sábado, novembro 26, 2005

Respigos de África - XXI

A minha marimba

Por baixo da casa, entre os pilares, à hora da sesta, o Sande, cozinheiro, o Maqui, mainato, o Flanela, moleque, e o jardineiro, cujo nome esqueci, procuravam descansar na sombra e fresco possíveis, estirados nas esteiras. E, para eles, descansar sem música não era descansar. Cada um, com a sua marimba, preenchia o tempo e o espaço com músicas que me encantavam e que, na minha imaginação, me acompanham até hoje.
Diz-se que o tempo esbate os contornos, altera as cores, dilui as formas, mas, neste meu caso, e, não obstante ter deixado Moçambique e ter vindo para a Metrópole ainda muito nova, os muitos anos decorridos serviram para realçar o sabor e incrementar a beleza deste quadro musical que guardo na memória.
E durante anos desejei ter uma marimba igual às que se dedilhavam na nossa casa da Beira.
Mas não as havia à venda, ninguém as vendia.
Instrumento musical habilmente feito à mão, pelos próprios, que consistia num bloco inteiriço de madeira em forma mais ou menos rectangular, ocado com um rudimentar canivete, coberto com lata até meio, onde se encontram duas carreiras de seis caricas (doze no total) de cerveja Manica, clara e preta, pepsi-cola e fanta laranja, encimadas por duas filas de, respectivamente, treze e catorze lâminas de metal, colocadas a várias alturas.
De quando em quando, lá ia pedindo ao meu Tio que tentasse arranjar-me um destes instrumentos, mas sempre sem êxito.
Chegou o dia de o meu Tio regressar a Portugal. Vinte e tal anos depois de eu ter saído da Beira.
Aquando das despedidas – sim o Sande, o Maqui, o Flanela e o jardineiro, cujo nome esqueci, nunca perderam o nosso contacto porque nunca deixaram de periodicamente procurar a minha família para saberem notícias nossas – o meu Tio relembrou o meu antigo desejo de ter uma marimba.
No cais da Beira, na altura do embarque, lá apareceram a dar o último adeus e a entregar um embrulho para a menina Laurinha. E com a voz, entrecortada pela emoção, um aviso: diga à menina que a marimba não está afinada...
Deles, com muita pena, nunca mais tive notícias.
A marimba ocupa lugar de destaque na minha sala. Continua não afinada.

quinta-feira, novembro 24, 2005

Otária, Ota

Sinto-me mesmo otária.
Depois de ouvir tantos sábios debitarem sobre a Ota, e antes que me acometa alguma otalgia, desisto de saber o melhor local para o novo aeroporto.

Ota – s.m. Gír. Provinciano, labrego, palerma. Indivíduo azado para o furto pelo “conto do vigário”.
Ota! – interj. bras., que designa admiração; o m. q. Upa! ou Eta!

quarta-feira, novembro 23, 2005

Acreditam?

Mais uma saída organizada pelo Centro Social Paroquial de Olivais-Sul para um grupo de trinta pessoas.
Desta vez a Cascais, à Casa de Santa Maria (um dos primeiros projectos desenhados pelo Arquitecto Raul Lino) e ao Museu Biblioteca Conde de Castro Guimarães.
A primeira visita foi muito bem guiada e correu a contento de todos.
Para a segunda visita, chegámos ao Museu Castro Guimarães perto das dezasseis horas e trinta minutos e aqui começou a cena que vou contar.
Uma criatura, nitidamente mal disposta, talvez pelo facto de estarmos a incomodá-la, afirma, carregada de azedume, que não tinha conhecimento de nada e que àquela hora era impossível guiar a visita. De resto, afirma ainda, cada vez mais enrubescida e espumando de raiva, o percurso dura, pelo menos uma hora e meia e o museu fecha às cinco horas, restando, portanto, apenas um pouco mais de trinta minutos. Muito educadamente, lá fomos dizendo que o programa tinha sido combinado em simultâneo com a Casa de Raul Lino e que lá não tinha havido problema. Tudo estava marcado e estavam à nossa espera. Perante esta tímida afirmação, a criatura, já enraivecida, consegue ainda requintar e decide dizer que ia perguntar ao conservador, já que não queria vir a ter problemas. No regresso afirma que a visita vai ser feita, que não tem tempo para falar, que não responde a perguntas e que temos de andar depressa. À frente do grupo, indica o caminho a grande velocidade. Na subida para o primeiro andar lembra que há trinta e um degraus pela frente, o que pode ser muito para pessoas velhas, mas cada um que decida se quer ir, ou não. Na descida, insiste que os degraus são estreitos e perigosos para pessoas idosas. A uma pergunta, mesmo assim corajosamente colocada, responde que uma colcha é japonesa e outra indo-portuguesa. E termina a visita.
Acreditam? É. Aconteceu ontem!

sábado, novembro 12, 2005

"África Selvagem"

No primeiro Sábado de cada mês há, na Figueira da Foz, uma feira de velharias. Quando acontece lá estar, nunca deixo de ir bisbilhotar aquele mundo que, não sei por que razão, me fascina. Observo todas aquelas velharias e espanta-me ver os preços que certas peças atingem – algumas iguais existiram em casa dos meus pais ou dos meus avós e não mereceram como destino mais do que o caixote do lixo, como, por exemplo, louça de Sacavém, mas partida. Nem me lembro de ter lá comprado nada, com excepção de uma pequena chave bem ferrugenta, a pedido de uma amiga que tinha mandado restaurar um móvel antigo e que dela precisava.

E com excepção também de livros. Aparecem alguns alfarrabistas com obras bem interessantes.
A razão deste escrito é, na realidade, a aquisição de um livro de Maria Archer, intitulado “África Selvagem”. O livro, editado pela Guimarães & C.ª - Editores, s/d [1935], tem 253 páginas, das quais o dono anterior apenas cortou 88 páginas (há tanto tempo que não pegava no corta-papel para cortar as restantes!).
Segundo a própria autora: “São paradigmas do folclore africano os contos que agrupei neste livro, muito vulgarizados entre os aborígenes de Angola, e que coligi em Luanda” (p. 9).
Muito curioso achei o capítulo “Provérbios” (p. 161), de que transcrevo alguns:
LUANDA
- O pau que mergulham na água não perde toda a casca ( a água não tira todas as nódoas);
- Notícia que vem de longe gasta-se pelo caminho (as notícias deformam-se com o tempo e as pessoas que as transmitem);
- O macaco não repara no seu rabo (ninguém vê os seus defeitos);
- O homem mostra a cara e esconde o coração (as aparências iludem);
HUÍLA
- Comam, alegrem-se, dancem. A vida é só isto! (materialismo);
LUNDA
- Onde está o leão não dá à luz a cabra (os poderosos oprimem os pequenos);
- A folha caída da árvore não torna a prender-se nela (a amizade que se quebra não mais se liga);
CABINDA
- A água amolece a terra, apodrece o pau, não faz mal à pedra (os fortes resistem).

segunda-feira, novembro 07, 2005

Fazer de Conta

Já que isto é tudo virtual, por que não fazermos uma viagem virtual a Moçambique? Combinamos um almoço faz de conta, que pode ser em LM, por exemplo.
Só não será virtual o relato da viagem e do almoço.
Com mais ou menos fantasia e imaginação, todos terão de o fazer.
Quem quer aderir?

sexta-feira, novembro 04, 2005

Respigos de África - XX

Na nossa casa da Beira não tínhamos água canalizada. Enterrada no chão, havia uma cisterna que, através de caleiras, armazenava a água da chuva. Quando começava a chover deixava-se que as primeiras águas lavassem bem as ditas caleiras e só depois as cisternas eram abertas e assim permaneciam toda a época de chuva. Essa era a água que consumíamos e que nunca faltava durante todo o ano. Como o meu Pai achava que a água da chuva era pobre, adquiria carris velhos e ferrugentos, quando faziam as substituições das linhas férreas, que introduzia na cisterna para lhe adicionar ferro. Através duma bomba manual (que eu adorava accionar, embora ficasse encarrapitada lá no alto porque não tinha peso suficiente para descer), a água era levada para uns depósitos colocados no telhado e daí abastecia a casa. A água destinada a ser bebida passava previamente por um filtro. Tinha a forma dum cilindro feito em cerâmica cor de ocre, ou terracota, não sei, e estava pousado numa banqueta, na cozinha. Tinha uma torneira em cobre sempre impecavelmente brilhante. Sei que era de fabrico inglês e não me importaria nada de o ter hoje a enfeitar a minha cozinha. Era uma peça indubitavelmente bonita.

quarta-feira, novembro 02, 2005

Quando a Chuva se transforma em Sol

Choviam, o que já nem os ingleses dizem, gatos e cães. Na realidade chovia a potes, a cântaros, torrencialmente ou, como afirmam os brasileiros, choviam canivetes. Qualquer coisa serve para qualificar a queda de água na manhã de Domingo, dia 30 de Outubro.
E a distância do almoço era de duzentos quilómetros.
Desistir, nem pensar.
Descrever o almoço, não vou fazê-lo pois já foi devidamente exarado em acta e magnificamente relatado por ilustres cronistas.
Quero apenas deixar registado, pedindo desculpa pelo atraso, como adorei conhecer-vos.
E quero ainda dizer que o ambiente tão simpático que se criou fez com que a chuva se transformasse em sol!