terça-feira, outubro 25, 2005

Respigos de África - XIX

Os meus brinquedos

Durante a guerra, não havia, na Beira, brinquedos à venda.
Na realidade, a minha noção de guerra era de que se tratava de algo muito aborrecido que não me deixava falar à mesa, durante o almoço, sob pena de ficar de castigo, porque o meu Pai estava sempre a ouvir as notícias, com a orelha encostada ao rádio, e ninguém podia fazer barulho (soube mais tarde que ouvia o Fernando Pessa, na BBC, e que a qualidade de audição era má).
Mas, voltando aos brinquedos, os navios, por razões logísticas, carregavam, nesse período de tempo, apenas bens de primeira necessidade – recordo-me duma manteiga dos Açores, embalada em latas, com um sabor delicioso, que ainda hoje me faz crescer água na boca – que obviamente os excluía. E foi assim que os meus brinquedos eram produtos da terra. Aldeias indígenas feitas em pau preto, com inúmeras peças: palhotas, coqueiros, instrumentos de caça, de pesca, utensílios domésticos (panelas, pratos, copos), instrumentos musicais (tambores, marimbas), canoas e sei lá que mais. Tive várias destas aldeias e dei-me conta, já adulta, de que não tinha nenhuma completa. Consegui-a apenas na Expo 98, quase por especial favor, tendo dado por ela uma pequena fortuna; mais do que, anos antes, tinha pago, em Lourenço Marques, por uma em marfim. Caixas e caixinhas em pau preto. Manipanços e outras figuras, também na mesma madeira. Pérolas verdadeiras, sim, pérolas verdadeiras, que, no mercado, se vendiam em tubos de vidro, ao preço da chuva, que substituíam os berlindes. Ah, tive também uma bicicleta, essa comprada em leilão, que passou a ser pequena para a sua primeira dona, a Constança. Bicicleta que eu adorava porque os pneus não precisavam de ar, eram maciços. E com a minha avó “torta” (madrasta da minha mãe), que vivia connosco e que eu adorava, jogava às damas, num velho tabuleiro, e ela deixava que eu ufanamente ganhasse. Estes foram, portanto, os meus primeiros brinquedos.
Entretanto a guerra terminou e assim como por encanto, de um dia para o outro, apareceu, no meu quarto, uma pilha de caixas de cartão com os mais variados brinquedos – jogos da glória, da pulga, da pesca, puzzles em cubos e sei lá que mais. Contudo, nenhuma boneca. Uma grande onda de tristeza maculou a minha alegria.
Um dia, numa montra, ela lá estava muito direitinha, com um lindo vestido de flores, ostentando, tal como eu, duas grossas tranças com dois grandes laçarotes iguais ao tecido do vestido. Os braços esticados para a frente pediam-me para eu a levar. Nem a minha Mãe nem o meu Pai lhe fizeram a vontade. Coube-me arquitectar um plano. No dia seguinte, fugi do colégio e foi encostada à montra, com os olhos fixos na boneca, com quem imaginei uma longa conversa, que o meu Tio me encontrou, quando já meia cidade me procurava. A ousadia valeu-me um bom e merecido castigo, mas, a partir desse dia, passei a partilhar a minha cama com a Carolina, de grandes olhos azuis, em bela cabeça de porcelana, lindos cabelos louros penteados em duas tranças parecidas com as minhas!

domingo, outubro 23, 2005

Festival do Amor

Se eu tivesse podido, teria ido a Beja ao Festival do Amor. E traria para todos uma poção de alegria e felicidade. É impressão minha ou anda muita gente cabisbaixa?

quarta-feira, outubro 19, 2005

Dois Relógios

Na sala tenho um relógio de caixa alta, de pêndulo e pesos. Dá as horas, as meias e os quartos e toca música.
No escritório tenho um relógio de parede, também de pêndulo e pesos que dá as horas e as meias e não toca música.
Estiveram ambos avariados algum tempo. Não conseguia encontrar quem os consertasse até que à minha mãe alguém indicou o Sr. Lourenço, pessoa competente, que ainda domina esta arte. E os relógios, após meses de descanso, recomeçaram finalmente o seu tique-taque contínuo, que eu gosto de ouvir.
Mas um atrasava-se e o outro adiantava-se. Na base do pêndulo existe uma pequena agulha (não sei se é assim que se chama) que fazemos rodar até que fique certo. E entreguei-me a essa tarefa. Todas as semanas, quando puxava os pesos, lá rodava, num para a esquerda, noutro para a direita, até que, ontem, finalmente consegui acertá-los.
E aqui começa o busílis da questão.
Dez horas da noite.
A televisão ligada e a minha filha a querer ouvir o que estava a ser debitado.
Os dois relógios, rigorosamente em simultâneo, começaram a dar horas.
- Mãe, pelo amor de Deus, os dois ao mesmo tempo, não!
- E agora? O que é que eu faço?

sábado, outubro 15, 2005

Respigos de África - XVIII

Beira, anos quarenta

Cada criado tinha direito, por dia, a um quilo de fuba (farinha de milho) e a uma determinada quantia em dinheiro para adquirirem carne, camarão ou peixe que, depois de secarem ao sol, confeccionavam em caril. No chão do quintal, sentavam-se todos à volta da panela em ferro, com a fuba, e dum prato em alumínio, com o caril. Com as mãos faziam uma bola de fuba que molhavam no caril e comiam. Acreditem que era divinal já que, sempre que conseguia escapar, ia, às escondidas, comer um bocado, não obstante os inúmeros raspanetes da minha mãe, que achava a comida imprópria para crianças e quiçá para adultos também. Não me lembro de alguma vez ter ficado indisposta. Se tal tivesse acontecido, decerto não me lembraria, com tanta saudade, de tão bom repasto.

Sempre que aparecia uma boca a mais para comer, como, por exemplo, o criado dos meus tios, quando estes se deslocavam do Búzi à Beira, lá estava o cozinheiro a lembrar que precisava de mais um quilo de fuba e de mais dinheiro, por cada dia que lá passasse. No entanto, se algum dos criados ia à terra, a comida nunca sobrava. Desaparecia como por encanto.
Ficaria por conta da que eu comia?

quarta-feira, outubro 12, 2005

Gramática Moderna

Hoje, da minha volta usual aos livros da Bertrand, no Centro Comercial dos Olivais, não trouxe nenhum livro, mas a vontade de escrever este delicioso diálogo, entre a empregada e um rapaz, dos seus 12 anos.
- Tem a última gramática moderna da língua portuguesa?
- Tenho esta (e mostrou um exemplar que ostentava um título semelhante), publicada há uns dois anos;
- Não, essa já tenho, mas há outra mais moderna, publicada agora;
- Então ainda não recebi...
E eu a pensar que estava actualizada com a gramática do Celso Cunha e do Lindley Cintra, adquirida há quase vinte anos!
O que é que teria mudado na nossa língua, desde então?
Sim, sei que as palavras agudas, graves e esdrúxulas passaram, numa altura, a ser oxítonas, paroxítonas e proparoxítonas e, entretanto, voltaram a ser agudas, graves e esdrúxulas. E não quero saber mais nada. Desisto!
Mas, pensando bem... ainda vou espreitar para ver se encontro lá palavras modernas como: interviu, interviram, acórdos, bué da, priviligiar, prontoje, há em vez de à e à em vez de há, o verbo haver no plural em frases antes só admissível no singular e tantas outras e darei, então, a mão à palmatória.

Respigos de África - XVII

Eu não sei se nasci portuguesa de 2.ª classe. Digo isto porque o Acto Colonial, diploma publicado em 1930, da autoria de Salazar, ao tempo ministro interino das Colónias, determinava que os portugueses nascidos nas colónias eram portugueses de 2.ª classe, com menos regalias que os nascidos na Metrópole, esses, sim, portugueses de 1.ª classe. Não sei se esta lei ainda estava em vigor no ano em que nasci, por isso não sei em que categoria me incluo.
Esta introdução vem a propósito do que vou contar. Devo ressalvar que não li o Acto Colonial, não verifiquei a veracidade do que afirmo, apenas transmito o que, bem ou mal, me foi veiculado.
Os meus pais, que me deram a conhecer este episódio, eram amigos dum casal residente na Beira, Moçambique. O seu primeiro filho nasceu na Beira – português de 2.ª classe, portanto. O segundo filho nasceu na Metrópole, durante a licença graciosa dos pais, sendo português de 1.ª classe.
Estes dois irmãos tiveram um percurso de vida muito semelhante. Eram ambos funcionários públicos, trabalhavam no mesmo serviço e tinham a mesma categoria profissional. Só que o nascido na Beira tinha um ordenado inferior, tinha menos regalias, e, quando se reformou, a sua pensão era bem mais baixa do que a do irmão que, por mero acaso, nasceu num solo onde nunca viveu...

quinta-feira, outubro 06, 2005

Respigos de África - XVI

Espectáculo deslumbrante: milhares de pirilampos bruxuleando no jardim da nossa casa. Com a testa encostada à rede da janela, ali ficava minutos sem conta a admirar todo aquele fantástico pirilampejar. ­
- Vá, já para a cama, que são horas! Dizia o meu pai e colocava sobre o mosquiteiro uma dúzia daqueles insectos mágicos, que, no seu acende e apaga, me transportavam para um sono cheio de sonhos luminosos que me acompanham até hoje.

quarta-feira, outubro 05, 2005

O Incompetente / O Zero à Esquerda

Todos os dias ia visitar a casa do Incompetente, sempre na esperança do seu regresso. Ia revendo os seus “posts” e deliciando-me com a sua criatividade.
Ontem não encontrei a casa. Hoje continuo a não encontrá-la. Será que foi destruída? Será que está em obras e vai reaparecer ainda mais bonita?
Fico a aguardar.
Beijinhos, Incompetente, e até breve, espero.

segunda-feira, outubro 03, 2005

Respigos de África - XV

Quando o telegrama chegava à Beira a comunicar que o paquete havia largado do porto de Lourenço Marques, a notícia já era do domínio público. Os tambores, que percutiam sem cessar, revelavam-se, na primeira metade do século XX, um meio de comunicação mais rápido do que o telégrafo.