quarta-feira, agosto 31, 2005

Crianças que morrem à fome

Ouvi hoje que, nos últimos quatro meses, morreram, na Índia, mais de mil crianças. À fome. Querer dar de comer a um filho e não ter... Em que mundo vivemos nós?

terça-feira, agosto 30, 2005

"Professor"

Professor

O professor disserta
sobre ponto difícil do programa.
Um aluno dorme,
cansado das canseiras desta vida.
O professor vai sacudi-lo?
Vai repreendê-lo?
Não.
O professor baixa a voz
com medo de acordá-lo.

Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, agosto 24, 2005

Respigos de África - VII

Após um acidente de automóvel, os sapatos do meu pai ficaram sem solas.

Há muitos, muitos anos, o meu pai, que ainda não era pai, mas já vivia na Beira, decidiu comprar um automóvel.. Optou por um Sunbeam descapotável lindo. Tenho a fotografia, mas como não sei inseri-la, esclareço que se trata de um automóvel do início da década 30. Um dia, o meu pai e um amigo resolveram ir caçar elefantes. A caçada era apenas um pretexto para um bom dia de farra, porque nunca na vida caçaram nada. Pelo menos, no caso do meu pai, sei que apenas atirou a alguns passarinhos com a sua espingarda Flaubert, em Vale de Prazeres, onde a família vivia e onde passei boas férias com a minha avó. Preparada a merenda, lá partiram, pelas picadas, até um local onde passariam elefantes, à beira dum rio. Se comeram bem, melhor beberam e quando chegou a hora de regressarem, sem terem avistado nenhum elefante, o automóvel voava baixinho, por graça do álcool que haviam ingerido.. Durante a farra, o amigo do meu pai desequilibrou-se e caiu ao rio. Embora pejado de jacarés, nada lhe aconteceu, para além de ter ficado todo molhado. Tirou, portanto, a roupa, ficando apenas em cuecas. Enquanto voavam baixinho, um outro automóvel que, por sorte, ia à frente, teve a percepção, através do espelho retrovisor, de que o meu pai, que ia a conduzir, não conseguiria dar a curva. Parou para ver e, efectivamente o automóvel seguiu a direito e despenhou-se numa ravina. Ambos ficaram feridos com alguma gravidade, mas tiveram a sorte de ser imediatamente assistidos, pelo que só algumas cicatrizes permaneceram para sempre. Os dois ficaram sem sentidos por algumas horas e, até acordarem e explicarem (só a razão das cuecas, já que relativamente aos sapatos, cada um conclua como quiser), a questão que intrigou toda a gente foi a seguinte: Que coisa estranha: um só em cuecas e outro sem solas nos sapatos!???

terça-feira, agosto 23, 2005

Hoje acordei pessimista

O artigo 69.º da Constituição da República Portuguesa estabelece que “As crianças têm direito à protecção da sociedade e do Estado […] contra […] o exercício abusivo da autoridade na família e nas demais instituições”.
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Hoje estou pessimista. Acordei assim e não passa. Está calor. Fui almoçar com a minha mãe e no restaurante a televisão debitava, sem som, imagens de incêndios, incêndios e mais incêndios. Mostrou também o nosso Primeiro-Ministro Sócrates, acompanhado de uns tantos Ministros e Secretários de Estado, repetindo, em mudo, o que havia dito ontem, em sonoro. Solidariedade comunitária serve para quê? Não sabemos nada de regulamentação comunitária e lá metemos os pés pelas mãos. Mas a esta situação não se aplica. O frigorífico avariou-se. Porquê no Verão? Eu também o uso no Inverno…

Comigo vivem dois netos – de 7 e 9 anos. O que é que o mundo lhes oferece? Eles conhecem o mundo essencialmente através da televisão. Ainda que imponhamos horários e seleccionemos programas, pouco adianta porque vêm a saber por outros tudo o que foi transmitido. Os noticiários são o que sabemos e sem a bolinha devidamente aposta no canto superior direito. Considero a telenovela “Morangos com Açúcar” (que eles adoram) verdadeiramente imprópria para crianças (já fui acusada de antiquada à custa desta opinião – e por uma educadora de infância). Não estará a televisão a exercer abusivamente a sua autoridade ao impingir uma faixa tão estreita de informação? A par dos incêndios, das guerras, da violência, das fraudes, da corrupção, não haverá para contrabalançar nada de bom, saudável e interessante em Portugal, quiçá no mundo?

Para aprender a lidar melhor com este mundo, vou começar, em Outubro, a ter aulas de Psicologia. Já estou inscrita. Espero que abranja as vertentes colectiva, comparada, experimental, fisiológica, geográfica, infantil, moral e racional e que fique a entender melhor o art. 69.º da nossa Constituição.

segunda-feira, agosto 22, 2005

Respigos de África - VI

O meu pai foi para Moçambique com 19 anos de idade. Já lá tinha a irmã mais velha, a viver no Búzi, mas resolveu ficar na Beira. Escolheu ir para a uma “república”, onde já residiam meia dúzia de rapazes, sozinhos como ele. Cada um tinha o seu criado, que arrumava o quarto, cozinhava, lavava e passava a ferro. Um dia, reparou o meu pai que o seu criado (infelizmente já não me lembro do seu nome) trazia vestida uma das suas camisas. Directamente, sem rodeios, como era seu hábito, perguntou-lhe: - Olha lá, essa camisa não é minha? Resposta pronta: - É sim. O patrão pô-la para lavar ainda limpa. Nosso veste-a, acaba de sujá-la, logo a lava, engoma e arruma na gaveta!.

quarta-feira, agosto 17, 2005

Quase a regressar

Na próxima Segunda-feira vou voltar ao meu ritmo normal: devagar, devagarinho, mas alguma coisa porei no blogue. Sim, as férias vão acabar. Isto de ter a casa cheia de gente é muito bom, mas ocupa muito tempo. Não me queixo que até gosto... Entretanto, muitas coisas aconteceram. A minha filha mais velha resolveu divulgar o nome da mãe. Agora já toda a gente sabe!? Mas não sabem que tenho outra filha, que não tem blogue, mas comenta (Madalena, já adivinhaste?). E para completar, digo também que o meu filho não tem blogue nem comenta. Neste particular, já não há mistérios. Também aconteceu que fiz mais um ano. No dia 7 de Agosto, às 10h 15m (hora de Moçambique). Sou, estou certa, a bloguista mais velha cá do burgo.