sexta-feira, setembro 23, 2005

Transformação e renovação?

O sol é grande, caem co’a calma as aves,
do tempo em tal sazão que sóe ser fria;
esta água, que d’alto cai, acordar-m’-ia
do sono não, mas de cuidados graves.

Ó cousas, todas vãs, todas mudaves,
qual é tal coração qu’em vós confia?
Passam os tempos, vai dia trás dia,
incertos muito mais que ao vento as naves.

Eu vira já aqui sombras, vira flores,
vi tantas águas, vi tanta verdura,
as aves todas cantavam d’amores.

Tudo é seco e mudo; e, de mestura,
também mudando-m’eu fiz doutras cores;
e tudo o mais renova: isto é sem cura!

Sá de Miranda

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