quarta-feira, setembro 14, 2005

In memoriam

Era uma Sexta-feira, dia 20 de Setembro.
- Queres ir ao cinema, logo à noite?
- Qual é o filme?
- “Relatório Confidencial”.
- Não, Pai. Já o vi e detestei.
Desliguei e fiquei a pensar que ia ficar sozinha em casa (a minha irmã estava na Granja, numa daquelas férias organizadas pela Mocidade Portuguesa), que tinha visto o filme em Uxbridge, numa altura em que ainda dominava mal o inglês e que essa podia ter sido uma razão para não ter gostado do Orson Wells.
- Pai, afinal sempre quero ir ver o filme.
- Pois, agora que já comprei os bilhetes é que decides, mas vou tentar trocar os dois bilhetes por três.
E foi assim que, nesse dia, fui ao cinema Império, com os meus pais.
Naquela altura os filmes não eram projectados de enfiada. Ainda havia dois intervalos - estendiam-se as pernas, fumava-se o cigarrito, exibiam-se fatiotas. Encontrei um amigo e passei os dois intervalos em amena conversa. Não reparei em nada de especial.
Mas aconteceu. Alguém jurou que havia de me conhecer.
O filme terminou, entrámos no carro, que estava estacionado na Alameda, e rumámos a casa. A minha Mãe é que conduzia porque o meu Pai, desde o acidente que já aqui, há algum tempo, relatei, nunca mais conseguiu pegar num automóvel. Esse alguém tomou nota da respectiva matrícula e, através dum amigo que trabalhava no ramo automóvel, conseguiu saber que estava registado em nome da minha Mãe, E.A., com residência no Bairro de S. Miguel. Encontrar o número do telefone foi fácil.
Sexta-feira, dia 27 de Setembro.
O telefone toca:
- Posso, por favor, falar com a menina A?
- Qual delas? Há duas.
- Com a que estava no cinema Império, na Sexta-feira passada.
- Eu mesma.
- Sabe, via-a, gostava de a conhecer, et caetera e outras coisas mais.
Enquanto tentava perceber se reconhecia voz, achando que seria uma brincadeira de algum amigo, tinha o meu Pai a chamar-me: despacha-te que vamos chegar atrasados ao dentista.
- Agora tenho que desligar. Desculpe.
Saí de imediato e quando regressei a nossa empregada perguntou-me:
- Com quem é que a menina esteve a falar ao telefone, antes de sair.
- Não sei, porquê?
Assim que saiu, o telefone tocou:
- Desculpe, como se chama?
- Custódia.
- Obrigado.
Uns dias depois, o meu Pai atende o telefone.
- Gostaria de falar com a Custódia A.
- !!!!???? Não há cá ninguém com esse nome.
E desligou, furioso, com as confusões que andávamos a arranjar. O nome da empregada com o nosso apelido! Que se passava? Tudo mudo. Ninguém explicou.
A partir daí, foi a Custódia, ainda hoje empregada da minha Mãe, a santa intermediária e desfazedora de todo o imbróglio.
Sem que eu soubesse, passou a informar o “alguém” de todos os meus passos.
Até que, no dia 18 de Fevereiro, apareceu num assalto de Carnaval, organizado por uma amiga minha, hoje ilustre escritora, através dum namorado duma outra amiga, amigo comum que, tal como o “alguém”, trabalhava no LNEC.
E foi assim que, num dia 14 de Setembro, começou uma nova etapa da minha vida, brutalmente interrompida por um AVC há dezasseis anos.
Mas a morte faz parte da vida e eu tento, todos os dias, manter bem viva a vida linda que vivi, ou não estaria aqui hoje a escrever isto.
Obrigada Zé e até um dia.

7 Comentários:

Blogger Madalena disse...

Um dia hei-de dar-te um abraço real por este texto. É fácil ser-se "grande" quando todos estão vivos e tudo corre bem. No meio da dificuldade, da dor, da adversidade é que se vê e se sente quem são os grandes como tu. Este post é também uma lição para todos nós! Até um dia destes quando o braço for ao vivo!

quarta-feira, setembro 14, 2005 9:46:00 da manhã  
Blogger Madalena disse...

digo abraço em vez de braço, na última linha!

quarta-feira, setembro 14, 2005 9:46:00 da manhã  
Anonymous Anónimo disse...

Dói tanto, mãe!
Beijos grandes

quarta-feira, setembro 14, 2005 11:27:00 da manhã  
Blogger JPF disse...

Continuo leitor e visitante assíduo do seu blog.
Um abraço

quinta-feira, setembro 15, 2005 1:50:00 da manhã  
Blogger lilla mig disse...

Que linda história, Laura! Aliás, como todas as outras... :)
Um grande beijinho

quinta-feira, setembro 15, 2005 1:53:00 da tarde  
Blogger t-shelf disse...

Obrigada a ti Lara por estas linhas tão generosas e ricas de vida.

quinta-feira, setembro 15, 2005 3:06:00 da tarde  
Blogger espumante disse...

Beijinho sentido e amigo para ti

quinta-feira, setembro 15, 2005 5:53:00 da tarde  

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