quinta-feira, junho 30, 2005

No princípio era o Verbo

Sempre achei um passatempo divertido pensar na razão de ser das palavras.

Passo a explicar: Vejamos, por exemplo: por que razão ao livro se deu a palavra livro? Sim, vem do latim libru-. E porque é que os romanos lhe chamaram assim? Está bem, livro todos deste pesadelo. Não leiam mais. Ninguém tem de aturar ninguém. Mas o que tem a ver um livro, substantivo, com este outro livro, tempo verbal?

"No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por meio dele" (João 1:1-3). A Bíblia explica tudo? Não creio. Ou então está de tal forma codificada, que só entendem os iluminados que possuem a chave.

Qual o significado de “verbo”? Em grego era “logos” (género masculino). Lutero utilizou “das Wort” (género neutro). Os franceses usam “la parole” (género feminino). Até os géneros diferem.

Desculpem-me os ilustres professores do nosso idioma, mas isto não passa duma brincadeira de quem é totalmente ignorante na matéria..

quarta-feira, junho 29, 2005

Manuel da Gardunha

O meu Tio Manuel (Manuel da Gardunha, como gostava de assinar), morreu há dois anos, praticamente cego, com 86 anos de idade. Até ao fim da vida, não deixou de versejar. Estou a tentar decifrar os seus últimos versos. Como não via, há palavras, até linhas, sobrepostas, tinta que faltou, mas a minha vontade de deixar gravado este fim de obra é grande e hei-de consegui-lo. Adorava este meu tio e já que a saudade me bateu hoje à porta, apeteceu-me deixar aqui algumas quadras suas sobre “Saudade”:

Esta palavra saudade
Tem encanto e magia,
Traz tristeza e alegria
E até ansiedade.

Em prol da veracidade
Dirá quem tem a certeza,
Que somente é portuguesa
Esta palavra saudade.

Esta palavra saudade
Faz voltar aos corações
Mui belas recordações
Dos tempos da mocidade.

Esta palavra saudade
Acompanha-me na vida.
Lembra a nunca esquecida
E finda felicidade.

Esta palavra saudade
Com sete letras escrita,
Ouvida sempre e dita
Com amor e humildade.

Esta palavra saudade
Só a digo a chorar.
Dita de outra maneira
Não a sei pronunciar.

Não a sei pronunciar
Se triste me não sentir.
Se fosse de outro modo
Estaria a fingir.

Esta palavra saudade
É a imagem do passado,
Indicando realmente
Se foi mal ou bem gozado.

Se foi mal ou bem gozado
Com tristezas e alegrias
E sucedidas ao longo
Dos anos, meses e dias.

Esta palavra saudade
Das outras é diferente
E com artes de magia
Faz do passado presente.

Faz do passado presente
No tocante a emoções,
E nos trazem à memória
Antigas recordações.

Esta palavra saudade
Por uns é muito amada
E por outros, ao contrário,
Sempre será odiada.

terça-feira, junho 28, 2005

Respigos de África - II

O nosso cozinheiro, na Beira, chamava-se Sande. Não sabia ler nem escrever. Mas digam lá se era ou não era um rapaz de rara inteligência? Quando entrei para a minha primeira classe, levava, como pedido seu, relatar-lhe, dia a dia, o que me haviam ensinado. E foi assim que, mal chegava a casa, ia mostrar-lhe o livro, o caderno e, ao pé dele, fazia o trabalho de casa, em caderno de duas linhas. A minha mãe acabou por lhe dar material escolar e ambos fazíamos o mesmo.
Quando aprendi a ler, o Sande aprendeu a ler.
Quando aprendi a escrever, o Sande aprendeu a escrever.

segunda-feira, junho 27, 2005

Respigos de África

Depois de ter lido as “Histórias de Moçambique”, do Espumante, peguei no abre-latas da Madalena, abri a minha lata de recordações de África e tirei uma, que calhou ser esta:
A cidade da Beira fica situada abaixo do nível do mar. A nossa casa na Ponta Gêa, em velho estilo colonial, era, portanto, como todas as outras, nessa altura, construída sobre pilares. Lembro-me de que era aí, nessa parte inferior, que o mainato engomava, que se arrecadavam os bidões de petróleo, para funcionamento da geleira (sim, os frigoríficos trabalhavam a petróleo que a electricidade faltava muito), que tentava dedilhar a marimba e que, entre outras coisas, se armazenavam as garrafas de vinho, idas da Metrópole (assim se se designava o Continente).
Sempre que necessário, o meu pai pedia ao moleque (Flanela de seu nome), que fosse buscar uma garrafa de vinho.
Ainda ouço a voz do meu pai: - Flanela, vai lá a baixo, cacecai maningue, e traz uma garrafa de vinho. Olha, mas vais a assobiar todo o tempo. Não paras de assobiar.
E assim a ordem era sempre executada ao som de música!
Quem viveu em África, já adivinhou a razão desta excentricidade.
Tudo o que contenha álcool serve para beber, desde o puro da farmácia até uma qualquer água-de-colónia.
E o bom do Flanela, se não tivesse a boca ocupada com o assobio, beberia parte do vinho, que faria substituir por água da chuva. Água da chuva, que era a que consumíamos, mas esse já será outro respigo.

sexta-feira, junho 24, 2005

Que estupidez. Que tristeza.

Trinta e três feridos na Figueira da Foz. Três ainda estão no hospital, com queimaduras de primeiro e segundo graus. Um deles, uma criança.
O fogo de artifício, que festejava o S. João, é lançado do meio da praia. Aparentemente, sem perigo nem para pessoas nem como causador de incêndios. Mas as pessoas insistem em ocupar o areal, em não respeitar as zonas de segurança. Por que razão somos assim? E são tantos os locais, devidamente afastados, de onde se pode ver tão bem. Que estupidez. Que tristeza.

quinta-feira, junho 23, 2005

Português pequeno

A Madalena, que tanta vez fala das crianças, recordou-me algumas doçuras:

- Estava em frente à televisão, à espera que dissessem o nome do novo Papa eleito, quando o telefone tocou. Pedi à minha neta (oito anos) que ficasse atenta e que fosse dizer-me ao escritório (onde estava a atender a chamada), o seu nome, assim que o referissem. Decorridos uns minutos, aparece ela e diz-me: - Avó, o novo Papa é o rato zinga. Não sei que perplexidade ela viu na minha cara, entre esclarecê-la logo ali ou acabar a conversa telefónica , quando acrescenta: - Avó, o que é que ele é ao rato mickey?

- Na capela do colégio, no cântico “Miraculosa Rainha dos Céus”, uma criança dos seus 6 anos, cantava a plenos pulmões ... minha gulosa rainha dos céus....

- A mesma criança, em vez de “Mãe Celestial”, cantava ... mãe bestial...

Quem manda não explicarmos às crianças o significado das palavras?

terça-feira, junho 21, 2005

"Para Sempre"

“Tenho de. O pequeno intervalo entre a minha disponibilidade e a pequena tarefa a realizar. É o meu futuro. Reduzido minúsculo. Não olhes mais longe. Agora o teu futuro é o pequeno passo que dês para fechar as janelas, para abrir as lojas. Agora a tua vida é o instante em que vives. Nada mais, nada mais, mas não te lamentes. Sê inteiro na dignidade de ti. [...]”

Trecho tirado do livro que ando a ler. Que ando a ler? Não... que ando a saborear e a meditar, devagar, devagarinho, como a temperatura e a própria cadência do livro assim exigem. É o romance, de Vergílio Ferreira, “Para Sempre”.

domingo, junho 19, 2005

Xicuembo

De tudo o que a vida me tem dado, bom e mau, sempre tentei extrair o que havia de positivo em qualquer situação. Acredito que nada é totalmente bom nem nada é totalmente mau. Afinal vivemos na Terra, que não é propriamente o paraíso. E o segredo está em encontrar e saborear esse bocadinho de bom que nos dá a felicidade e faz com que vivamos bem connosco próprios e com os que nos rodeiam. Tudo isto a propósito, ou a despropósito, do que já li no “Xicuembo”. Da sua leitura perpassa intensamente muita amargura. Da sua leitura adivinham-se nítidas as vitórias que esmagaram as adversidades.
Assim o Carlos Gil termina o seu livro “... renasci ao reler este bocado de mim. Há páginas que só se viram relendo-as, há o passado que nos dá a mão que as escreve.”
Que Xicuembo te aponte sempre o caminho da felicidade!

quarta-feira, junho 15, 2005

Luto nacional

O Governo decretou um dia de luto nacional pela morte de Álvaro Cunhal. O Governo não decretou luto nacional pela morte de Vasco Gonçalves, que foi Primeiro-Ministro. O Governo não decretou luto nacional pela morte de Eugénio de Andrade. O Governo decretou luto nacional pela morte da Amália Rodrigues. O Governo decretou três dias (se não estou em erro) de luto nacional pela morte do Papa. Acho que não decretou luto nacional pela morte da Irmã Lúcia. Enfim, acho que já dá para entender a minha perplexidade... quais são os critérios superiormente seguidos? Quem me explica?

terça-feira, junho 14, 2005

Eugénio de Andrade

Frente a frente

Nada podeis contra o amor,
Contra a cor da folhagem,
contra a carícia da espuma,
contra a luz, nada podeis.

Podeis dar-nos a morte,
a mais vil, isso podeis
- e é tão pouco!

Eugénio de Andrade

quinta-feira, junho 09, 2005

Dia Mundial dos Oceanos

Ontem, dia 8 de Junho, o meu calendário disse-me assim: Dia Mundial dos Oceanos. Os oceanos cobrem 2/3 da superfície da Terra e têm um papel relevante na vida do planeta.
Bem esperei que a especialista destes “dias de” apresentasse mais um dos seus encantadores escritos. Não aconteceu. Talvez já o tivesse feito há um ano. Mas tive pena.

quarta-feira, junho 08, 2005

Diamante

Só depois de lapidado podemos avaliar o valor dum diamante.

Escuridão

Um quarto pode estar recheado de objectos preciosos e lindos, mas se nada o iluminar só vemos a escuridão.

segunda-feira, junho 06, 2005

Jacques Tati

Acordei hoje a pensar no Jacques Tati. Não, não sonhei com nenhum dos seus filmes, nem ultimamente li nada que a ele se referisse. De resto, é infelizmente pouco recordado e injustamente esquecido. Quando hoje, ao fim da manhã, fui ao supermercado, não pude deixar de me sentir num dos seus filmes. Aqueles gestos repetidos de toda a gente, escolhe a carne, mexe e remexe nas embalagens, cheira as meloas, inspecciona as cerejas – ah, são de Espanha, não prestam (porquê, alguém me explica, por favor) - mexe e remexe nas frutas, espeta o dedo e carrega na barriga do peixe e fica com ele esticado, com um ar levemente enojado, à espera que seque (será?), para ir logo carregar na barriga de outro, mexe e remexe na hortaliça, mexe e remexe ... transportaram-me para um mundo deliciosamente observado por Jacques Tati, do qual eu fazia parte. Estiquei o pescoço, inclinei ligeiramente o corpo para a frente à procura da caixa com menos gente, e com passos leves, a pedir desculpa ao chão que pisava, cá vim para casa escrever este texto.
Estou a sorrir.

sexta-feira, junho 03, 2005

Dá que pensar

Às vezes penso: se a minha tetravó cá voltasse, o que a espantaria mais?
E concluo: abrir uma torneira e ver sair água da parede.
Já pensaram nos litros de água que uma pessoa tinha que acarretar?

quinta-feira, junho 02, 2005

Senhora Professora Eva

Daquele período mais ou menos complicado que vivemos a seguir ao 25 de Abril de 1974, lembrei-me desta situação que reflecte o carácter íntegro, honesto e corajoso duma professora de português do Liceu D. Dinis, em Lisboa.
A minha filha mais velha, na altura com cerca de doze anos, sempre tinha sido uma óptima aluna, com excelentes notas na disciplina de Português. No início do 7.º ano da escolaridade (desculpem-me que não era decerto assim que, na altura, se denominava), passou a ter, na disciplina de português, uma professora assumida e notoriamente do Partido Comunista. A minha filha usava esferográficas do PPD, exibia-se com colantes e diversos atavios alusivos àquele partido em tudo o que era sítio e não se coibia de uma boa luta verbal, em sua defesa, sempre que a ocasião assim o determinasse. Não nego que temi que nada de bom adviesse desse confronto, tendo em conta casos tão inconcebíveis, quiçá irracionais, de que íamos infelizmente tomando conhecimento. Puro engano! No final do primeiro trimestre, nota máxima. O mesmo nos outros dois trimestres. Chegado o final do ano lectivo, a pedido da minha filha, a professora escreveu-lhe o seguinte autógrafo (estou a citar de cor...): “À minha querida aluna, Maria...., que escreve coisas parecidas com as que eu escrevia na mesma idade (sem canetas do PPD, claro) ...”.
Tenho contado, muitas vezes, este episódio. Acredito na grande importância que ele teve na formação, até política, da minha filha.
Do seu nome só me lembro que era Eva.
Obrigada Senhora Professora Eva.

quarta-feira, junho 01, 2005

Serenata

Depois de tanta coisa maravilhosa que já hoje aqui se escreveu sobre a criança, só me resta este belo poema da Cecília Meireles:

SERENATA AO MENINO DO HOSPITAL

Menino, não morras,
porque a lua cheia
vai-se levantando do mar.
São de prata e de ouro
as águas e a areia.
Não morras agora,
vem ver o luar!

Menino, não morras:
na dormente mata,
uma flor vai desabrochar.
É azul? É roxa?
É de ouro? É de prata?
Não morras agora!
Vem ver o luar.

Menino, não morras:
verdes vaga-lumes
correm, num brilhante colar.
São de prata e de ouro
todos os perfumes.
Não morras agora!
Vem ver o luar.

Menino, não morras:
ouve a serenata
que sussurra nas cordas do ar...
São cordas de sonho,
são de ouro e de prata.
Não morras agora!
Vem ver o luar.

Menino, não morras:
sobre o céu deserto,
há uma estrela imensa a brilhar.
É de prata e de ouro!
Como está tão perto!
Não morras agora,
- que a estrela da aurora
veio ver teu rosto
banhado de luar!