quinta-feira, setembro 01, 2005

Respigos de África - VIII

Os criados, em Moçambique, tinham que inventar razões para irem à terra, já que não tinham direito ao gozo de férias.

Segundo o meu pai me contava, o motivo que apresentavam era quase sempre a morte de algum familiar. Alguns “matavam” o pai e a mãe várias vezes, em anos sucessivos, conseguindo, assim, alguns dias de merecido descanso.
Mas, lá pelos anos 30 do século XX, aconteceu a seguinte história. Um dos criados, óptimo trabalhador, esteve anos seguidos sem nunca pedir para ir à terra. Até que, um dia, chegou-se ao pé do meu pai e disse:
- Patrão, nosso tem que ir na terra.
O meu pai lá lhe fez a pergunta da praxe: - Então porquê?
- Nosso vai ver filho que nasceu.
- Tiveste um filho?
- Sim, patrão?
- E quem é a mãe?
- A minha mulher.
- Tens mulher? Tens filhos?
- Sim patrão.
- Há quanto tempo não estás com a tua mulher?
- Xi patrão, há tantos anos que nem lembra mais.
- Não estás com a tua mulher há tanto tempo e tiveste um filho dela?
- Não patrão, é meu filho porque nasceu na minha palhota. E quem nasce na minha palhota é meu filho.

E lá teve autorização para ir à terra ver o novo filho.

4 Comentários:

Blogger Madalena disse...

Lindo, Laura! Eu sabia a parte de matarem a família várias vezes, mas esta é mailinda... Está no outro lado da morte. Está do lado da vida!
Beijinhos

quinta-feira, setembro 01, 2005 8:37:00 da tarde  
Blogger t-shelf disse...

LOL que imaginação tãaaao fértil... beijinhos

sexta-feira, setembro 02, 2005 12:07:00 da tarde  
Blogger Pitucha disse...

Beijos!
:-)

domingo, setembro 04, 2005 3:08:00 da tarde  
Blogger Bárbara Vale-Frias disse...

Que delícia de história!

E como é bom ler histórias da minha terra!

terça-feira, setembro 06, 2005 8:52:00 da tarde  

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