quinta-feira, setembro 15, 2005

Respigos de África - X

Morávamos na Ponta Gêa. A nossa casa tinha um razoável quintal e para lá do muro das traseiras era terreno pantanoso. Em garota muito gostava de ir lá meter os pés e chafurdar naquela terra avermelhada, apesar de saber que ia ouvir um raspanete da minha mãe. Foi com certeza aí que apanhei algumas matacanhas, que os criados sabiam tirar com mestria. Entalavam um alfinete numa caixa de fósforos, passavam-lhe lume para o desinfectar e, sem fazer doer (só cócegas), retiravam, intacto, um saquinho onde o bicho proliferava. Um dia estava a chafurdar mais uma vez e da terra emerge um enorme caranguejo. É verdade, há, em Moçambique, caranguejos do tamanho das maiores sapateiras cá da Metrópole. E assisti, então, a uma cena única, que nem nas melhores séries televisivas sobre vida selvagem tive oportunidade de rever. A minha cadela, de nome Fly, que sempre me acompanhava, talvez para me defender, começou uma renhida luta com o caranguejo. Tentava morder-lhe e ele defendia-se com as suas enormes tenazes. Assim continuaram por alguns minutos. Quem ganhou, não sei. O caranguejo, assim como emergiu decidiu imergir e a cadela ficou com o focinho cheio de sangue, mas com um ar vitorioso, eu acho. Nesse dia o raspanete foi a dobrar. Mas valeu a pena!

Nota: Esta história passou-se nos anos quarenta. Os terrenos pantanosos foram sendo secos, novas construções foram surgindo, e a casa que era nossa ocupa um local bem central na Beira de hoje. Ainda lá está, embora em péssimo estado de conservação.

1 Comentários:

Blogger Pitucha disse...

Está là sim senhora e é linda! Eu vi.
Beijos

sexta-feira, setembro 16, 2005 7:16:00 da manhã  

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