quarta-feira, outubro 12, 2005

Respigos de África - XVII

Eu não sei se nasci portuguesa de 2.ª classe. Digo isto porque o Acto Colonial, diploma publicado em 1930, da autoria de Salazar, ao tempo ministro interino das Colónias, determinava que os portugueses nascidos nas colónias eram portugueses de 2.ª classe, com menos regalias que os nascidos na Metrópole, esses, sim, portugueses de 1.ª classe. Não sei se esta lei ainda estava em vigor no ano em que nasci, por isso não sei em que categoria me incluo.
Esta introdução vem a propósito do que vou contar. Devo ressalvar que não li o Acto Colonial, não verifiquei a veracidade do que afirmo, apenas transmito o que, bem ou mal, me foi veiculado.
Os meus pais, que me deram a conhecer este episódio, eram amigos dum casal residente na Beira, Moçambique. O seu primeiro filho nasceu na Beira – português de 2.ª classe, portanto. O segundo filho nasceu na Metrópole, durante a licença graciosa dos pais, sendo português de 1.ª classe.
Estes dois irmãos tiveram um percurso de vida muito semelhante. Eram ambos funcionários públicos, trabalhavam no mesmo serviço e tinham a mesma categoria profissional. Só que o nascido na Beira tinha um ordenado inferior, tinha menos regalias, e, quando se reformou, a sua pensão era bem mais baixa do que a do irmão que, por mero acaso, nasceu num solo onde nunca viveu...

8 Comentários:

Blogger Pitucha disse...

Extraordinário! Mas enfim, em certas situações ainda é o que se passa com as mulheres no mercado detrabalho, não?
Beijos

P.S. Também já cá estão as letras? Como eu me sinto ...loura!

Beijos

quarta-feira, outubro 12, 2005 4:25:00 da tarde  
Blogger Madalena disse...

Beijinho de alguém que também é de segunda... Eu sempre gostei desta coisa de ser de segunda, sabes? Como nasci no mato, numa terra que a Pitucha me descreveu o que nunca ninguém antes tinha feito para além do meu pai, devo ser de terceira ou quarta...
Mil beijinhos

quarta-feira, outubro 12, 2005 8:07:00 da tarde  
Blogger t-shelf disse...

Nunca tinha percebido que isto de ser de segunda não era um mito e que tinha consequências desagradáveis. Ela há coisas! bjs

quinta-feira, outubro 13, 2005 11:08:00 da manhã  
Blogger JPF disse...

E se Bruxelas se lembra de criar a noção de "europeu de segunda" para aplicar às periferias ? Será que então um "português de segunda" se transforma num "europeu de terceira" ?

quinta-feira, outubro 13, 2005 4:37:00 da tarde  
Blogger Laura Lara disse...

Ti
É verdade. E se leres o comentário do jpf verás que as coisas ainda podem piorar.
Beijinhos

quinta-feira, outubro 13, 2005 6:14:00 da tarde  
Blogger Laura Lara disse...

Jpf
Bem pensado, sim senhor. Vamos perguntar à Pitucha?
Beijos

quinta-feira, outubro 13, 2005 6:15:00 da tarde  
Blogger Pitucha disse...

Pitucha a responder da capital europeia! Estamos demasiado preocupados em assegurar que os cidadãos do mundo de 14° não entram aqui por lado nenhum, muito mesmo por Ceuta e Melilla...

sexta-feira, outubro 14, 2005 6:25:00 da manhã  
Blogger Luh disse...

O meu marido que nasceu na beira em 1939 tinha na certidão que era português de 2ª. classe...

terça-feira, janeiro 03, 2006 1:19:00 da tarde  

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