua família, chegasse atrasado. Em dois genuflexórios, destacados à frente dos bancos corridos, ficavam, ele e a sua mulher Ana. Bom pai de doze filhos legítimos, considerando os padrões de então, dizia-se que, ilegítimos, tinha mais de doze, facto que nunca confirmou nem negou, sendo, no entanto, padrinho de todos eles. Alto, magro, de porte atlético, as suas pernas eram marcadamente arqueadas por forma a encaixarem bem no cavalo, que montava, desde o nascer ao pôr do sol, percorrendo as suas vastas propriedades. Fazia questão de não delegar em ninguém a gestão do seu património. Nesta função, o caseiro só o substituía, duas vezes por ano. Uma, no Verão, quando, com a família, ia de férias até às termas – Pedras Salgadas, Caldelas ou, ali mais perto, Monfortinho. Outra, no Inverno, quando, acompanhado por um criado, ambos a cavalo, vinha até Lisboa, ver uma peça de teatro, visitar as espanholas e, eventualmente, estabelecer qualquer formal e inútil contacto político. Inútil, porque da terra sabia ele mais do que ninguém. Sempre chamado para solucionar todas as contendas, e eram muitas as que surgiam, era notório o seu bom senso.
Mas eis que algo de sobrenatural acontece...
Um medo aparece na aldeia, aterrorizando toda a população. Durante semanas, mal a noite se instalava, o medo percorria as ruelas, coberto por um enorme lençol branco, empunhando uma luz amarela tremulezente e soltando horríveis berros. Havia quem afirmasse que as suas unhas eram enormes, retorcida e negras garras e que dos olhos, dos ouvidos, da boca e do nariz emanavam chamas sulfúreas. Dirigia-se à serra, onde permanecia sossegadamente até às onze horas da noite, repetindo então a mesma cena de apocalíptico horror.
O Padre, com os seus esconjuros, exorcismos e rezas, não conseguiu resolver a questão.
Chame-se o Senhor Regedor, chame-se o Senhor Regedor!
E Francisco, numa noite de lua cheia, pega na caçadeira e, depois de uma breve visita ao oratório da sua casa, dirige-se à serra.
No dia seguinte, proclama que o assunto tinha sido solucionado e que o medo não mais pisaria aquele povoado e não mais incomodaria as suas gentes.

Assim aconteceu!

Só a sua família mais próxima ficou a saber o que realmente se passou. Chegado à serra, vislumbra dois vultos. A uma certa distância, ordena que, de imediato, digam quem são ou que dispara a arma. Uma voz masculina, sumida e em pânico, pede que não o desgrace, que é o Aurélio, que está ali com a Maria, que tinha arquitectado aquele estratagema para poder namorar, já que as respectivas famílias não queriam aquela união.
Sob compromisso de honra, juraram que nada divulgariam.

O resto da história, esqueci-me ou nunca soube.

Só sei que o meu bisavô resolveu apadrinhar a causa e que os meus bisavós foram os padrinhos de casamento do Aurélio e da Maria.

sexta-feira, dezembro 09, 2005

Bioética ou Ética da Vida?

A cor dos olhos era azul. Azul luminoso, transparente. Transparente como a sua índole. Índole calma, bondosa, exigente em grau muito alto. Alto, esguio, sempre impecavelmente arranjado, irradiava simpatia. Simpatia tal que, pertencente a uma família onde existem tantos mal entendidos, onde uns não falam com outros, ele conseguia ser amigo de todos e todos amigos dele e estabelecer o único elo de ligação.
Dotado de uma inteligência viva, mas em nada exuberante, distinguia-se nas artes e na escrita. Possuía uma cultura geral bem acima da média, apesar de ter apenas o sétimo ano liceal, uma vez que, devido à morte do seu pai, decidiu responder ao convite de dois irmãos, indo ter com eles a Moçambique, onde, nos Caminhos de Ferro da Beira, permaneceu até à aposentação.
O seu espírito rigoroso tornou-o grande coleccionador de moedas e talvez o maior de fichas, em Portugal.
O seus olhos azuis ocupavam-no tanto na escrita como na catalogação das suas peças de colecção. De lupa em punho, lá ia registando, em resmas de papel pautado, dados, dados e dados.
Um dia, o azul transparente dos seus olhos foi ficando, cada vez, menos transparente e passando por manchas, por vultos, acabou por atingir o escuro quase total.
Deixou de coleccionar, continuou a escrever.

Basta: Isto é demais.
Depois de tanto sofrer,
Digo que não posso mais
E que só me resta morrer
.

foi a última quadra, escrita em Dezembro de 2003.

A 26 de Dezembro, decidiu deixar de viver. Bebendo apenas um golo de água e um pequenino naco de pão, por dia, calculou que morreria naturalmente, a 14 de Fevereiro. Nascera nesta data em 1916. Errou por pouco.

Faleceu no dia 18 de Fevereiro de 2004. Curiosamente a data de nascimento do meu Pai e seu irmão mais velho.

quinta-feira, dezembro 08, 2005

Quase Pesadelo

Hoje dormi mal, sonhei muito, tanto que me levantei mais cansada do que quando me deitei. Há sonhos que cansam. Sonhos cheios de actividade, imagens e pensamentos. Sonhos que atravessam toda a nossa vida.
E, sendo feriado, dormi mais, levantei-me mais tarde, sonhei mais e tive mais tempo para me cansar.
Vi-me no colégio. Quando uma professora faltava, a mestra de classe dava-nos um trabalho alternativo. Num dia da minha quarta classe, a tarefa foi decorar, em cinquenta e cinco minutos, um poema que ela escreveu no quadro. Decorei-o e acho que é, mais ou menos, assim:

Dentre os sóis de todo o mundo,
O sol mais lindo e ideal,
O mais forte e mais fecundo
È o Sol de Portugal.

Deus disse ao Sol:
- Eu te inundo de beleza sem igual,
Para iluminares Portugal
Melhor que o resto do mundo.

O Sol, ao ouvir Nosso Senhor,
Pôs-se lindo, fez-se rubro, respondendo com ardor:
- Farei a vossa vontade que é tão bela e caprichosa
Terá imensa claridade a pátria linda e ditosa.

Sua palavra cumpriu o astro-rei colossal e
Dentro de Portugal mais formoso então surgiu:
Sol brilhante, sol fecundo, de beleza sem igual,
És o mais belo do mundo, lindo Sol de Portugal.

Partilho, com quem me ler, este quase pesadelo.
Tenho, ou não, razão para não estar nos meus melhores dias?

quinta-feira, dezembro 01, 2005

Gargarejar com Benzovaque

A leitura das Gargalhadas.com, no blogue da Bárbara (Cokas) lembrou-me esta pequena história.
O ano era, se não estou em erro, o de 1957. O ano da epidemia de gripe asiática. Até as escolas fecharam e na minha casa estávamos todos doentes, com excepção do meu Pai.
Um dia, pela manhã, o meu Pai levantou-se com dor de garganta e foi, consternado, que disse à minha Mãe que achava que estava também a ficar com gripe. A minha Mãe, a arder em febre – foi a mais atacada pela doença – disse-lhe vagamente que, no balcão da cozinha, num frasco de sais de frutos Eno, estava um preparado que o médico mandara aviar, na farmácia, para gargarejar. Que dissolvesse duas colheres de sopa num copo de água e que gargarejassse. O meu Pai assim fez. Antes de sair de casa, comentou com a minha Mãe que o preparado tinha um gosto bastante estranho e que parecia que se evaporava quando tocava os lábios. Só meia hora ou mais depois é que a minha Mãe achou estranho o comentário do meu Pai. O produto era à base de mentol e eucalipto e tinha um gosto agradável. Assim, muito a custo, resolveu ir à cozinha, onde encontrou o copo e o frasco ao lado. Efectivamente um outro frasco de sais de frutos Eno, que estava, não no balcão da cozinha, mas da marquise, e que continha benzovaque, uma benzina especial que, na altura, se usava para tirar as nódoas da roupa.
O meu Pai nunca apanhou a gripe asiática.