quarta-feira, abril 27, 2005

Que atracção é esta?

Dei comigo a pensar: qual a razão por que não aproveitamos o tempo que gastamos em frente do monitor a telefonar aos amigos para combinar um encontro ou apenas para conversar um bocado? Garanto que tenho amigos que não vejo há meses e com quem raramente falo. Bem sei que se precisar deles, eles estão sempre presentes, mas o hábito do convívio perdeu-se. Já provei o doce sabor da amizade e a disponibilidade e entrega totais de amigos meus em alturas difíceis da minha vida. Mas no ramerrão da vida, a desculpa de que não temos tempo, de que a engrenagem louca nos absorve, de que nem tempo temos para descansar, justifica todas as ausências e afastamentos. E não falo só dos amigos. Com a família passa-se o mesmo. Exceptuando o círculo mais próximo, receio um dia cruzar-me com um qualquer primo e já não o reconhecer, por o cabelo ter embranquecido e as rugas terem alterado o rosto... Há muitos, muitos anos, na agradável varanda da nossa casa em belo estilo colonial, lá pelas Áfricas, era raro o dia em que não apareciam amigos dos meus pais para beber chá ou apenas conversar. Mas deixando-me de saudosismos, que atracção faz com que eu escreva para sabe Deus quem? E que atracção faz com que leia o que não sei quem escreveu? Sinto como se tivesse um grupo de amigos sem rosto. E, curiosamente, gosto, mas não percebo porque é que gosto Faz-me lembrar uma história que se passou comigo. Uma das minhas filhas, num passeio à Suíça, encontrou, num antiquário, um daqueles fascinantes álbuns antigos de fotografias. Como sabia que eu gostaria de ter um, resolveu comprá-lo para me oferecer. Claro que adorei, mas fez-me impressão verificar que vinha cheio de fotografias de pessoas que não conhecia. Resolvi então criar uma história, depois de cuidada análise das personagens misteriosas, com avós, pais, filhos, netos e passei a designá-los como a minha família da Suíça. Talvez agora o mesmo se vá passar com a minha nova família electrónica. Mas que misteriosa atracção é esta?

terça-feira, abril 26, 2005

A Torre do Tombo

Fui hoje visitar a Torre do Tombo. Vivendo em Lisboa há tantos anos, eram poucos ou nenhuns os museus e locais de interesse que já tivesse visitado. É triste conhecermos mais do estrangeiro do que do nosso próprio país. Quando me aposentei, decidi que todas as semanas faria uma visita. Já fui ao Museu de Arte Antiga (duas vezes), mas ao British Museum fui dezoito vezes. Já fui ao Museu do Chiado, ao Museu da Farmácia (muito interessante), ao Museu da Carris, ao Museu da Maçonaria, ao Museu do Traje, ao Museu Militar, à Academia Militar aos Palácio Marquês de Fronteira, ao Museu de Macau, ao Museu da Gulbenkian, ao Museu Vieira da Silva, ao Museu da Cidade, à Fundação Eugénio de Almeida e mais uns tantos. Temos, de facto, um acervo artístico belíssimo e riquíssimo, mas nota-se, muitas vezes, que o dinheiro que atribuímos à cultura é insuficiente. Sem querer polemizar, pergunto-me se construir estádios de futebol era mesmo mais importante.
Voltando à Torre do Tombo. Qualquer pessoa pode consultar obras ou documentos que se encontram em deplorável estado de conservação. Por falta de pessoal não estão microfilmados nem copiados em qualquer outro suporte, pelo que são os próprios originais que são disponibilizados. Faz-me pena pensar que os meus netos talvez já não tenham a possibilidade de os conhecer por, entretanto, se terem deteriorado por completo.

segunda-feira, abril 25, 2005

A minha casa e eu

A minha casa e eu

Antigamente este título seria naturalmente “Eu e a minha casa”. Nessa altura eu dominava a casa. As coisas estavam onde eu queria. Tudo se mantinha arrumado. Tudo tinha a sua lógica. Presentemente a casa obviamente domina-me. Tudo está por todo o lado e dificilmente sei onde está o que quer que seja. E mais, não tenho lugar para pôr nada. Passo a explicar: moro numa casa de cerca de 200m2 de área. Tem uma sala que, antigamente, era uma sala normal – sofás, maples, mesas, móveis e cadeiras, cada peça com o seu uso vulgar; hoje não, os sofás, os maples e as mesas têm livros, revistas, desenhos dos netos, canetas, tesouras, brinquedos e as coisas mais imprevisíveis. Os móveis ainda vão conseguindo escapar à voragem da ocupação. Num canto do chão, um vídeo avariado e um CDI fora de moda aguardam não sei bem que destino. Tem um escritório que, antigamente, acolhia o que era suposto conter. Estantes, uma papeleira, uma secretária, uma mesa de jogo, maples e cadeiras, uma mesa de apoio, tudo ordenado e lógico. Hoje a secretária ostenta um computador, uma impressora com fotocopiadora e fax, mais uma impressora a preto e branco e nenhum espaço para escrever à mão. Por trás da secretária um emaranhado, diabolicamente urdido, de fios eléctricos, qual cortina impeditiva da passagem do aspirador para a respectiva limpeza de pó. Em cima de um dos maples jaz o saco do tapete de arraiolos que comecei a fazer há coisa de um ano, porque não vislumbro outro local para o colocar. Na mesa de jogo, pilhas de livros que já não há espaço nas estantes, nem paredes vagas para pôr mais estantes... e num canto do chão, um monitor de televisão avariado e uma televisão à espera de ser consertada. A cozinha é a cozinha e, por enquanto, tudo bem; mas, ao lado da cozinha há o chamado quarto e casa de banho da criada e, hoje, que só tenho empregada a dias, o quarto transformou-se em quarto de arrumos (mais correctamente em quarto da confusão) e a casa de banho em lavandaria, com permanentes montes de roupa para lavar, não obstante o uso intensivo da máquina de lavar roupa. Passemos aos quartos: o meu quarto é o único onde não reina a confusão. Os restantes três, para além da mobília adequada – cama, mesinha de cabeceira, roupeiro, estantes, escrivaninha, cadeira e, num caso, um maple – contêm montes de brinquedos, dezenas e dezenas de bichos de peluche, livros, jogos, televisão, aparelhagem de alta fidelidade, videos, DVD, garagens, pistas, cavalos de pau, carrinhos de bonecas, camas de bonecas, casinhas de bonecas e eu sei lá que mais, até um microfone e uma bola para receber socos.
Perante esta pálida descrição da minha casa, tenho ou não razão quando digo que ela me subjuga? Que me entristece? Mas não tanto pelo seu aspecto algo caótico, mas pelo seu significado? Será que os meus três filhos, que não tinham nem um décimo da tralha, nem um décimo da roupa, não foram mais felizes quando aqui viveram, do que, hoje, os meus dois netos, com um tal excesso de coisas, que não gozam nada, que não brincam com nada? Esta sociedade leva-nos onde? Não é só a casa que me domina. O mundo domina-me. E, quando tento reagir ao que me rodeia, sinto-me qual D. Quixote a lutar contra moinhos de vento. Tudo não passa de vento...

Obrigada Pitucha, obrigada Madalena, obrigada Espumante. Já não sou satélite. Já tenho o meu blog. Talvez ajude, se conseguir dominá-lo!

domingo, abril 24, 2005

O primeiro

Sou beirense. Nasci na Beira, Moçambique. Sou beirã. O meu pai era da Beira Baixa e o meu marido da Beira Alta. Estou a escrever na Beira Litoral, onde numa bonita cidade, passo algum tempo.