sexta-feira, setembro 30, 2005

Parabéns a um Amigo

Nos desencontros da vida perdemo-nos. Mas nunca me esqueci do teu aniversário. Mais um! Muitos parabéns!

Respigos de África - XIV

Os rabos das lagartixas
Perto de nossa casa, na Beira, havia a praia dos ingleses e a praia dos alemães. Mais longe havia a do Macúti, mas a essa tínhamos de ir de jeep. A praia dos ingleses, por ser a mais próxima, era a que frequentávamos. As barracas (era mesmo assim que se chamavam) eram uma espécie de chapéus de sol, com o pau em madeira e cobertos de colmo. Por vezes, éramos visitados por hipopótamos que desciam o rio Pungué, que vinha aí desaguar. De quando em quando também apareciam tubarões. Na altura ainda não havia redes e lembro-me de ter havido alguns acidentes, mas sempre por incúria e desrespeito. À beira mar, quando a onda descia, eram inúmeras as conchinhas (uma espécie de conquilhas, mas não sei ao certo) e inúmeros os pequenos caranguejos, que furavam a areia, talvez para se esconderem.
Para chegarmos à praia tínhamos de atravessar uma mata de acácias, com lindas flores vermelhas (completamente diferentes das acácias de cá), onde existiam centenas e centenas de lagartixas. Um dia, alguém me disse que se lhes cortasse o rabo, este crescia. Tinha, então, seis ou sete anos. Logo combinei com a minha irmã passarmos a cortar todos os que conseguíssemos. Foram muitas as lagartixas que, coitadas, ficaram sem rabo. Mas nunca cheguei a nenhuma conclusão. O que é certo é que jamais encontrei nenhuma sem rabo!

quarta-feira, setembro 28, 2005

O meu avô Artur

Lisboa, 1910
O meu avô materno tinha, em Paço de Arcos, um talho, de sociedade com um amigo. Um dia, por motivos que não sei, teve uma grande discussão com o sócio/amigo. Irritadíssimo, resolveu ir até ao Rossio, onde sempre se encontrava alguém com quem desabafar e apagar mágoas. E encontrou mesmo o Manuel, que seria responsável por uma imensa reviravolta no seu futuro. Foram até ao café, conversaram e, às tantas, o amigo perguntou-lhe:
- Artur, tu não andas também no negócio das carnes? Consegui uma carta de chamada para ir para Moçambique, mas a minha vida mudou e já não estou interessado. Não conheces ninguém que queira ir?
- Conheço.
- Quem?
- Eu!

Beira, 1910
E foi assim que o meu avô Artur partiu para a Beira (na altura, pouco mais do que uma rua com uma dúzia de casas de madeira e zinco), para chefiar o matadouro e ficar até morrer.

O xicuembo de África impregnou-o, assim como a todos os seus descendentes

Respigos de África - XIII

Beira, anos quarenta
Com o pau da vassoura e esticando o corpo, para ficar o mais afastado possível, o nosso moleque tentava desamarrar uma trouxa bem atada. Perante tão insólita situação, a minha mãe perguntou-lhe o que estava a acontecer.
- É trouxa que mulher de nosso mandou da terra, mas nosso não pode mexer com as mãos que esta mulher tem muito cuxe-cuxe...!

domingo, setembro 25, 2005

Respigos de África - XII

Segundo o meu Pai me contava, em África, nos anos trinta e quarenta, as pessoas usavam roupa bem adequada ao clima, o que mais tarde passou a verificar-se menos. Assim, usavam-se as balalaicas, os calções, os capacetes brancos ou em caqui, tudo em algodão, linho, seda pura ou malha de seda. Mas, ao domingo, o mais chibante era calças compridas, em seda pura ou linho, camisa em malha de seda de manga curta e gravata a condizer. Como na Beira é raro não haver uma certa brisa, embora quente, a gravata nunca ficava pendurada, deslizando naturalmente para o ombro. Assim andavam todos os mesungos.
E, claro, todos os mainatos, nos seus dias de folga. Criado que se prezasse tinha que imitar o seu patrão! Mas para que haviam de esperar que o vento colocasse a gravata no ombro? Ventanejasse, ou não, ela era logo meticulosamente pregada no ombro da camisa, de preferência com um bonito e colorido alfinete!

sexta-feira, setembro 23, 2005

Deus existe?

Os meus filhos andaram todos em colégios religiosos e um dia, ainda bem pequenos, um deles lá me fez a pergunta difícil: - Mãe, se não o vejo, como é que eu sei que Deus existe? Enquanto pensava numa forma simples de responder, outro dos meus filhos deu de imediato a resposta. – Aperta o nariz com os dedos. Apertou e passado um bocado teve que respirar. - Não tires, continua a apertar. – Não posso, tenho que respirar. – Respirar o quê? - O ar, claro. – Também não o vês e sabes que ele existe...
Fiquei estupefacta e nunca esqueci. Como as crianças são simples! Os adultos é que complicam tudo!

Transformação e renovação?

O sol é grande, caem co’a calma as aves,
do tempo em tal sazão que sóe ser fria;
esta água, que d’alto cai, acordar-m’-ia
do sono não, mas de cuidados graves.

Ó cousas, todas vãs, todas mudaves,
qual é tal coração qu’em vós confia?
Passam os tempos, vai dia trás dia,
incertos muito mais que ao vento as naves.

Eu vira já aqui sombras, vira flores,
vi tantas águas, vi tanta verdura,
as aves todas cantavam d’amores.

Tudo é seco e mudo; e, de mestura,
também mudando-m’eu fiz doutras cores;
e tudo o mais renova: isto é sem cura!

Sá de Miranda

domingo, setembro 18, 2005

Respigos de África - XI

Beira, anos trinta
O jardineiro, ao tratar do jardim, teve um triste acidente. Enquanto cavava a terra, a pá soltou-se do cabo da enxada e enterrou-se no joelho. O meu Pai quis levá-lo imediatamente ao hospital, mas, nesse tempo, os indígenas tinham o mais completo horror a hospitais, pelo que toda a insistência foi debalde. Preferiu ir para a sua palhota e tratar-se com o cuxe-cuxe. Após meia dúzia de dias, o meu Pai foi vê-lo e encontrou-o deitado numa esteira, a arder em febre, com a pá da enxada ainda enterrada no joelho.
Não obstante nova tentativa para o levar para o hospital, nada conseguiu.
O cuxe-cuxe havia dito que quando a pá caísse ele ficaria bom.
Faleceu estupidamente uns dias depois.

quinta-feira, setembro 15, 2005

Respigos de África - X

Morávamos na Ponta Gêa. A nossa casa tinha um razoável quintal e para lá do muro das traseiras era terreno pantanoso. Em garota muito gostava de ir lá meter os pés e chafurdar naquela terra avermelhada, apesar de saber que ia ouvir um raspanete da minha mãe. Foi com certeza aí que apanhei algumas matacanhas, que os criados sabiam tirar com mestria. Entalavam um alfinete numa caixa de fósforos, passavam-lhe lume para o desinfectar e, sem fazer doer (só cócegas), retiravam, intacto, um saquinho onde o bicho proliferava. Um dia estava a chafurdar mais uma vez e da terra emerge um enorme caranguejo. É verdade, há, em Moçambique, caranguejos do tamanho das maiores sapateiras cá da Metrópole. E assisti, então, a uma cena única, que nem nas melhores séries televisivas sobre vida selvagem tive oportunidade de rever. A minha cadela, de nome Fly, que sempre me acompanhava, talvez para me defender, começou uma renhida luta com o caranguejo. Tentava morder-lhe e ele defendia-se com as suas enormes tenazes. Assim continuaram por alguns minutos. Quem ganhou, não sei. O caranguejo, assim como emergiu decidiu imergir e a cadela ficou com o focinho cheio de sangue, mas com um ar vitorioso, eu acho. Nesse dia o raspanete foi a dobrar. Mas valeu a pena!

Nota: Esta história passou-se nos anos quarenta. Os terrenos pantanosos foram sendo secos, novas construções foram surgindo, e a casa que era nossa ocupa um local bem central na Beira de hoje. Ainda lá está, embora em péssimo estado de conservação.

quarta-feira, setembro 14, 2005

In memoriam

Era uma Sexta-feira, dia 20 de Setembro.
- Queres ir ao cinema, logo à noite?
- Qual é o filme?
- “Relatório Confidencial”.
- Não, Pai. Já o vi e detestei.
Desliguei e fiquei a pensar que ia ficar sozinha em casa (a minha irmã estava na Granja, numa daquelas férias organizadas pela Mocidade Portuguesa), que tinha visto o filme em Uxbridge, numa altura em que ainda dominava mal o inglês e que essa podia ter sido uma razão para não ter gostado do Orson Wells.
- Pai, afinal sempre quero ir ver o filme.
- Pois, agora que já comprei os bilhetes é que decides, mas vou tentar trocar os dois bilhetes por três.
E foi assim que, nesse dia, fui ao cinema Império, com os meus pais.
Naquela altura os filmes não eram projectados de enfiada. Ainda havia dois intervalos - estendiam-se as pernas, fumava-se o cigarrito, exibiam-se fatiotas. Encontrei um amigo e passei os dois intervalos em amena conversa. Não reparei em nada de especial.
Mas aconteceu. Alguém jurou que havia de me conhecer.
O filme terminou, entrámos no carro, que estava estacionado na Alameda, e rumámos a casa. A minha Mãe é que conduzia porque o meu Pai, desde o acidente que já aqui, há algum tempo, relatei, nunca mais conseguiu pegar num automóvel. Esse alguém tomou nota da respectiva matrícula e, através dum amigo que trabalhava no ramo automóvel, conseguiu saber que estava registado em nome da minha Mãe, E.A., com residência no Bairro de S. Miguel. Encontrar o número do telefone foi fácil.
Sexta-feira, dia 27 de Setembro.
O telefone toca:
- Posso, por favor, falar com a menina A?
- Qual delas? Há duas.
- Com a que estava no cinema Império, na Sexta-feira passada.
- Eu mesma.
- Sabe, via-a, gostava de a conhecer, et caetera e outras coisas mais.
Enquanto tentava perceber se reconhecia voz, achando que seria uma brincadeira de algum amigo, tinha o meu Pai a chamar-me: despacha-te que vamos chegar atrasados ao dentista.
- Agora tenho que desligar. Desculpe.
Saí de imediato e quando regressei a nossa empregada perguntou-me:
- Com quem é que a menina esteve a falar ao telefone, antes de sair.
- Não sei, porquê?
Assim que saiu, o telefone tocou:
- Desculpe, como se chama?
- Custódia.
- Obrigado.
Uns dias depois, o meu Pai atende o telefone.
- Gostaria de falar com a Custódia A.
- !!!!???? Não há cá ninguém com esse nome.
E desligou, furioso, com as confusões que andávamos a arranjar. O nome da empregada com o nosso apelido! Que se passava? Tudo mudo. Ninguém explicou.
A partir daí, foi a Custódia, ainda hoje empregada da minha Mãe, a santa intermediária e desfazedora de todo o imbróglio.
Sem que eu soubesse, passou a informar o “alguém” de todos os meus passos.
Até que, no dia 18 de Fevereiro, apareceu num assalto de Carnaval, organizado por uma amiga minha, hoje ilustre escritora, através dum namorado duma outra amiga, amigo comum que, tal como o “alguém”, trabalhava no LNEC.
E foi assim que, num dia 14 de Setembro, começou uma nova etapa da minha vida, brutalmente interrompida por um AVC há dezasseis anos.
Mas a morte faz parte da vida e eu tento, todos os dias, manter bem viva a vida linda que vivi, ou não estaria aqui hoje a escrever isto.
Obrigada Zé e até um dia.

quinta-feira, setembro 08, 2005

O desafio da Madalena

Aqui vai a resposta ao inquérito:

CINCO COISAS DE QUE NÃO GOSTO
Responder a inquéritos (acho que o trauma vem-me duma brincadeira de há muitos anos que causou uma discussão, da qual saí irremediavelmente derrotada – estava num grupo a responder a um inquérito, em que cada pergunta tinha três hipóteses de resposta; a pergunta, que gerou toda a confusão, era: o que é que faz mais falta a um cão?; as três hipóteses de resposta eram: a cabeça, a cauda, a perna; respondi a perna, enquanto que o resto do grupo respondeu a cabeça; ninguém concordou com a minha resposta, não obstante todo o meu esforço para explicar que a cabeça não fazia falta, visto que sem cabeça não havia cão... ainda hoje, acho que tenho razão);
Hipocrisia;
Desamor;
Injustiça;
Não ter a capacidade de tornar este mundo melhor.
CINCO COISAS DE QUE GOSTO BASTANTE
Ter amigos verdadeiros;
Ter uma família maravilhosa;
Ler bons livros;
Procurar e achar o que a vida me tem dado de bom, ser feliz e tornar os que estão perto de mim mais felizes;
Ser avó a tempo inteiro.
5 ÁLBUNS
Eu que adoro o silêncio e sou dura de ouvido, tenho a maior das dificuldades em encontrar esta resposta, mas talvez estes:
Tom Jobim – Lounge;
Africa – The Essential Album;
Maria Bethânia – Maricotinha;
Humanos;
Idanha-a-Nova – Toques e Cantares da Vila.
UMA MÃO CHEIA DE MÚSICAS
Bolero de Ravel, Beethoven, Mozart, Fiddler on the Roof, Out of Africa, Pedra Filosofal.
PASSO O TESTEMUNHO A:
Quem quiser responder.

segunda-feira, setembro 05, 2005

Respigos de África - IX

Depois de o moleque arrumar o quarto dos meus pais, era “lindo” ver toda aquela parafernália de objectos – caixas, caixinhas, frascos, frasquinhos, pentes, escovas, borlas, espelhos, molduras, relógios, candeeiros, jarras, jarrinhas e sei lá que mais – meticulosamente arrumados, em impecável fila indiana, no meio da cómoda, do toucador e das mesinhas de cabeceira...
E quando a minha mãe, repetia e repetia e repetia a pergunta, indagando da razão de tal impropriedade, a resposta era sempre a mesma:
- Então, a senhora desarruma e nosso arruma!

Requisitar uma almofada

Da leitura do que a Madalena escreveu sobre justificação de faltas e da impossibilidade de, muitas vezes, se poder aduzir o verdadeiro motivo, lembrei-me desta história deliciosa passada ainda no tempo do Salazar.
Havia normas muito rígidas que determinavam a autorização, ou não, de aquisição de material nos serviços públicos, visando sempre a contenção rigorosa de despesas. Assim, era completamente proibida a aquisição de almofadas para as cadeiras, todas em madeira de pinho e não almofadadas. Mas se, da requisição, em vez de uma almofada, constasse: um quadrado em espuma com 40 cm, altura de 6 cm, revestido a tecido, o pedido era rapidamente satisfeito...

quinta-feira, setembro 01, 2005

Respigos de África - VIII

Os criados, em Moçambique, tinham que inventar razões para irem à terra, já que não tinham direito ao gozo de férias.

Segundo o meu pai me contava, o motivo que apresentavam era quase sempre a morte de algum familiar. Alguns “matavam” o pai e a mãe várias vezes, em anos sucessivos, conseguindo, assim, alguns dias de merecido descanso.
Mas, lá pelos anos 30 do século XX, aconteceu a seguinte história. Um dos criados, óptimo trabalhador, esteve anos seguidos sem nunca pedir para ir à terra. Até que, um dia, chegou-se ao pé do meu pai e disse:
- Patrão, nosso tem que ir na terra.
O meu pai lá lhe fez a pergunta da praxe: - Então porquê?
- Nosso vai ver filho que nasceu.
- Tiveste um filho?
- Sim, patrão?
- E quem é a mãe?
- A minha mulher.
- Tens mulher? Tens filhos?
- Sim patrão.
- Há quanto tempo não estás com a tua mulher?
- Xi patrão, há tantos anos que nem lembra mais.
- Não estás com a tua mulher há tanto tempo e tiveste um filho dela?
- Não patrão, é meu filho porque nasceu na minha palhota. E quem nasce na minha palhota é meu filho.

E lá teve autorização para ir à terra ver o novo filho.