terça-feira, maio 31, 2005

Professores

Se há pessoas que eu admiro, são os professores. Se há pessoas que eu recordo com respeito e ternura, elas foram os meus professores. Claro que, ao longo da minha vida, tive professores de quem gostei e outros de quem não gostei. Curiosamente, aqueles de quem mais gostei foi dos que ministravam as minhas disciplinas preferidas. Ainda hoje não sei qual a relação entre professores e disciplinas: gostava das disciplinas pelos professores ou gostava dos professores pelas disciplinas? Seja como for, considero que, na maioria, cumpriam a sua missão como se de um sacerdócio se tratasse. E, não obstante tudo o que hoje se diz do ensino, quero acreditar que muitos vão deixar nos seus alunos uma marca igual à que em mim perdura até agora.
Lembro-me, com muita saudade, da minha professora de francês e de literatura portuguesa - Noémia Paiva Henriques. Já não está entre nós, mas continua viva no meu coração.

segunda-feira, maio 30, 2005

Conta telefónica: o que sei e o que não sei

PRIMEIRO: Sei realmente uma (e acho que única) coisa: a conta telefónica é cada vez mais alta por causa da Internet.
SEGUNDO: Acho que há várias operadoras no mercado.
TERCEIRO: Será assim tão difícil explicar de forma clara as vantagens e desvantagens de cada operadora? Claro... eu é que sou obtusa.
QUARTO: Qual a razão por que a linguagem utilizada não é acessível a quem não detém o respectivo código de decifração? Onde está esse código?
QUINTO: Eu, que sempre gostei de decifrar enigmas (ah, lembrei-me do velho Almanaque Bertrand), porque não atino com este?
SEXTO: Mesmo à beira de uma crise de raiva, vou continuar, ai se vou...
SÉTIMO: E vou descobrir.

sábado, maio 28, 2005

Retrato Próprio

Aqui nesta família cibernética, virtual, que somos, não fazemos ideia de como cada um é. Pode ser uma vantagem, sem dúvida, mas passou-me pela cabeça lançar o desafio, a quem quiser, de se descrever a si próprio. O título em epígrafe não é meu, mas do Bocage:

Retrato próprio

Magro, de olhos azuis, carão moreno,
Bem servido de pés, meão na altura,
Triste da facha, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e não pequeno.

Incapaz de assistir num só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura;
Bebendo em níveas mãos por taça escura
De zelos infernais letal veneno:

Devoto incensador de mil deidades
(Digo, de moças mil) num só momento,
E somente no altar amando os frades:

Eis Bocage, em quem luz algum talento;
Saíram dele mesmo estas verdades
Num dia em que se achou mais pachorrento.

Há pouco tempo vi, talvez na Sociedade de Geografia, já não me lembro, o retrato pintado do Bocage, que em nada coincide com a ideia que eu fazia dele a partir dos seus versos.

Enfim, é só um desafio para quem estiver para aí virado. Claro que não tem que ser em verso. Tal como dizia Monsieur Jourdain, em «Le Bourgeois Gentilhomme»: «… je ne veux ni prose ni vers».

Vai a seguir o meu retrato próprio (expressão muito mais bonita que auto-retrato, não é?)

Sou alta, pelo menos nos percentis da minha geração, (percentil é o termo actual, eu acho); pele morena clara, cheia de manchas escuras (da idade, dizem);olhos castanhos a dar para o amarelo; longilínea, nem gorda nem magra; pés e mãos grandes, cabeça pequena; cabelos cinzentos; não me pinto, gosto de tudo ao natural; quanto ao vestuário, só clássico; muito contida, não exteriorizo as minhas emoções (ensinaram-me assim); inflexível nos códigos de conduta que assumi; apaziguadora, odeio conflitos, não entendo as guerras; muito selectiva e exigente nas amizades, poucas, mas boas. Eis-me!

quarta-feira, maio 25, 2005

A stamp to Mozambique... please

Esta manhã, ao ler o blog da Pitucha, por qualquer razão que nada tem a ver com o que lá está escrito, lembrei-me do seguinte episódio que passo a narrar:
País da ocorrência: Reino Unido;
Local da ocorrência: uma estação de correios em Uxbridge, terra igual a tantas outras, nos arredores de Londres;
Data da ocorrência: 1956;
Narração do acontecimento: após escrever uma carta aos meus tios, que viviam em Moçambique, fiz o que todas as pessoas fazem, nestes casos – diligenciar no sentido de a enviar pelo correio. Para facilitar a vida ao pessoal, resolvi escrever, após o número da caixa postal: Beira, Mozambique, Portuguese East Africa.
Desenvolvimento do acontecimento: o espanto que vi na cara do funcionário que me atendeu é inesquecível. Logo ali teve início um prolongado conciliábulo entre todos os funcionários sobre o que era Mozambique, em que parte de África ficava, qual o custo do selo, conciliábulo seguido de perseverantes e interessadas consultas a vários calhamaços. Ao fim de uma boa meia hora, consideraram o mistério desvendado e lá foi a rainha devidamente colada na forma de selo.
Final da história: a carta chegou ao destino, num prazo não muito longo, porque optei pela via aérea, em vez da marítima. Meia dúzia de pessoas em Uxbridge ficaram a saber da existência de Moçambique.
Coincidências: Ao revisitar Uxbridge, em 1996, almocei num restaurante de portugueses provenientes de Moçambique.

sábado, maio 21, 2005

"A Curva do Rio"

Comecei há dias a ler o livro “A Curva do Rio”, de V. S. Naipaul. Ainda só vou na p. 103, mas cada vez que lhe pego, tenho que ler e reler as duas primeiras linhas. Fazem-me pensar...
São assim:
O mundo é o que é; os homens que não são nada, que se permitem tornar-se nada, não têm lugar nele.

sexta-feira, maio 20, 2005

Madalena: vou pouco ao cinema

1. Qual o último filme que viste no cinema?
O Melhor da Juventude – La meglio Gioventù
Um filme em duas partes, de quase três horas cada, que vi no cinema King. (Por aqui se vê como vou pouco ao cinema – já foi há tanto tempo!)
Retrata a história de uma família italiana desde o fim dos anos 60 até aos dias de hoje.
Para além de ter adorado o filme, tive a oportunidade de recordar acontecimentos da história italiana recente, tais como a inundação de Florença, a máfia, movimentos de estudantes, repressão policial, enfim, o mundo em que se vive.

2. Qual a tua sessão preferida?
Qualquer uma que não me impeça de estar em casa pelas 19 horas. Tenho outras tarefas mais importantes a cumprir.

3. Qual o primeiro filme que te fascinou?
O maior espectáculo do mundo. Um filme de Cecil B. de Mille. Uma história passada no circo, com um palhaço (James Stewart) que me fez chorar. (Infelizmente, revi o filme e senti-me tão decepcionada, tão frustrada, que jurei não voltar a ver os filmes lindos da minha infância...)

4. Para que filme gostarias de te ver transportado(a)?
Sei lá! Para o Férias em Roma, na condição de eu ser a Audrey

5. E já agora, qual a personagem de filme que gostarias de conhecer um dia?
Dr Jekyll and Mr. Hyde. Assim conhecia duas em uma.

6. E que actor (actriz)/realizador(a)/argumentista/produtor(a) goatarias de convidar para jantar?
Mel Gibson, para termos uma longa conversa sobre o seu filme A Paixão de Cristo.

7. A quem vou passar isto?
À Pitucha, à Xana e à Ni.

Madalena: se responder de novo àmanhã, tudo será diferente.

quarta-feira, maio 18, 2005

Ainda Vitorino Nemésio, na sequência de comentário da Madalena

Foi meu professor de Literatura Portuguesa na Faculdade de Letras de Lisboa. Recordo-me da primeira aula que ministrou ao meu curso, no ano de 1959. Em jeito de sumário, começou por dizer que ia falar de Cantigas de Amigo, de Amor e de Escárnio e Maldizer. Quando, ao fim de 50 minutos, a aula terminou, havia tecido uma elaborada teia de absorventes considerações que, num maravilhoso e bem urdido esquema, terminou em Antero de Quental. Assim era o mestre “que parecia não preparar as suas lições”.
Não assisti à sua última aula, proferida em 9 de Dezembro de 1971, no Anfiteatro 1 da Faculdade de Letras de Lisboa. Tenho pena!

segunda-feira, maio 16, 2005

"Mundo Cibernético"

Sei que Vitorino Nemésio nasceu em 1901 e morreu em 1978.
Não sei quando é que ele escreveu este espantoso poema:

Semântica Electrónica

Ordeno ao ordenador que me ordene o ordenado
Ordeno ao ordenador que me ordenhe o ordenhado
Ordinalmente
Ordenadamente
Ordeiramente.
Mas o desordeiro
Quebrou o ordenador
E eu já não dou ordens
coordenadas
Seja a quem for.
Então resolvo tomar ordens
Menores, maiores,
E sou ordenado,
Enfim - o ordenado
Que tentei ordenhar ao ordenador quebrado.
- Mas - diz-me a ordenança -
Você não pode ordenhar uma máquina:
Uma máquina é que pode ordenhar uma vaca.
De mais a mais, você agora é padre,
E fica mal a um padre ordenhar, mesmo uma ovelha
Velhaca, mesmo uma ovelha velha,
Quanto mais uma vaca!
Pois uma máquina é vicária (você é vigário?):
Vaca (em vacância) à vaca.
São ordens...
Eu então, ordinalmente ordeiro, ordenado, ordenhado,
Às ordens da ordenança em ordem unida e dispersa
(Para acabar a conversa
Como aprendi na Infantaria),
Ordenhado chorei meu triste fado.
Mas tristeza ordenhada é nata de alegria:
E chorei leite condensado,
Leite em pó, leite céptico asséptico,
Oh, milagre ordinal de um mundo cibernético!

mas, depois de o ler, fico com a certeza de que, se tivesse vivido mais uns anos, teria entrado neste mundo. Será que denominaria o seu blogue de Mundo Cibernético?

Academia do Centro Paroquial de Olivais-Sul

Há nove anos, sob a inspiração do lema “Dar mais anos à vida e mais vida aos anos”, a Paróquia criou uma Academia, destinada à terceira idade. Ando lá há quase três anos e acho verdadeiramente espectacular verificar como ainda há pessoas boas que dão gratuitamente muito do seu tempo para partilhar com outros os seus conhecimentos. É assim que já aprendi a fazer tapetes de Arraiolos, que faço parte dum grupo de pessoas que passa parte de uma tarde por semana a dissertar, em língua inglesa, sobre temas previamente estabelecidos, que me delicio durante uma hora semanal a ouvir falar de escritores portugueses, que visito museus e locais de interesse, em Lisboa e arredores, e que, a partir de Outubro, vou começar a aprender o bordado de Castelo Branco. Muitas outras actividades há, desde Restauro, Animação Musical, Cuidados de Saúde e Psicologia até Pintura, Línguas, Convívio Cultural, Ginástica e Ioga. A Academia é, neste momento, frequentada por 350 pessoas.
Que ninguém diga que a sua vida é vazia. Com um bocadinho de imaginação e de esforço, podemos sempre realizar sonhos e criar novas amizades. Pela minha experiência digo que o tempo me é pouco para tudo o que gostaria de fazer.

domingo, maio 15, 2005

"Minha água natal"

Acabei de ler o livro de Mia Couto, intitulado “Pensatempos – Textos de Opinião”. É uma compilação de palestras, artigos publicados em jornais e revistas, intervenções e outros textos, escritos pelo autor entre os anos de 2001 e 2005. Para mim, Mia Couto é um caso único na literatura em língua portuguesa. Lê-lo é um prazer, relê-lo uma delícia, saborear as suas frases e palavras tão belamente “inventadas” um deslumbramento.
Do texto “Águas do meu princípio”, não resisto a transcrever: “Falo da minha Beira, pequena cidade em que nasci, localizada no centro de Moçambique, na margem esquerda do rio Pungué. A Beira é um sítio roubado às águas de um estuário, forrado de lodo e mangais. Cidade líquida, num chão fluvial. Tanto que, para falar dela, eu digo: a Beira, minha água natal.”.

quarta-feira, maio 11, 2005

Desafio do Espumante - Escrever um texto sem a letra "A"

É um exercício difícil. Que resulte é o que eu desejo! Num tempo muito ido, li um livro com texto todo corrido. Mesmo sem pontos. E creio que resultou. Escritor? Título? Conteúdo? Esqueci... Lembro-me só que gostei e lendo-o fiquei ciente de que é possível escrever sem ser nos termos conformes com leis comuns. Que é isso de leis? Quem cumpre? Onde? É preciso é conseguir os objectivos. Ei-lo! Passei o teste?

À Madalena do Chora

À Madalena
De Cecília Meireles, deixo-te esta:

INSCRIÇÃO
Sou entre flor e nuvem,
estrela e mar.
Porque havemos de ser unicamente humanos,
limitados em chorar?

Não encontro caminhos
fáceis de andar,
Meu rosto vário desorienta as firmes pedras
que não sabem de água e de ar.

E por isso levito,
É bom deixar
um pouco de ternura e encanto indiferente
de herança, em cada lugar.

Rastro de flor e estrela,
nuvem e mar.
Meu destino é mais longe e meu passo mais rápido;

a sombra é que vai devagar.

segunda-feira, maio 09, 2005

Ao Espumadamente || Ao Espumante

Sendo este um dos blogs/blogues que mais visito, tenho estado a magicar por que razão ele se chama assim. Acho os nomes engraçados e, talvez por associação ao vinho, transmite-me uma sensação de alegria e de boa disposição, não de festa, que considero as de calendário (as festas coercivas) cada vez mais aborrecidas, mais cansativas e desprovidas de significado.

Prometo, no entanto, que, no próximo dia 18, beberei uma taça (nem que seja só em pensamento), se o Sporting ganhar.
É também uma homenagem ao meu pai (sportinguista ferrenho e anti-benfiquista pertinaz – nunca saberei se por esta ordem...).

Ora bem, no meu exercício de pesquisa, comecei por fazer algumas consultas:

- Primeira:
Espumante – s. m. Vinho gaseificado
Espumante – adj. 2 gén. (do lat. spumante-).Que produz espuma; espumoso. Fig. Raivoso; excitado. (Grande Dicionário da Língua Portuguesa – Coord. de José Pedro Machado).

- Segunda:
Espumante – adj. 2 gén. Que espuma, que deita espuma; espumoso: “só me satisfaz vinho verde, assim um pouco espumante”, Eça de Queirós, A Ilustre Casa de Ramires, cap. 6, p. 260; “Henrique viu diante de si uma taça de leite espumante”, Júlio Dinis, A Morgadinha dos Canaviais, I, cap. 3, p. 43. Em que há espuma, que se desfaz em espuma: “é belo ver quebrar as ondas espumantes em ribas fragosas”, Rebelo da Silva, Ódio Velho não Cansa, II, cap. 14, p. 26. Fig. Cheio de raiva, de ira, furioso: “e espumante de cólera, e sublime de raiva, de desespero... António da Silveira, ditou a frase que a pena se recusa a transcrever”, Pinheiro Chagas, Desc. da Índia, II, cap. 4, p. 143. (Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira).

- Terceira:
Espumante – adj. Que espuma. Excitado. Raivoso (Novo Dicionário da Língua Portuguesa, Terceira Edição Corrigida e Copiosamente Ampliada, Cândido de Figueiredo).

Como, obviamente, não cheguei a nenhuma conclusão, deduzi que havia escolhido o caminho errado. Mas, também, para que quero eu saber? Perdia a graça e gorava a possibilidade de continuar este exercício de adivinhação.

Finalizo, no entanto, com esta construção:
Espumadamente – Escrever puro maquinismo dactilar [da] mente.

domingo, maio 08, 2005

Encontro anual de antigas alunas

Ontem, dia 7, foi o encontro anual das antigas alunas.
Foram muitos os anos passados naquele colégio. Mais precisamente nove. Mas talvez pela idade, esse tempo parece-me, hoje muito mais longo. Na verdade todas as coisas apresentavam, na altura, uma dimensão totalmente diferente da que lhes dou hoje. O colégio parecia maior. Os corredores, de tábua corrida, impecavelmente lustrosos e com aquele saboroso cheiro a cera, pareciam intermináveis. As salas de aula, com o tradicional estrado para a mesa da professora e o enorme quadro preto e respectivo ponteiro, pareciam impor mais respeito e disciplina. Os recreios pareciam melhores. O ensino parecia mais sério, a educação mais impecável. Até na capela o silêncio e recolhimento pareciam mais profundos. Talvez tudo isto não passe de mera ilusão de criança. Mas de uma coisa tenho a certeza: as amizades construídas, que perduram até hoje, são reais, são verdadeiras, são desinteressadas e isto não é ilusão.

sexta-feira, maio 06, 2005

Não me apeteceu escrever...

Acabei de ser ”repreendida” por pessoa amiga por nunca mais ter escrito nada. A verdade é que esta minha ocupação de “tratadora de netos”, para além de outras, deixa-me pouco tempo livre. Passo a explicar. Há dois anos que estou aposentada e, na altura, achei que ia, finalmente, ter tempo livre para fazer mais companhia à minha mãe, para visitar, de vez em quando, uma filha que vive no estrangeiro (já me ameaçou de me demitir de mãe), para ir até aos lados de Santo Tirso, onde vive o meu filho (sim, tenho um neto que fala à moda do Norte), para pintar – nos meus tempos de juventude adorava pintar a óleo e desenhar a carvão -, para aprender a fazer tapetes de Arraiolos, para aprender bordados de Castelo Branco, para escrever umas coisas (na altura, não pensava em blogs) e para visitar locais de interesse em Lisboa. Mas é bem verdade que o homem põe e Deus dispõe. Circunstâncias mais ou menos adversas (estou a ser optimista aos dizer mais ou menos), obrigaram uma das minhas filhas a vir viver na minha casa com dois dos meus netos. Se, por um lado, adoro cá tê-los, a verdade é que a minha vida se tornou num reboliço. De qualquer forma, algumas coisas consigo fazer (a propósito, vale mesmo a pena ver, na Gulbenkian, a exposição “7000 anos de arte persa”) e se não escrevi no blog a razão é essencialmente porque não me apeteceu. O que é certo é que, no início, gastei tempo demais em frente ao monitor e estou à espera que o pêndulo da atracção perca velocidade e estabilize o seu movimento. Até lá!